As mulheres e as águas não podem seguir sofrendo os impactos negativos dos atuais retrocessos!


Publicado em 21/03 às 14h

Por Susana Prizendt - C. P. C. A. P. V. e MUDA-SP

As mulheres conquistaram muitos espaços na sociedade. Através de séculos de luta, elas obtiveram o direito de votar, de escolher seus relacionamentos afetivos, de trabalhar de forma remunerada e de aposentar, entre outros direitos fundamentais para a cidadania e o desenvolvimento humano. Mas, ainda assim, sofrem com a discriminação, a violência e a desvalorização profissional e financeira ao realizar atividades que também são desempenhadas pelos homens.

E, mesmo que se dediquem a uma jornada de trabalho de 8 horas diárias, são absorvidas em novas jornadas de trabalho em casa, com as tarefas domésticas e o cuidado com a família. São as mulheres as grandes responsáveis pela alimentação no mundo. No caso das mulheres camponesas, o trabalho com o alimento começa desde o cultivo, passando pela colheita, pelo beneficiamento, pela comercialização em feiras e pela utilização na cozinha, em um processo de transformação da natureza e da cultura.

A agroecologia, compreendida como um conjunto de saberes e de práticas relacionadas ao ciclo do alimento, em harmonia com a Mãe Terra, respeitando a biodiversidade, o ambiente de cada região e o tempo dos processos naturais, possui uma base fortemente feminina. No Brasil há exemplos incríveis do trabalho das mulheres nesse setor, como mostra uma ótima matéria do observatório De Olho nos Ruralistas. Mas, nos últimos anos, nosso país tem sofrido com políticas que ameaçam a vida digna das brasileiras, sobretudo as que se encontram no campo.

Para denunciar as ameaças e agressões que estão sofrendo (que vão desde os conflitos territoriais, até as perdas trabalhistas e previdenciárias, passando pelos abusos sexuais) e reivindicar sua liberdade e seus direitos como cidadãs, as camponesas de todo o país promoveram uma série de manifestações durante o mês de março, época que marca o dia oficial da mulher. Mulheres representantes de diversas etnias indígenas também realizaram atividades de protesto, já que a população indígena está sofrendo um imenso impacto com as medidas políticas implantadas pelo atual governo federal.

Marchas, encontros e ocupações ocorreram em diversos locais e a maior parte dessas mobilizações homenageou a líder carioca Marielle Franco, assassinada há um ano atrás pelas milícias do Rio. Junto com as reivindicações sociais por seus direitos, a voz das mulheres se levantou em coro para exigir que a polícia responsabilize os autores e os mandantes do crime contra a vereadora.

Somando forças pela causa feminina, a Organização para a Alimentação e a Agricultura das Nações Unidas para a América Latina e Caribe (FAOALC) lançou, também no dia 8, a quarta edição da campanha Mulheres Rurais, Mulheres com Direitos. Com o lema Pensar em igualdade, construir de forma inteligente, inovar para a mudança, a iniciativa visa envolver a sociedade na luta pelo reconhecimento das camponesas, afirmando que “a desigualdade de gênero e a discriminação contra as mulheres é uma das causas estruturais da pobreza rural e um dos maiores desafios para os países da América Latina e do Caribe”.

Ao mesmo tempo que ameaçam os direitos de mulheres do campo, das florestas e das cidades, as ações dos governos do Brasil e de vários de seus Estados e Municípios estão promovendo um retrocesso em um dos setores mais essenciais aos seres humanos: o do acesso a água. Atacando camponesas, indígenas, quilombolas e ativistas ambientais, as propostas de desconstrução das políticas de Segurança Alimentar e Nutricional e de proteção aos territórios de povos tradicionais vão causar danos ao meio ambiente, que impactarão com intensidade nosso sistema hídrico.

Ampliação da mineração, inclusive com permissão para que possa ser realizada em reservas indígenas, desmonte de órgãos de fiscalização e de assistência técnica e liberação de agrotóxicos altamente perigosos ao ambiente são algumas das trágicas ações que estão em curso. Nossas águas vão ser contaminadas e seus ciclos serão alterados ainda mais do que já estão sendo. Em conjunto com a gigantesca poluição que o lixo, sobretudo plástico, está gerando no planeta, os desequilíbrios e a degradação ambientais ameaçam a existência de água limpa para os povos do mundo.

Será preciso muito mais do que destinar um dia oficial para a mulher e um dia oficial para a Água se quisermos ter uma sociedade minimamente sustentável nos próximos tempos. Teremos que transformar intensamente nossa estrutura social, econômica, política, cultural e até espiritual, reconhecendo que a natureza é sagrada e precisa ser cuidada com muito, muito amor e respeito.



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