Movimento Urbano de Agroecologia no estudo Juventude E Agroecologia Em Contexto Urbano


Publicado em 21/02 às 14h

Por Clara Mabeli Bezerra Baptista [1]

          A agroecologia, também chamada de agricultura ecológica, pode ser entendida como prática agrícola, ciência e movimento social. Envolve modos de produzir, distribuir, comercializar e consumir alimentos de maneira harmônica às dinâmicas naturais, sem lançar mão de insumos externos ao meio em que é realizada, podendo ser entendida, desta maneira, como uma alternativa ao sistema agrícola tradicional (SANTOS, 2017). Inserida nos debates relativos à conscientização ambiental, esta temática é uma pauta recente na agenda ambiental contemporânea, que se constitui como um dos novos espaços de engajamento e expressão política da sociedade como um todo e da juventude de modo particular (INSTITUTO CIDADANIA, 2004; CARVALHO, 2004), estando fortemente associada aos debates envolvendo juventudes rurais. Neste contexto, a agroecologia entra no cenário de lutas das juventudes rurais em relação ao avanço na “transição/produção agroecológica e orgânica, mas, também, disputa seus significados e o fortalecimento da participação da própria juventude” (CASTRO et al, 2017, p.295). 

           De modo geral, a lógica das práticas agroecológicas prioriza a produção em pequenas propriedades e se baseia em sistemas produtivos que são diversos, podendo ser, assim, adaptados à realidade específica do local onde serão adotados (SANTOS, 2017; ALMEIDA, 2014). Dessa maneira, tais características da agroecologia permitem aproximar dois campos que, à primeira vista, podem parecer até opostos: agricultura e urbano (ALMEIDA, 2014). Esta aproximação pode promover a expansão das reflexões em torno das possíveis relações entre juventude e agroecologia, trazendo para o debate também, portanto, o papel de jovens inseridos em contexto urbano nesta relação.

          Visando, assim, investigar os fatores que motivam jovens inseridos em contexto urbano a se envolverem com a agroecologia na cidade de São Paulo, por meio da adesão ao Movimento Urbano de Agroecologia de São Paulo (MUDA SP), e analisar relações existentes entre jovens do contexto urbano e agroecologia, foram realizadas observações participantes em dois eventos que contaram com a presença do MUDA SP em sua organização: o ato “Banquetaço”, ocorrido na Praça da República, e uma roda de conversa sobre práticas de sustentabilidade nas grandes cidades, realizada no Sesc 24 de Maio. Além disso, foram aplicadas também entrevistas semiestruturadas com seis pessoas (3 homens e 3 mulheres) que são membros do MUDA SP e que necessariamente a ele aderiram enquanto eram jovens e com um jovem colaborador do Movimento.

           Os principais resultados mostram que atualmente não há jovens na composição principal do MUDA SP, o que pode ser lido como um indicativo da necessidade de fortalecer a relação entre juventude e agroecologia no contexto urbano. Porém, mesmo que a visão da maioria dos/as entrevistados/as seja a visão do período que vivem atualmente, fase adulta, trabalhou-se com a memória ligada à experiência da juventude. Desse modo, as entrevistas realizadas explicitaram a agroecologia como um dos caminhos possíveis para evitar e diminuir impactos causados não só pelos modelos tradicionais de agricultura, mas também efeitos gerados pelo sistema capitalista de modo geral. Ademais, percebeu-se também que as motivações para o engajamento com a agroecologia se relacionam com a assunção de projetos de vida dos/as entrevistados/as e que tal envolvimento através de um movimento como o MUDA SP está ligado à potência identificada no formato de rede que este possui, o que possibilita troca de informações, afeto e relações entre os pares. Outras motivações também incluem a busca por formas alternativas de se viver, por reconexão com o ambiente natural e pela aproximação rural-urbano, além de haver também algumas pautas específicas da condição juvenil no contexto desta relação com a agroecologia em ambiente urbano, tais como a interseccionalidade com pautas de gênero e a reivindicação de outros modos de viver a cidade, por exemplo.

          Por fim, espera-se que as informações levantadas neste trabalho sejam úteis a estudos futuros acerca da relação entre agroecologia e juventude em contexto urbano e que possam servir como base de argumentação para possíveis reivindicação de direitos de cidadania por parte dos sujeitos jovens.

[1] Texto baseado em monografia apresentada ao curso de Especialização em Juventude no Mundo Contemporâneo da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), como requisito parcial para obtenção do título de Especialista em Juventude no Mundo Contemporâneo, sob orientação do Prof. Dr. Nilson Weisheimer.

2 Gestora ambiental pela Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP) e especialista em Juventude no Mundo Contemporâneo pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE).

3 Segundo o Estatuto da Juventude, “são consideradas jovens as pessoas com idade entre 15 (quinze) e 29 (vinte e nove) anos” (BRASIL, 2013). Porém, há que se destacar que falar de juventude significa falar sobre muito mais do que uma simples faixa etária. Nesta pesquisa, a juventude foi entendida como uma categoria social historicamente construída (GROPPO, 2000). Possuindo valor em si própria, não é vista, assim, como uma simples fase de transição da infância para a vida adulta, mas como uma “etapa singular do desenvolvimento pessoal e social” (ABRAMO, 2005, p. 22), protagonizada por sujeitos que apresentam diversidade em termos de vivências e aspectos tais como raça, classe, gênero, etnia, local de residência, orientação sexual (ABRAMO, 2005; GROPPO, 2017; INSTITUTO CIDADANIA, 2004; NOVAES, 2007). Ainda assim, mesmo em meio a tanta multiplicidade, pode-se dizer que jovens que vivem em um mesmo tempo histórico compartilham uma experiência geracional comum e que a juventude é como “um espelho retrovisor da sociedade” (NOVAES, 2007, p. 7).