Relatório alerta para a redução da biodiversidade, Brasil sofre com medidas governamentais


Publicado em 21/05 às 16h

Por Susana Prizendt - C. P. C. A. P. V. e MUDA-SP

Nós seres humanos, ainda nem conhecemos todas as espécies de seres vivos, existentes em nosso planeta, e já estamos sob a forte ameaça de não termos chances de vir a conhecer uma boa parte deles. Um novo relatório, divulgado pela ONU, revela que a interferência das atividades humanas na Terra está provocando uma crescente redução da biodiversidade planetária, a ponto de gerar a possibilidade de perdermos cerca de um milhão de espécies animais e vegetais, nas próximas décadas, se não tomarmos medidas enérgicas para conter a degradação ambiental.

O relatório, que foi coordenado pela Plataforma Intergovernamental de Política Científica sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), é muito claro ao demonstrar o quanto a possível extinção dessas espécies e a acelerada diminuição do número de tantas outras, em seus habitats naturais, irão impactar as sociedades humanas.

Uma das áreas mais impactadas, caso o cenário previsto se confirme, será justamente a que abrange o acesso à água e aos alimentos. Só a perda de espécies polinizadoras, como as abelhas selvagens, poderá impedir o cultivo agrícola de safras anuais avaliadas em mais de 500 bilhões de dólares. Num planeta, em que ainda existe uma grande parte da população exposta à carência de alimentos, trata-se de um prognóstico gravíssimo e que poderá gerar trágicas consequências sociais, como a ampliação de conflitos e dos movimentos migratórios.

No panorama nacional, o relatório chega em um momento delicado, já que os atuais governantes do país estão promovendo uma intensa desconstrução das políticas públicas nos setores ambiental e social, comprometendo a já frágil estrutura de nossos ecossistemas e as condições de sobrevivência digna de nossa população.

Entre as medidas que foram tomadas em nível federal, está o bloqueio de 95% do orçamento que seria destinado ao combate às mudanças climáticas, ato contrário ao que clamam organizações sociais e pesquisadores do mundo inteiro, já que as perspectivas, mostradas pelos recentes estudos sobre o tema, revelam o quanto a situação é grave e a urgência das ações para tentar reverter o processo.

Mas o governo e sua base de apoio no Congresso Nacional não cessam de veicular propostas que alteram com intensidade nossa legislação e nossa estrutura socioambiental. Entre os absurdos propostos estão o Projeto de Lei que acaba com a obrigatoriedade das reservas legais nas propriedades privadas do país - o que colocaria 20% de nosso território em risco de desmatamento, impactando fortemente o equilíbrio de nossos biomas.

Com a pressão do agronegócio, Amazônia e Cerrado já têm sofrido um sério processo de transformação, comprometendo a manutenção de nossa biodiversidade. E podem sofrer ainda mais... Outra MP, editada por Jair Bolsonaro e que pode ser votada a qualquer momento na Câmara Federal, é a MP que concede anistia a desmatamentos ilegais realizados até 1989, no Cerrado, e até o ano 2000, na Caatinga, Pampa e Pantanal. O relatório favorável já foi aprovado, e a MP agora aguarda votação no plenário da Câmara.

Somam-se a estas investidas contra a natureza, agravando ainda mais a situação de nosso país, a proposta de rever a demarcação dos parques nacionais; o corte de verbas para as universidades e instituições de pesquisa, a liberação recorde de novos agrotóxicos e a ameaça aos territórios indígenas, quilombolas e da reforma agrária, além da total falta de diálogo com a sociedade sobre as políticas socioambientais.

Mas a população não vai ficar passiva frente aos retrocessos. Mobilizações pela educação já tomaram as ruas e logo serão acompanhadas por novas ações, que vão exigir a interrupção das medidas destrutivas adotadas pelos nossos governantes.

Um belo exemplo dessa resistência popular é, sem dúvida, a luta pela realização da edição de 2019 da Feira Nacional da Reforma Agrária no Parque da Água Branca, em São Paulo. Um abaixo assinado já está circulando e movimentos do campo e da cidade estão se unindo na luta por um modelo agroalimentar mais justo e ecológico. Participe e ajude a preservar a nossa biodiversidade; é o tesouro mais precioso que a nosso país possui!