Deserto alimentar urbano é um desafio que a sociedade precisa enfrentar


Publicado em 19/07 às 15h

Por Susana Prizendt        C. P. C. A. P. V. e MUDA-SP

A substituição de florestas e pequenas roças de produção de espécies comestíveis pelas grandes plantações de monocultura, muitas delas de commodities para exportação, fez com que a população de nosso país perdesse a autonomia no setor alimentar. Podemos percorrer imensos territórios em que a soja, ou a cana-de-açúcar (ou até mesmo os eucaliptos) dominam a paisagem, de modo a impossibilitar a obtenção uma simples refeição, que seja proveniente da natureza local. Agora, para nos nutrirmos na maior parte dos municípios, é preciso estabelecer uma relação mercadológica com nossos alimentos. Sem dinheiro, sem comida.

Mas, não é apenas a posse de algum recurso financeiro que garante a um indivíduo uma dieta nutritiva, já que os alimentos oferecidos pela indústria alimentar são desenvolvidos para gerar o maior lucro possível, mesmo que seja com produtos nutricionalmente pobres ou até prejudiciais à saúde. Toneladas e toneladas de produtos comestíveis, ultraprocessados, circulam todos os dias nos mercados, restaurantes, bares, bancas de jornal e, até, em farmácias.

Sobretudo em áreas periféricas das cidades, onde a população tem menor poder aquisitivo, há o império dos salgadinhos, biscoitos e refrigerantes, com suas doses exageradas de gordura, sal, açúcar e aditivos alimentares e sua falta de nutrientes essenciais ao funcionamento do organismo humano. A oferta desse tipo de produto, por valores mais baixos do que os dos alimentos in natura, está impulsionando um padrão de consumo extremamente ruim do ponto de vista qualitativo, mesmo quando há um acesso quantitativo à comida.

Para ilustrar esse cenário perigoso, que já causa impactos graves na saúde da população, foi desenvolvido o conceito de deserto alimentar. Se o local onde a pessoa mora não oferece alimentos saudáveis e financeiramente acessíveis, de maneira a satisfazer suas necessidades nutricionais, então podemos dizer que ela habita uma região desértica do ponto de vista alimentar. Marcar essas regiões, para a realização de ações capazes de combater essa aridez nutricional, é tarefa urgente para frear seus efeitos negativos.

Um grupo de alunos da Faculdade Getúlio Vargas, em São Paulo, criou uma plataforma em que é possível compreender a dinâmica desse fenômeno e orientar a sociedade pra lidar com ele, buscando possíveis soluções. Conheça o mosaico interativo criado por eles e mobilize-se conosco!

No atual momento do país, não deixa de ser uma dura ironia que um megaempresário do setor alimentar, envolto em escândalos político- econômicos, diz ao presidente da república, em diálogo pra lá de suspeito, que está fisicamente bem porque parou de comer produtos industrializados e está ingerindo comida saudável. Ele, com sua imensa fortuna, não está submetido a um dos inúmeros desertos alimentares que suas empresas, produtoras de biscoitos, salgadinhos, carnes embutidas e demais ultraprocessados prejudiciais à saúde, estão contribuindo para criar!



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