Nas fogueiras florestais, queimam nossa biodiversidade e nossa chance de um futuro sustentável


Publicado em 24/09 às 09h

Por Susana Prizendt - C. P. C. A. P. V. e MUDA-SP

Estamos queimando dinheiro. Enquanto nossas florestas ardem sob as chamas dos incêndios criminosos pelo País, um conjunto de estudos e indicadores econômicos deixa muito claro que o valor da biodiversidade, quando mantida em sua plenitude, é imensamente superior, do ponto de vista financeiro, em relação ao valor gerado com atividades produtivas que destroem seu equilíbrio.

De acordo com um estudo publicado na revista “Perspectives in Ecology and Conservation”, envolvendo mais de 400 cientistas brasileiros, o rendimento anual, em serviços gerados pelos ecossistemas da vegetação nativa, preservada nas propriedades rurais do país, é de cerca de 6 trilhões de reais. Os 270 milhões de hectares que compõem as áreas que respondem por esse número são formados, em sua maior parte, pelas reservas legais mantidas pelas propriedades particulares, demonstrando o quanto a nossa legislação florestal é importante para o país e não deve sofrer alterações, como a proposta no projeto de lei 2362/2019, se quisermos evitar prejuízos econômicos em nosso território.

Mas, no caso das queimadas, e da destruição de nossas florestas em geral, o ponto de vista econômico é apenas um dos aspectos importantes a serem considerados, quando pensamos em nosso desenvolvimento no futuro próximo.

A questão mais relevante é a que diz respeito à existência ou não das condições ambientais que garantem a manutenção de um equilíbrio planetário, de modo que a espécie humana, e um conjunto imenso de outras espécies vegetais e animais, não tenham sua sobrevivência ameaçada nas próximas décadas.

Como bem ponderou o ex-ministro Celso Amorim, em sua entrevista para Rodolfo e Eleonora de Lucena, a preservação (e regeneração) da Amazônia é uma necessidade mundial, já que impacta intensamente o globo terrestre, mas a responsabilidade da condução de seu processo, garantindo o equilíbrio do bioma, é do Brasil, nação soberana na gestão de seu território.

E, para assumirmos nossa reponsabilidade perante a comunidade mundial, é necessário fortalecermos as políticas públicas que fomentam a defesa de nossas florestas, de nossa biodiversidade e dos povos tradicionais, que são seus guardiões. A tarefa é monumental e contar com recursos de fundos internacionais, bem como cumprir com os acordos dos quais o Brasil é signatário; são duas ações essenciais para termos resultados positivos.

Os sensíveis aumentos do desmatamento, das queimadas e da violência contra os povos indígenas e quilombolas, constatados desde que o governo Bolsonaro assumiu a condução do país, são decorrentes do desmonte irresponsável que ele vem realizando em nossa estrutura socioambiental. Os objetivos que norteiam os calamitosos passos governamentais são os de possibilitar que o capital privado se aproprie dos recursos naturais de nosso país, explore áreas que deveriam ser protegidas por lei e transfira os rendimentos decorrentes dessa exploração, obtidos no curto prazo, para uma minoria de “investidores” transnacionais, concentrando ainda mais as finanças do mundo.

A população brasileira e a comunidade mundial estão chocadas com tanta destruição e as manifestações de seus diferentes atores têm sido constantes. Da mobilização de crianças do mundo todo (representadas pela ativista Greta Thunberg), ao Sínodo da Amazônia (iniciativa da igreja católica, apoiada pela CNBB e pelo próprio Papa Francisco), passando pela Campanha da Anistia Internacional (que exige que o governo brasileiro proteja os direitos dos povos tradicionais), pelas denúncias da CIMI e dos povos do Cerrado e da Caatinga sobre os ataques que as populações indígenas e dois dos biomas mais impactados pela devastação ambiental vêm sofrendo, deixam claro que a sociedade não irá se calar.

Para unir essas iniciativas em um só grito, exigindo que governos e empresas assumam suas responsabilidades sociais e ambientais para assegurar o equilíbrio do planeta, pessoas de cerca de 150 países saíram às ruas, no último dia 20, em uma ação que foi denominada Greve pelo Futuro. As manifestações visaram chamar a atenção das lideranças internacionais, que vão se reunir na Cúpula de Ações Climáticas da ONU, em Nova York, nos EUA, nos próximos dias.

Se as fogueiras em nossas matas estão ardendo sob nossos olhos, elas também estão inflamando nossos corações e vamos seguir em luta árdua, pela defesa da nossa Mãe Terra de seus biomas e povos, de sua incalculavelmente preciosa teia da vida!