Modelo produtivo atual, baseado no agronegócio, revela sua total ineficácia nesta crise planetária


Publicado em 23/04 às 15h

Por Susana Prizendt - C. P. C. A. P. V. e MUDA-SP

 

 Há anos, no atual cenário sócio econômico globalizado, o Brasil vem adotando, de modo crescente, o papel de grande produtor de commodities para exportação. Nossas terras, nossas águas, nossos recursos biológicos e uma boa parte do capital que investimos têm sido utilizados para que possamos fornecer matéria-prima, seja de origem vegetal, animal ou mineral, para países do mundo todo, sobretudo para as grandes potências internacionais.

Se os impactos da adoção deste posicionamento já estavam, há muito tempo, gerando um quadro de crescentes desigualdades sociais e econômicas e de degradação ambiental; a crise civilizatória que vivemos, intensificada pela disseminação do novo coronavírus, ampliou tais impactos, escancarando a crueldade de um modelo predatório, excludente e insustentável, no qual uma pequena e ultra-gananciosa elite financeira se apropria do patrimônio natural de nosso território, deixando um rastro ascendente de miséria e destruição de nossos ecossistemas.

Hoje, como não era sentida ou percebida, tão explicitamente, há poucos meses atrás, a presença da fome no mundo tem se alargado e ameaça atingir proporções gigantescas, até mesmo em um país como o Brasil, considerado uma potência no setor da agropecuária.

Com nossos municípios sendo cercados pelos imensos latifúndios monocultores de culturas como soja, cana de açúcar e até de eucaliptos, os habitantes de muitas regiões do país encontram-se em uma situação precária, em relação ao acesso aos alimentos necessários para sua sobrevivência.

A interrupção do funcionamento de muitas redes de comércio e de serviços, devido à necessidade de manter o isolamento social, de modo a conter a disseminação da Covid-19, associada a uma política econômica que vem precarizando as relações de trabalho nesses setores - deixando trabalhadoras e trabalhadores formais e informais, cada vez mais, privados da garantia de seu sustento - , ameaçam a segurança alimentar e nutricional de grande parte da população.

Com nossos campos ocupados pelas monoculturas de exportação do agronegócio, altamente concentradora de renda e fortemente mecanizada, há menos espaço para que famílias trabalhadoras mantenham seus cultivos de espécies alimentares. Agora, frente a carência econômica, advinda de uma crise social sem precedentes na nossa geração, não podemos contar com os alimentos que essas terras poderiam fornecer à população, se estivessem sendo cultivadas por uma teia de pequenos agricultores e agricultoras.

Soa irônico que nosso país, onde o Agro é divulgado como o grande motor econômico, gerador de riquezas e de desenvolvimento para a nação, se encontre de tal maneira exposto à fome. Mas o que parece ser ironia é, na verdade, fruto de um sistema programado para impedir a conquista da soberania alimentar dos povos de diferentes regiões do planeta, de modo a proporcionar lucros exorbitantes para uma minoria de multi-milionários, pertencente à elite financeira internacional.

E o que parece ironia desaba no cenário dramático que a humanidade vivencia hoje, no qual uma parte considerável da população de países agroexportadores, como é o caso no Brasil, está ameaçada a não ter o que comer durante o período de pandemia global.

A crueldade deste modelo produtivo vem sendo denunciada, há anos, pelas organizações sociais brasileiras. A Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida (CPCAPV), que completou, oficialmente, nove anos de atuação este mês, promove o debate sobre a necessidade de transformarmos este modelo, produzindo e divulgando materiais que revelam suas consequências nefastas.

Não foi por coincidência que o lançamento da CPCAPV se deu, em 2011, em um dia 7 de abril, data que é conhecida por ser o dia mundial da saúde. O sistema agrícola de latifúndios monocultores, altamente consumidor de agrovenenos, vem gerando impactos profundos nos organismos de brasileiras e brasileiros, se constituindo um verdadeiro problema de saúde pública.

Pessoas adoecidas pelo contato e pelo consumo de alimentos com agrotóxicos; ecossistemas desequilibrados pelo avanço das fronteiras agrícolas monocultoras; substituição das culturas de espécies nutritivas por commodities, destinadas ao mercado externo; concentração fundiária e mecanização das áreas rurais, forçando famílias campesinas a irem para os centros urbanos; precarização das relações trabalhistas em todos os setores; sucateamento das instituições de pesquisa pública; corte de verbas para o Sistema Único de Saúde (SUS)... são alguns dos fatores, intensamente vinculados ao atual modelo produtivo brasileiro, que compõem o quadro dramático em que a pandemia pelo novo coronavírus atinge nosso país.

Frente à urgência e a gravidade da situação, a sociedade se mobiliza para lutar, não apenas para combater uma nova doença, mas para construir um novo modelo sócio-econômico, no qual a agroecologia terá papel central, oferecendo um caminho de solidariedade entre os seres humanos e de regeneração de nossa sagrada Mãe Terra.

Não é um mero acaso que, nesta crise, o socorro aos mais vulneráveis tem vindo de organizações ativistas do campo e da cidade, sobretudo na área da alimentação. Iniciativas solidárias para o fornecimento de alimentos estão pipocando por todo o país e, em grande parte delas, é possível encontrar a presença de movimentos como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA)  e o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), compartilhando suas colheitas, seus saberes, sua capacidade de chegar nas comunidades e nos setores marginalizados nos quatro cantos do Brasil.

Que possamos caminhar com coragem nessa luta, compreendendo que somente nossa força coletiva será capaz de trazer resultados positivos a esta crise, contendo a ganancia individualista dos tais mercados e abrindo espaço para um novo capítulo da história de nossa civilização.