Guia Alimentar do Brasil completa 5 anos de resistência, relembre os seus principais avanços


Publicado em 26/11 às 09h

Por João Peres – O Joio e o Trigo

A nova versão do Guia Alimentar para a População Brasileira completou cinco anos no início de novembro. Ele foi lançado no dia 5 de novembro de 2014 pelo Ministério da Saúde. A mensagem de que se deve evitar alimentos ultraprocessados é uma das inovações do documento, que rompeu com paradigmas ao falar sobre agricultura, sustentabilidade e mudanças culturais que prejudicam a boa alimentação.

Vale lembrar que o principal objetivo do guia é oferecer à população informações confiáveis sobre alimentação saudável e também sobre a prevenção de doenças crônicas como obesidade e diabetes para ajudar os brasileiros a fazerem melhores escolhas alimentares. “Prefira sempre alimentos in natura ou minimamente processados e preparações culinárias a alimentos ultraprocessados. A regra de ouro é: descasque mais e desembale menos”, diz o guia. Em outras palavras, prefira grãos, legumes, verduras e raízes a biscoitos industrializados, salgadinhos, iogurtes repletos de açúcar, macarrões instantâneos e refrigerantes.

Guias alimentares apareceram com força nos Estados Unidos dos anos 1980, quando a obesidade se tornava uma preocupação, e tomaram força na década seguinte com uma recomendação oficial da FAO (Agência das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) e da OMS (Organização Mundial de Saúde) para que os países publicassem diretrizes gerais nessa área.

No Brasil, a primeira versão editada pelo Ministério da Saúde é de 2006. O documento era voltado especialmente a profissionais da área e primava por recomendações alimentares divididas por nutrientes e porções; ou seja, havia um aspecto muito mais prescritivo. A versão mais recente, de 2014, rompe com tudo isso. “No Guia anterior havia a tendência de falar a partir dos nutrientes, como se uma alimentação saudável pudesse se fechar na questão dos nutrientes”, analisa Maria Laura Louzada, integrante do Nupens (Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde) da USP (Universidade de São Paulo). Ela atuou na equipe que formulou o documento.

Se oito anos antes a obesidade era uma questão que ganhava relevância aos poucos, em 2014 já não havia dúvidas da gravidade da situação. O público-alvo também era outro, o que se reflete no próprio nome da publicação: a população brasileira. O Guia não divide alimentos por nutrientes, nem prescreve porções de ingestão diária. No lugar, preocupa-se com os métodos de processamento dos alimentos, emitindo um alerta de que se evite ultraprocessados. “O Guia Alimentar para a População Brasileira é um marco, principalmente, pela inclusão de considerações sobre sustentabilidade da dieta e por utilizar uma classificação de alimentos baseada no nível de processamento”, diz Carlos González-Fischer, pesquisador na Universidade de Buenos Aires e autor de uma revisão sobre guias feita para a FAO.

Ele analisou todos os documentos publicados ao redor do mundo. Apenas quatro entre os 83 existentes falam sobre sustentabilidade. E o do Brasil é o único com uma abordagem holística, preocupando-se não apenas com o impacto ambiental de ultraprocessados, mas com questões sociais e econômicas. “A depender de suas características, o sistema de produção e distribuição dos alimentos pode promover justiça social e proteger o ambiente; ou, ao contrário, gerar desigualdades sociais e ameaças aos recursos naturais e à biodiversidade”, resume o Guia.

A clareza do documento brasileiro é também algo raro. Nos Estados Unidos, as diretrizes são revisadas a cada cinco anos, num processo sempre marcado por tensões e pressões empresariais. Pesquisas científicas e reportagens comprovam como essas pressões levam a orientações confusas.

A versão americana de 2015, por exemplo, tem cinco regras-chave que têm foco em nutrientes, algo de difícil compreensão para as pessoas em geral.

  • Siga um padrão alimentar ao longo da vida. Padrões alimentares são a combinação de comidas e bebidas que uma pessoa ingere ao longo do tempo.
  • Foque em variedade, alimentos densos nutricionalmente, e quantidade.
  • Limite as calorias de açúcares adicionados e gorduras saturadas, e reduza a ingestão de sódio.
  • Mude para escolhas de alimentos e bebidas saudáveis.
  • Apoie padrões alimentares para todos.

No caso brasileiro, a elaboração das linhas gerais do documento foi dividida entre o Ministério da Saúde e o Nupens, coordenado pelo professor Carlos Monteiro, da Faculdade de Saúde Pública da USP. Ele é o criador da classificação NOVA, que justamente divide os alimentos de acordo com o processamento. Maria Laura Louzada entende que o documento do Ministério da Saúde posicionou “de forma quase definitiva” esse novo paradigma. “A partir do guia a gente viu que as coisas não estavam separadas. Que os alimentos ultraprocessados tinham um perfil pior de nutrientes sim, e que também estavam associados à forma como as pessoas consumiam. Estavam ligados com a tendência de estar menos à mesa e associados a um maior impacto ambiental. Foi a partir do conceito de ultraprocessamento que começamos a pensar nos modos de comer, nos modos de produção dos alimentos. Com certeza foi uma escala.”

Com base no Guia, o Ministério da Saúde editou uma portaria proibindo a comercialização de ultraprocessados em suas dependências, o que inclui autarquias e centros de pesquisa. O Uruguai publicou um documento muito parecido ao brasileiro e, a partir dele, decidiu promover uma série de políticas de desestímulo ao consumo desses produtos. A Coordenação Geral de Alimentação e Nutrição do ministério criou manuais de orientação para a aplicação do Guia no Sistema Único de Saúde, em particular entre as equipes que trabalham no atendimento dos programas de saúde da família. E elaborou uma versão resumida do Guia e vídeos que condensam as ideias-chave.

Confira aqui 10 dicas para uma alimentação saudável e adequada baseadas nas informações do guia.          

Esta reportagem foi publicada em parceria com o portal UOL.