Audiência Pública realizada na ALESP revela a ameaça às abelhas e à alimentação


Publicado em 21/03 às 10h

Por Ricardo Costa Rodrigues de Camargo

Presidente da Associação de Meliponicultores do Estado de São Paulo- AMESAMPA

No dia 06/3, por iniciativa do deputado Padre Afonso Lobato (PV), realizou-se audiência pública para discutir a pulverização aérea e os efeitos dos agrotóxicos na apicultura. O objetivo foi debater os Projetos de Leis 405 e 406, ambos de 2016, apresentados pelo parlamentar, que tratam do assunto e que estão tramitando na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.

Foram convidados para compor a mesa especialistas da área de apicultura, a coordenadora da Campanha de Agricultura do Greenpeace, Marina Lacorte, o defensor público Marcelo Novaes representando a Defensoria Pública do Estado de São Paulo, representantes do Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícolas (Sindag) e do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg).  Após a fala de todos os membros da mesa, ficou claro que, apesar da tentativa infeliz dos representantes das indústrias de agrotóxicos e da pulverização aérea de minimizar a situação, o assunto da mortalidade massiva das abelhas no país e principalmente no Estado de São Paulo é gravíssimo e não tem sido tratado pelo poder público e órgãos responsáveis com a devida importância e urgência que a situação requer!

Inúmeros dados de mortalidade de abelhas foram relatados no país todo, inclusive por apicultores de nosso estado, que em depoimento pessoal fizeram um apelo para que os órgãos públicos deem o devido tratamento para essa verdadeira catástrofe, que vem ocorrendo de forma silenciosa em nosso estado; segundo o produtor: “...nossa mesa está sendo envenenada e não tenho mais como exercer minha atividade, pois todas minhas abelhas foram exterminadas...”

A preocupação com os efeitos da pulverização aérea com agrotóxicos foi reforçada pela representante do Greenpeace, indicando que o atual modelo de produção agrícola, preconizado pelo agronegócio, está falido e que tem gerado sérios impactos ao meio ambiente! No caso da pulverização aérea, os riscos de contaminação são bem maiores, pela própria deriva inerente a esse modo de aplicação, afetando cursos de água, toda a biodiversidade e as populações urbanas do entorno das áreas de produção. Ela destacou também a preocupação com o PL 6.299/2002, do então senador Blairo Maggi, que flexibiliza de forma irresponsável as normas para registro e utilização dos agrotóxicos e com o atual “pacote do veneno” que o governo atual vem implantando com medidas autoritárias e irresponsáveis !

O defensor público Dr. Marcelo Novaes enumerou uma série de dados preocupantes indicando que o Estado de São Paulo, sozinho, consome 4% dos agrotóxicos do mundo. A área pulverizada é de três milhões de hectares, o que soma 12% do território. Levantamentos realizados pela promotoria pública da região do Pontal do Paranapanema indicam, por exemplo, que 85% das aplicações aéreas, realizadas em 2016 naquela região, não poderiam ter sido realizadas, uma vez que as condições climáticas não eram adequadas, conforme indicado nas próprias bulas dos produtos! Segundo ele: “...a conta já chegou”...há provas de problemas de saúde pública e de contaminação ambiental em cerca de 150 cidades paulistas, que estão em regiões onde o agronegócio predomina. Novaes citou como exemplo o município de Coronel Macedo, de pouco mais de cinco mil habitantes, que tem centenas de casos de câncer, e Ribeirão Preto, onde as mulheres têm 50% mais chance de ter filhos com má-formação do que em cidades como Cubatão e São Paulo.

Além dos problemas de intoxicação aguda e crônica por agrotóxicos, some-se o fato de que no Estado de São Paulo ainda são utilizados produtos já banidos em diversas partes do mundo, como o herbicida Paraquat!

Quando a plenária pôde se manifestar pudemos, enquanto Presidente da Associação dos Meliponicultores do Estado de São Paulo e Presidente da Câmara Setorial dos Produtos Apícolas do Estado de São Paulo, destacar a verdadeira inversão de valores que se verifica na sociedade atual, na qual os interesses econômicos de uma elite minoritária determinam o rumo da sociedade...e uma atividade de fundamental importância ambiental e social, como é o caso da criação racional de abelhas, está em iminência de ser extinta, pelas práticas agrícolas de outras atividades produtivas, como é o caso da cultura da cana de açúcar, da laranja e outras.

O que prevalece são os interesses econômicos das transacionais em detrimento da “vida” e onde os apicultores e meliponicultores se vêem completamente desassistidos pelo poder público, tendo que arcar sozinhos com prejuízos e danos causados pelo uso e aplicação indiscriminada de agrotóxicos! “A situação gravíssima da mortalidade de abelhas, não deve ser visto apenas como um problema dos apicultores e meliponicultores, mas sim de toda a sociedade”! As abelhas como indicadores ecológicos da saúde ambiental vêm nos dando os sinais claros de que algo está muito errado... e assim não podemos mais aceitar esse modelo de agricultura, pois quando um avião descarrega seu veneno, descarrega na cabeça de todos, afetando toda a biodiversidade e nossa vida!

Para entender melhor a importância das abelhas, veja o vídeo Sem Abelha, Sem Alimento produzido pela organização "Bee or not to be?", com o apoio do Projeto Polinizadores do Brasil.

 



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