Participação em uma CSA possibilita um treinamento para novos modos de relacionamento


Publicado em 24/09 às 10h

Por Wagner Santos - CSA Brasil

Participar de uma Comunidade que Sustenta a Agricultura (CSA) é, antes de tudo, uma oportunidade ímpar para treinarmos uma nova forma de relacionamento.

Claro que, ao participarmos de uma CSA, temos a grata alegria de obtermos acesso a alimentos limpos de agrotóxicos, cheios de vitalidade, com respeito ao meio ambiente, aos agricultores e ao nosso planeta.  Isso é um fato que não tem preço.

No entanto, isso é apenas a "cereja do bolo" que uma CSA oferece. Ao olharmos para as necessidades de um organismo agrícola, com toda a sua complexidade única e com tudo o que nele está contido (terra, água, energia elétrica, insumos, combustíveis, ferramentas, máquinas e equipamentos, sementes, estufas, remuneração digna aos agricultores, etc, etc...), passamos a nos conectar (ou talvez reconectar) com algo que nossa vida cotidiana nos faz esquecer:  que uma cenoura, uma batata, um copo de leite, um ovo, não brotam numa gôndola de supermercado!! 

Para que possamos ter acesso a esses alimentos é necessário muito trabalho, cuidado, cultivo e apreço!  E o ser que é o centro desse trabalho é o(a) agricultor(a).  Quando olhamos para este ser humano, que tem sido tão desvalorizado na sociedade contemporânea, com um olhar profundo, de apreço, passamos a compreender que, para sermos dignos de comer uma singela folha de alface, precisamos ter um cuidado para com o trabalho realizado pelos(as) agricultores(as).  

Rudolf Steiner disse, em 1924, que "a agricultura é o fundamento de toda cultura e ela tem algo a ver com todos".  E ainda hoje, muitos de nós não acordamos para isso.  Não compreendemos que nossas escolhas alimentares estão diretamente relacionadas com a terra em que vivemos, pois aquilo que optamos por comer fará o nosso mundo melhor ou pior, já que é da agricultura que sai o pão nosso, o alimento nosso de cada dia.  E todos temos algo a ver com isso.  Se minha escolha é apoiar a agricultura convencional, que trocou a cultura pelo negócio, autoproclamando-se agronegócio, eu estou escolhendo a NÃO SOBERANIA ALIMENTAR, estou escolhendo um caminho de morte, no qual o dinheiro está no centro e o apreço não tem vez.

Quando estou participando de uma CSA, tenho a oportunidade de ter um ambiente concreto, no qual eu possa treinar uma nova forma de me relacionar com o alimento e tudo o que o envolve, desde que ele sai do campo e chega até a mesa.  Eu passo a fazer parte desse processo de forma concreta e direta.  Eu me conecto com o campo e com suas complexidades (excesso ou falta de chuva, calor, frio e intempéries diversas).  E passo a compreender que, de fato, a agricultura é o fundamento de toda cultura e ela tem algo a ver com todos.

Ter essa conexão com o campo é uma possibilidade de re-significar conceitos que estão enraizados em nós mesmos, através de um impulso social que é uma CSA em funcionamento.  Se conseguirmos cultivar esse relacionamento em torno da agricultura e do alimento, ele servirá de base para treinarmos novos relacionamentos humanos em outras áreas do nosso cotidiano.  A agricultura é a base para isso.  O alimento idem.  O solo é nosso ponto de apoio.  E ao mesmo tempo o ponto de mudança. 

Há que se cuidar no HOJE dessa semente que é uma CSA, para que ela nos dê frutos diversos e saudáveis no FUTURO.