Monsanto manipulou dados sobre os danos do herbicida Roundup


Publicado em 21/08 às 14h

Por Benjamin Prizendt        C. P. C. A. P. V 

No início deste mês, foram tornados públicos, nos EUA, novos documentos que desnudam as manipulações criminosas da Monsanto em relação ao herbicida Roundup. Elas vão desde a supressão de informações, à corrupção de autoridades regulatórias governamentais, nomeadamente pesquisadores e técnicos da EPA (Environmental Protection Agency). São mais de 75 documentos, que incluem mensagens trocadas com membros da EPA e discussões sobre pagamentos feitos a cientistas. Esses documentos, que totalizam mais de 700 páginas, foram publicados pelo escritório de advocacia Baum, Hedlund, Aristei & Goldman, uma das muitas firmas que representam milhares de queixosos que têm demandas contra a Monsanto.

Os advogados pretendem condenar a Monsanto nas ações movidas por famílias que, devido ao Roundup, contraíram um tipo de câncer no sangue denominado Non-Hodgking  Lymphoma (NHL). Os documentos comprovam o que já vem sendo denunciado há muito tempo: a Monsanto tem deliberadamente interrompido estudos que lhes eram prejudiciais, escrevendo de forma oculta (ghostwriting) literatura com aparência de documento oficial/ governamental mas, na verdade, cooptando órgãos de controle governamentais dos Estados Unidos e, por meio deles, desorientando seus equivalentes europeus.

Vários desses documentos discutem a falta de testes robustos dos produtos formulados Roundup. Em um email, o cientista da Monsanto, Donna Farmer, escreve “você não pode afirmar que o Roundup não é cancerígeno ... não fizemos os testes necessários da formulação para fazer esta afirmação. Os testes nas formulações não estão nada próximos do nível do ingrediente ativo”. A promiscuidade da Monsanto com a EPA envolveu até alto funcionário dessa agência governamental – nada menos que o presidente do CARC (sigla em inglês de Comitê de Revisão de Avaliação de Câncer). Esse funcionário, Jesse Rowland, se ofereceu para ajudar (!) a Monsanto a parar uma investigação sobre a carcinogenicidade do glifosato que estava em curso na ATSDR, uma agência de saúde pública do Departamento de Saúde e Serviços Humanos do governo dos Estados Unidos.

Como bem sintetizou Robert F. Kennedy, Jr., um dos advogados que defendem os queixosos contra a Monsanto "temos um ponto de virada na vida corporativa dessa empresa. Ele revela o conluio de executivos da Monsanto com membros oficiais corruptos da EPA, para manipular e esconder dados científicos, de forma a parar estudos tão logo dados preliminares ameaçassem as ambições comerciais da Monsanto, subornando cientistas e escrevendo suas publicações, passando-se por eles e comprando aqueles que deveriam revê-las, de forma a ocular a carcinosidade do Roundup, sua toxicidade, sua rápida absorção pelo corpo humano e tremendos riscos à saúde pública e ao meio ambiente”.

Há muito tempo que se questionava a segurança tanto do glifosate como do Roundup, em meio a diversas pesquisas, mostrando sua relação com câncer e outras doenças. Mas, as ações judiciais somente ganharam corpo após a International Agency for Research on Cancer (IARC), em 2015, classificar o glifosato como provável cancerígeno humano. Nas ações judiciais alega-se que a combinação do glifosato com alguns surfactantes, utilizados nos produtos Roundup da Monsanto, são ainda mais tóxicos que o glifosato sozinho e que a Monsanto procurou esconder essa informação.

Conclusão: essa divulgação pública dos documentos é importante porque as agências regulatórias não podem proteger, apropriadamente, a saúde pública e ambiental sem ter dados científicos imparciais, amplos e acurados, e agora está comprovado que não foi isso que ocorreu no caso do herbicida Roundup da Monsanto e seu ingrediente ativo glifosato.



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