Por cultura alimentar, Comunidades que Sustentam a Agricultura juntam gente do campo e cidade


Publicado em 27/03 às 13h

Por Juliana Fronckowiak Geitens – O Joio e o Trigo

 

        Gisely Coité e Aleixo Leitão são companheiros e fazem parte de um movimento crescente no Brasil. As Comunidades que Sustentam a Agricultura (CSA’s) estão espalhadas pelos cinco biomas brasileiros e buscam cumprir as necessidades de cada comunidade. Isso significa que quilombolas, assentados, indígenas ou “urbanoides” podem ser os protagonistas.

        “O movimento das CSA’s vai além do simples. Ele traz junto, no bojo, a possibilidade de um ganho de consciência expressado por pessoas que nem conheciam a maioria dos alimentos ofertados aqui. Não conheciam porque são “urbanóides”, nunca tiveram a experiência de ver crescer um pé de alface, nem de ver como é plantado. São crianças que nunca pegaram uma fruta do pé”, conta Toninho, um dos cinco primeiros associados da CSA Florestta.

         A CSA Florestta atende mais de oitenta famílias nas regiões do Gama, Águas Claras, Asa Sul e Asa Norte – um dos únicos CSA’s em Brasília que atende a uma cidade satélite além do plano piloto. No Brasil, existem 140 comunidades registradas, sendo que 22% delas ficam no Distrito Federal. Segundo Wagner dos Santos, co-fundador da CSA Brasil, isso se deve a diversidade de pessoas e necessidades da região.

         Danielle Kemp nasceu em Santa Cruz do Rio Pardo, município próximo a Bauru, em São Paulo. Começou a pesquisar sobre alimentação quando engravidou, em 2015. Ela conta que, acompanhada de Juliana Mello, nutricionista que hoje faz parte da CSA Brasil, foi pouco a pouco descobrindo quais eram os melhores caminhos a trilhar quando o tema era alimentação. “A gente descobriu os rótulos, as comidas boas e as pedaladas da indústria”, conta. Junto com o conhecimento, veio também a consciência sobre a sazonalidade dos alimentos, a reciclagem e tantos outros aspectos que fazem parte dessa cadeia circular.

“Comecei procurando simplesmente a cesta de alimento orgânico. Ponto. Aí, comecei a prestar atenção nas ‘ogrices’ que eu fazia e não me tocava. O pessoal trazia a caixinha de ovo que tinha acabado, o saquinho da alface… Eles lavavam e devolviam. Eu jogava tudo isso no lixo. Chegava em casa, rasgava o saquinho e jogava no lixo”, enfatiza Danielle.

         “As pessoas aprendem [na CSA] a utilizar tudo nos alimentos: os frutos, as folhas, as raízes. A maioria esmagadora das pessoas aqui não joga mais fora as folhas da cenoura, da beterraba, coisa que, tradicionalmente, na nossa cultura, essas partes são descartáveis. Aqui, a gente faz um reaproveitamento de tudo, inclusive das sementes: a gente pede para as pessoas guardarem e replantarem”, complementa Toninho.

          Não tem receita de bolo: um bairro ou comunidade sente a necessidade de consumir alimentos in natura sem defensivos agrícolas ou um agricultor sente a necessidade de escoar sua produção e as pessoas se organizam para cumprir tais objetivos. Com Gisely e Aleixo, não foi diferente. Ela, advogada. Ele, engenheiro. Decidiram mudar de vida: sair da cidade grande para criar os filhos em contato com a natureza. A mudança exigiu esforço e tempo. Primeiro, arrendaram uma terra ao lado da casa em que moravam, no Gama, Distrito Federal. Com o passar do tempo, o espaço foi ficando pequeno. Então, decidiram comprar uma chácara em Luziânia, no Goiás, pouco menos de uma hora de onde moram. Parte do caminho é feita em estrada de terra e, como boa parte do Brasil, só se enxerga soja. Segundo Levantamento Sistemático da Produção Agrícola do IBGE, o estado do Goiás é o quarto maior produtor de soja. Só perde para o Mato Grosso, Rio Grande do Sul e Paraná.

        Tudo que o casal planta na chácara pode ser caracterizado como orgânico porque tem a certificação participativa, exigida pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), mas, de acordo com Wagner, o selo de orgânicos conferido ao produtor não é um requisito para que a comunidade se caracterize como uma CSA. “A comunidade confia que aqueles agricultores não fazem uso de defensivos, não há necessidade de certificação”, afirma em entrevista por telefone. Dá pra ver de longe a “barreira verde” de árvores na propriedade de Gisely e Aleixo que faz divisa com a plantação de soja. Essa é uma das técnicas utilizada na agricultura para que os insumos agrícolas das propriedades convencionais não afetem a produção sem o uso dos defensivos. “Não é só comer um alimento que é produzido de forma orgânica. É todo um contexto: a gente cuida da água, a gente cuida do solo, a gente cuida do ar, a gente planta árvore, a gente torna o solo mais rico”, ressalta Gisely.

         Na CSA, tarefas como logística, pagamento e entrega são feitas pelos consumidores, chamados de co-agricultores. “Acreditamos que todos somos a mesma coisa, apenas temos papéis diferentes. Não estamos pagando pelo alimento, estamos todos juntos trabalhando para que o alimento chegue até a nossa mesa”, menciona Wagner, co-fundador da CSA Brasil. (edição Susana Prizendt)