Desmatamento crescente é ameaça ao patrimônio biológico e à segurança alimentar do Brasil


Publicado em 21/02 às 14h

 Por Susana Prizendt - C. P. C. A. P. V. e MUDA-SP

Nós, brasileiras e brasileiros, ainda não descobrimos a quantidade de espécies vegetais comestíveis que existem em nossos biomas, mas há expectativas de que esse número se aproxime de três mil! Cada uma dessas espécies possui características próprias e contém nutrientes diferentes, além de oferecer sabores, aromas, cores e texturas singulares aos nossos sentidos.

Trata-se de um precioso tesouro alimentar e seu valor é muito mais essencial, para os seres humanos e para a manutenção da teia da vida, do que qualquer cálculo financeiro poderia definir.

No entanto, estamos vivenciando um acelerado processo de destruição dessa riqueza biológica, no qual podemos eliminar espécies comestíveis que nem chegamos a conhecer!

Há mais de 500 anos, a colonização europeia do território brasileiro desencadeou uma transformação dos nossos ecossistemas e foi, gradualmente, substituindo nossas áreas de matas, pantanais, cerrados, entre outros ambientes de imensa biodiversidade, por pastos, monoculturas e espaços urbanos de uso industrial, em que poucas espécies vegetais e animais sobrevivem.

Hoje, enquanto escutamos cientistas do mundo inteiro alertando sobre a gravidade das consequências desse processo destrutivo, para o equilíbrio planetário e para a sobrevivência dos seres humanos, estamos sendo testemunhas de uma ampliação dessa destruição em nosso território, em decorrência de políticas irresponsáveis, que os atuais governantes do país vêm adotando.

O desmonte que os setores ambientais das nossas instituições públicas vêm sofrendo, desde que a gestão do governo Bolsonaro se iniciou, pode ser constatado pela ampliação do processo destrutivo de nossos biomas, com índices de desmatamento, queimadas, invasões aos territórios indígenas e às áreas de proteção ambiental, disparando em 2019. E a avalanche contra nossos povos e nossa natureza segue em curso, com as propostas de abertura ao grande capital internacional, de regiões que deveriam ser preservadas, restauradas ou manejadas de modo ecológico.

Segundo a ONG Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia), uma área de 188 km² foi desmatada na Amazônia Legal em janeiro de 2020, caracterizando um aumento de 74% em relação a janeiro de 2019. Mas a situação é ainda mais acentuada se analisarmos o aumento da degradação ambiental, pois o crescimento medido pela ONG foi de 1.382%, ao compararmos os números de janeiro de 2020 aos de janeiro de 2019.

Para mostrar como vem ocorrendo a devastação ambiental em todas as regiões do país, o observatório De Olho nos Ruralistas acaba de divulgar um levantamento que revela quem são os maiores desmatadores das terras brasileiras, ou seja, os responsáveis pelo maior número de autuações feitas pelo IBAMA, desde 1995.

Na lista, de acordo com o texto divulgado pelo observatório, aparecem “milhares de empresas — em boa parte, companhias abertas — e centenas de políticos. De multinacionais a expoentes brasileiros do agronegócio. De banqueiros a donos de empreiteiras. O leitor atento achará nome de cantor famoso. Ou pai de técnico de futebol. Organizadores do carnaval baiano. Colunáveis. Prefeitos. Um governador. Vários ex-governadores.”

Já não há mais tempo para tolerarmos esse avanço destrutivo sobre a natureza em nosso país, é necessário divulgar, de forma ampla, quem são esses grandes desmatadores, para que a sociedade tenha consciência da atuação criminosa, que eles vêm empreendendo há anos, e exija que o poder público tome medidas  para punir e frear essa atuação.

Convidamos nossas leitoras e leitores a conhecer o levantamento realizado pelo De Olho nos Ruralistas, compartilharem em suas redes e apoiarem o trabalho do observatório, que está com uma campanha para novas assinaturas. A partir de R$ 12 por mês, já é possível se tornar um assinante e receber, a cada semana, um boletim com uma seleção e uma análise das notícias veiculadas nos setores da alimentação, agricultura, meio ambiente e de conflitos sociais ligados à ocupação da terra.

Vamos seguir em mobilização para que nossos ecossistemas, nosso patrimônio biológico, nossa cultura alimentar e nossos povos das florestas tenham plenas condições de continuarem irradiando vida, só desse modo é que poderemos garantir a segurança e a soberania na alimentação do povo brasileiro!