Biógrafa de Ana Primavesi homenageia os 98 anos da grande mestra da agroecologia


Publicado em 22/10 às 17h

Por Virgínia Mendonça Knabben*

Ainda hoje, acreditem, completados 98 anos de idade e cerca de 70 de trabalho como engenheira agrônoma, Ana Primavesi não tem consciência do quanto significou e significa para o desenvolvimento da agricultura, ou melhor, da agroecologia, no mundo.

Por mais de uma vez, ao sentar para almoçar ou depois de participar de algum encontro ou evento no qual era a convidada de honra, ela comentou: “eu não entendo porque as pessoas gostam tanto de mim.” Ou: “As pessoas me adoram tanto e eu não sei por quê.” “Não sabe, doutora?”, pergunto verdadeiramente surpresa. Ela faz que não com a cabeça, e pronto, o assunto já passou.

Ela foi a primeira mulher a afirmar, num meio exclusivamente masculino, que o solo tem vida. A pessoa que ensinou com linguagem simples o que todos podem e conseguem entender. Aquela que nos aproximou de nós mesmos pela origem de tudo, a terra, e integrou saberes, tornando-nos autônomos em nossas práticas.

Ana Primavesi trabalhou com o solo, sua paixão, a vida toda. Quando ainda estava na Universidade Boku, em Viena, na Áustria, a Segunda Guerra tinha ceifado a vida de seus dois irmãos mais velhos. Seu pai, Sigmund Conrad, fora recrutado também, como foram todos os homens. Logo tomou um tiro de dum-dum no tornozelo e quase perdeu o pé, que ficou pendurado pelo que restou de pele. Isso lhe custou três anos num hospital de guerra (chamado lazareto), e coube à mais velha das filhas assumir as responsabilidades em casa.

Estudar naquele contexto era até uma teimosia. Ela conta que Hitler fez de tudo para que os estudantes desistissem da Universidade. Não conheciam aquela moça cujo sobrenome quase chamou-se “determinação” e que tinha conseguido salvar o pai de uma execução sem a ajuda de nenhum advogado, de ninguém. Enfim ela se formou, fez o doutorado e acumulou em sua bagagem a experiência pesada da Guerra. No convívio com professores magistrais se constituiu e, sobretudo, desenvolveu a compreensão (única) de como funciona a vida do solo.

Quando a guerra acabou, Ana tinha 25 anos. Casou-se com o também engenheiro agrônomo Artur Primavesi e, diante de uma Europa destruída e traumatizada, o casal decidiu vir para o Brasil. Foi aqui que Ana passou a viver na e da agricultura. No começo, mais nos bastidores, porque os filhos exigiam sua atenção. À medida que cresciam (ela teve três), voltava à ativa, mas nunca deixou de auxiliar Artur tecnicamente.

Aqui, enfrentaria outra guerra. Quanto mais defendia a vida do solo, ou mais didáticos eram suas palestras e livros, mais era acusada de não ser científica. Os ataques constantes não a demoveram. “Tenho certeza do que estou falando”. Não era uma certeza para sobressair sobre um ou outro, numa luta de egos. Eram as leis da natureza que ela defendia, a agricultura deveria trabalhar ao máximo para mantê-las, pois a prática agrícola já é algo agressivo, antinatural.

Para os catedráticos aquilo era uma afronta à ciência, tão difícil e limitada a “poucas inteligências.” Mas para os agricultores de fato, aqueles que lidavam com a essência da natureza, era o alimento fundamental para suas práticas. Ana encantava, desbravava. Contava, por exemplo, que o jatobá é uma árvore cuja seiva é tão rica em minerais que os filhos a consumiam como suplementação mineral, não sem antes pedir à árvore permissão para sua retirada. Eles nunca precisaram tomar vitaminas.

No dia 3 de outubro, celebramos seu quase centenário. Nosso jatobá sagrado da agricultura, imponente, completa 98 anos, mais de setenta dedicados à ciência do campo. Quanta vida! Quanto aprendizado.

Ana Primavesi, querida árvore mestra. A matriz de todos nós.

* Virgínia Mendonça Knabben é geografa e professora. Em 2016, publicou a biografia Ana Maria Primavesi, histórias de vida e agroecologia, que deu início à reedição da obra de Ana Maria Primavesi, pela editora Expressão Popular. (texto original publicado em Revista Globo Rural). 



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