Estimulando as redes solidárias agroecológicas para a criação coletiva de anticorpos na sociedade


Publicado em 27/05 às 17h

           Por Susana Prizendt - C. P. C. A. P. V. e MUDA-SP

 

 Se uma sociedade é vítima de uma pandemia, que afeta fortemente a saúde de uma parte da população que a constitui, isso significa que essa sociedade está doente. No caso da crise desencadeada pelo novo corona vírus, que vem abalando países ao redor de todo o globo, é difícil separarmos os limites entre o início da doença e o que seria a fase de uma manifestação mais aguda de seus sintomas.

É que nossa sociedade já se encontrava enferma, e muito antes do novo vírus se espalhar. Um planeta febril, em que as atividades humanas estão, cada vez mais, desencadeando seu aumento de temperatura, desequilibrando sistemas que a natureza levou milhões de anos para gerar; um mundo onde as desigualdades socioeconômicas produzem um cenário em que a obesidade e a desnutrição convivem lado a lado (e até se sobrepõem, já que as calorias vazias de nutrientes imperam nos alimentos industrializados, que são vendidos a preços baixos nas periferias); uma civilização que não cuida de seus integrantes e que desrespeita a natureza, fonte absoluta de tudo o que precisamos para viver.

A atual crise pandêmica pode ser considerada como uma nova etapa, mais acentuada, dessa enfermidade que já nos acometia coletivamente.

Mas, se há consenso de que para um ser vivo superar uma doença infecciosa é necessário que ele desenvolva anticorpos contra o agente infeccioso, também podemos afirmar que uma sociedade doente necessita do desenvolvimento de defesas imunizadoras para que consiga se transformar numa sociedade saudável.

Precisamos restaurar nossos ambientes naturais, precisamos cuidar de cada integrante de nossa comunidade para que seja capaz de conviver com os demais e exercer um papel digno no ambiente coletivo; precisamos restabelecer nossos laços com a Mãe Terra e com todos os seres e elementos que a compõem.

Se a atual crise da Covid-19 revelou o quanto estamos doentes, enquanto organismo coletivo, ela também está trazendo oportunidades preciosas para que criemos nossos mecanismos de proteção e regeneração, rumando para a conquista de uma sociedade saudável. E é aí que a agroecologia e suas teias regenerativas fazem toda a diferença!

Um dos projetos que se destaca no território paulista é o Anticorpos Agroecológicos, que se propõe a ser uma ponte entre os agricultores e quem precisa de comida e é formado por agricultores urbanos e periurbanos, além de ativistas que conhecem o setor profundamente.

A importância da iniciativa está em sua simplicidade, transparência, potencial multiplicador e atenção à solidariedade nos valores envolvidos, considerando o alimento como algo vital, muito além de simples mercadoria.

O projeto atende a uma necessidade urgente da população periférica: o acesso aos alimentos in natura, já que a maior parte das doações que as comunidades recebem é de gêneros não perecíveis ou industrializados, comprometendo a nutrição de seus integrantes.

Um dos pilares do Anticorpos Agroecológicos é fortalecer os vínculos já existentes entre agricultores e comunidades, além de gerar novos vínculos, que se estendam para muito além do período de crise pandêmica, contribuindo para a conquista de uma sociedade mais fraterna e equilibrada.

Nós, editores deste Boletim, gostaríamos de convidar nossas leitoras e leitores a conhecer a iniciativa, contribuir com trabalho ou doações, inspirar-se em suas ideias para criar propostas semelhantes em outras regiões do país.

Se estamos coletivamente doentes, precisamos de anticorpos coletivos para caminharmos para um organismo social com saúde e vigor.

Viva a agroecologia e toda a rede de pessoas que a ela se dedicam!