Boletim Nutrindo a Mudança – DEZEMBRO DE 2019     


Publicado em 18/12 às 15h

Em 2019, devido aos retrocessos governamentais, sociedade brasileira enfrentou muitos desafios

Por Susana Prizendt - C. P. C. A. P. V. e MUDA-SP

Resiliência é a capacidade dos seres humanos de responderem às mudanças, enfrentarem obstáculos ou suportarem pressões negativas, desenvolvendo adaptações e novas formas de lidar com as adversidades que encontram em suas vidas. Resiliência é uma palavra que pode definir o comportamento que as organizações sociais e ambientais brasileiras tiveram que adotar, durante o decorrer de todo o ano de 2019.

Desde o dia primeiro de janeiro, com a Medida Provisória 870, promulgada pelo governo recém-eleito, alterando de modo drástico e autoritário a estrutura de funcionamento dos ministérios, a sociedade civil sentiu o impacto de um projeto de país que visa o enfraquecimento da participação social, dos direitos humanos e da preservação da natureza.

No setor agroalimentar, a medida promoveu a extinção do CONSEA, fragilizando as políticas públicas que buscam a conquista da soberania e da segurança alimentar e nutricional. A intensa reação de organizações e pessoas de todo o país, representada pela realização de um  conjunto de Banquetaços em mais de 40 municípios brasileiros, não foi suficiente para alterar a resolução do governo, mas impulsionou a mobilização social para o enfrentamento que se faz necessário desde então.

Atuando sistematicamente para favorecer as grandes empresas transnacionais, os latifúndios de commodities e setores que pregam a violência, o preconceito e a falta de diálogo, o atual governo transformou 2019 em um ano que entrará para a história como símbolo de retrocessos drásticos nas políticas públicas do país.

Como consequências imediatas desse verdadeiro desmonte de nossa estrutura social, cultural e ambiental, o Brasil colecionou recordes cruéis como os constatados em relação ao aumento do desmatamento da Amazônia, da liberação de agrotóxicos e das agressões aos povos indígenas, o que levou o atual governo a ser denunciado junto à Organização das Nações Unidas.

Enquanto a natureza e a população brasileiras sofrem os duros impactos de medidas que destroem os mecanismos de proteção socioambientais, os representantes do capital internacional têm sua ganância financeira alimentada pela alta das exportações agropecuárias, consolidando um modelo de exploração de base colonialista, que somente amplia as desigualdades sociais e econômicas entre os habitantes de nosso país, dentro de nosso território, e entre a sociedade brasileira, como um todo, em relação aos países mais ricos do planeta.

Mas nem as brasileiras e os brasileiros, nem a nossa mãe-terra aceitaram passivamente serem privados de seus direitos de terem uma vida digna! Exemplos de resiliência podem ser encontrados em todas as regiões e setores do país.

No setor da agricultura e da alimentação, podemos destacar que estados como Paraná, Bahia, Santa Catarina e Rio de Janeiro já possuem leis para implantar a alimentação orgânica nas escolas. No site da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida é possível ter mais informações sobre cada uma delas. As leis foram geradas pela mobilização de uma rede crescente de organizações e pessoas que atuam para transformar o modelo produtivo predominante em nosso país, em busca de mais saúde e harmonia em nossa sociedade.

Outro exemplo inspirador vem dos assentamentos da reforma agrária, que vêm ampliando a produção de alimentos livres de agrovenenos, como mostrou uma recente matéria no jornal Valor Econômico. O texto ressalta que “cooperativas ligadas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra produzem pelo país toneladas de grãos, além de frutas e hortaliças, leite e suco de uva, entre outros itens. Famílias assentadas são sócias de marcas próprias, têm gestão profissionalizada e vendem para governos e grandes redes varejistas, no país e no exterior.” Mas, além da produção de alimentos saudáveis e acessíveis para a população, o MST também se prontificou a plantar 100 milhões de árvores no território brasileiro, resgatando a flora nativa de nossos ecossistemas!

Em relação à preservação ambiental (área em que, esse ano, o governo federal desmontou ações importantes, que tentavam assegurar um futuro minimamente equilibrado para as próximas décadas), os governadores dos nove estados da Amazônia Legal resolveram agir por conta própria e firmaram, na COP25 (Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climática), um protocolo de intenções com a França, estabelecendo compromissos para que as metas do Acordo de Paris sejam cumpridas e o bioma seja preservado.

E o recém lançado Relatório de Direitos Humanos no Brasil 2019 traz mais exemplos de resiliência em todo o país. Vale a pena baixar a publicação no site da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos para ter um panorama do que vivenciamos em 2019 e do que ainda teremos que enfrentar nos próximos anos.

Nós, que editamos o boletim Nutrindo a Mudança, vamos seguir em união fraterna com todas e todos os que estão agindo para impedir os retrocessos sociais e ambientais que os poderes executivos do país, associados aos representantes do grande capital internacional, vêm tentando impor sobre nossa população. Que a virada do novo ano revigore nossas energias para trilharmos essa jornada!