Cuidado: Veneno!


Publicado em 30/10 às 11h

Uma realidade terrível para os agricultores gaúchos expostos aos agrovenenos
Por Benjamin Prizendt - C. P. C. A. P. V.

O Rio Grande do Sul é o Estado com mais casos de suicídios no Brasil: 10 a cada 100 mil habitantes - quase o dobro da taxa brasileira (5,2 por 100 mil em 2012, segundo dados do Ministério da Saúde).

Em seu relatório de 1996, a Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa gaúcha mostrava que 80% dos suicídios da cidade de Venâncio Aires, a maior produtora de tabaco do Estado, eram cometidos por agricultores. O mesmo estudo apontava aumento nos suicídios quando o uso de agrotóxicos era intensificado.

Em 2014, 20% de cem fumicultores entrevistados sofriam de depressão, segundo a Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Em seus estudos, ela assinala que o quadro depressivo, por exposição aos venenos, somando-se a fatores sociais e culturais, pode evoluir para o suicídio.

A Associação dos Fumicultores do Brasil defende as empresas, afirmando que elas orientam os agricultores quanto à aplicação correta dos defensivos e o uso de equipamentos de proteção individual (EPIs). Entretanto, as condições de uso dos EPIs não são nada favoráveis: o calor é intenso e sufocante, dificultando o uso da máscara e das luvas e, mesmo quando isso ocorre, o veneno, carregado nas costas, escorre pelo corpo no momento da aplicação.

Além do agrotóxico, o próprio contato da pele com as folhas de tabaco, provoca intoxicação por nicotina. É a doença da folha verde do tabaco, cujos sintomas principais são: vômito, tontura, dor de cabeça e fraqueza, de acordo com o Ministério da Saúde.

O quadro de depressão e intoxicação, também leva os agricultores a abusarem da ingestão de álcool, o que configura “mais um fator de risco”, declara o psiquiatra Rafael Moreno de Araújo, coordenador do Comitê de Prevenção do Suicídio da Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul. Ele assinala que há diversos fatores de risco a que os agricultores que cultivam o tabaco estão expostos: genética, baixa escolaridade, histórico familiar, estilo de vida estressante e intoxicação.

Para completar esse quadro terrível, há os problemas financeiros que contribuem para o estresse dos fumicultores. Eles precisam organizar o dinheiro, que recebem apenas uma vez por ano, para sustentar a família pelos 12 meses seguintes. Assim, a maioria acaba fazendo dívidas com as próprias empresas que compram sua produção. Não é raro que os processos movidos pelas companhias terminem com a tomada das terras dos agricultores. “A perda das terras é a perda da vida deles”, analisa o advogado Mateus Ferrari, que atende diversos casos de agricultores endividados.



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