A carne bovina e os riscos à saúde e ao meio ambiente


A carne bovina e os riscos à saúde e ao meio ambiente

Publicado em 13/06/2018 às 09:33



A carne é um dos alimentos que faz parte da base alimentar brasileira, e em diversas outras culturas e grupos sociais. Em uma hierarquia alimentar, a carne bovina está no topo, seguida de carnes brancas, e outros produtos de origem animal, como ovos e queijo e por último os vegetais. Segundo dados históricos, comia-se carne no Brasil desde antes da colonização portuguesa (RIBEIRO; CORÇÃO, 2013).

A carne bovina é um alimento rico em proteína e fonte de aminoácidos essenciais como isoleucina, histidina, lisina, treonina, metionina e leucina, além de conter nutrientes como vitaminas do complexo B, minerais como ferro, zinco, fósforo, magnésio, entre outros (EKMEKCIOGLU et al., 2016). Dessa forma, se consumida de forma moderada e dentro de uma dieta equilibrada com alimentos de origem vegetal, pode trazes benefícios à saúde.

De acordo com o último relatório realizado e publicado pelo World Cancer Research Found em 2007, chamado Food, Nutrition, Physical Activity, and the prevention of Cancer: a Global Perspective, na população, o consumo médio de carne vermelha não deve ultrapassar 300g por semana, incluindo pouca ou nenhuma quantidade de carne processada, pois carnes vermelhas ou processadas aumentam o risco de alguns tipos de câncer de forma convincentes ou provável. Especialistas da Organização Mundial da Saúde (2016), avaliaram mais de 800 estudos em populações com diferentes dietas em todo o mundo, e uma das conclusões é de que 50g diárias de carne processada aumentam o risco de câncer colorretal em 18%. Segundo um estudo publicado pela revista The Lancet Oncology (2015), uma das explicações para este risco aumentado é de que o processamento de carnes, tais como a cura e o fumo, pode resultar na formação de substâncias químicas cancerígenas, incluindo compostos N-nitrosos (NOC) e hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (HAP). Esses compostos N-nitrosos são formados pelos nitritos e nitratos que são aditivos alimentares muito utilizados em produtos cárneos, contribuem para fixação da cor avermelhada da carne curada e para sua conservação. No nosso organismo possuímos nitrito e nitrato inorgânicos que são indispensáveis para manter o equilíbrio do óxido nítrico. Em contrapartida, nitrito e nitrato quando são adicionados a produtos cárneos geram uma resposta maléfica para o corpo humano. Após a ingestão de carnes processadas, há um aumento do nível de nitrato que é convertido a nitrito no intestino, mais reação com aminas secundárias e absorção, promovendo assim, a formação de N-nitrosaminas, que causam danos ao DNA após o metabolismo de ativação podendo levar a ocorrência de cânceres (IAMARINO, 2015; FAHRER, 2016). Já os Hidrocarbonetos Policíclicos Aromáticos (HPAs) são compostos formados durante a combustão incompleta de material orgânico. Um dos processos de liberação desses compostos é pelo processamento a altas temperaturas. Quimicamente são formados por estruturas contendo dois ou mais anéis aromáticos fundidos, cuja importância se deve a relação com alguns tipos de câncer no homem. De forma geral, a atividade carcinogênica dos HPAs é expressa pela biotransformação de intermediários reativos capazes de se ligar covalentemente ao DNA para induzir quebras e causar danos que levam à iniciação de mutação e tumores (LUZ et al., 2016).

O processo de cozimento, apesar de melhorar a digestibilidade e a palatabilidade da carne, mas também pode produzir carcinógenos, incluindo aminas aromáticas heterocíclicas (HAA) e HAP, dependendo do binômio tempo/temperatura utilizado, ressaltando que o conhecimento da técnica dietética mais adequada para cada tipo de alimento é essencial para minimizar os riscos de formação de compostos deletérios.

Ainda, padrões alimentares com elevados níveis de gordura animal podem aumentar o risco de ganho de peso e outras doenças crônicas, como hipercolesterolemia, doenças cardiovasculares e doenças hepáticas. De acordo com uma revisão sistemática publicada pelo Journal of Internal Medicine (2017) o consumo de carnes vermelhas, e principalmente as processadas, está associado ao aumento do risco de várias doenças crônicasmortalidade precoce (WOLK, 2017). Nesse estudo foram analisadas estimativas de riscos para doenças crônicas de indivíduos que consumiam carne vermelha não processada e processada. O consumo de 100g de carne vermelha não processada aumentou a ocorrência de 11% para AVC e câncer de mama, 15% morte por doenças cardiovasculares e 19% para câncer de próstata avançado. Já o consumo de 50g por dia de carne processada mostrou um risco aumentado de 4% para câncer de próstata, 9% para câncer de mama, 18% para câncer colorretal, 13% para AVC e 32% para diabetes.(no estudo tem uma tabela falando sobre isso mas não tem o quanto tempo de consumo dessa carne para ter essas estimativas). Em uma revisão sistemática publicada pelo Maturitas Journal, que incluiu meta-análises, ensaios clínicos, casos controle, estudos transversais e prospectivos, foi constatado que a carne vermelha pode desempenhar um papel importante na ocorrência de doenças crônicas, entre outras, pelo fato da quantidade de ácidos graxos saturados e conteúdo elevado de sal e sódio. Duas das dez meta-análises incluídas, as quais investigaram a associação de incidência de acidentes vasculares, consumo de produtos cárneos frescos e processados de carne, observou-se um alto risco da incidência de AVC, principalmente o tipo isquêmicoKOUVARI; TYROVOLAS; PANAGIOTAKOS, 2016).                                                                 

Além de riscos à saúde humana, o planeta também sofre consequências deletérias provenientes do consumo exacerbado de carne vermelha, pois a produção pecuária representa cerca de um quinto das emissões totais de gases relacionados ao efeito estufa, contribuindo, assim, para as alterações climáticas e suas consequências adversas para a saúde humana e ao meio ambiente, incluindo a ameaça à produtividade alimentar em muitas regiões, maior risco para alterações climáticas com impactos na vegetação, fauna e ecossistemas. Ainda, a produção pecuária intensiva está associada à resistência aos antibióticos e ao aumento da incidência de doenças emergentes como a influenza A e a gripe aviáriaIKING, 2014; JOHNSON, 2016), mudanças na qualidade da água entre outros malefícios. Por esses motivos, o consumo de carnes orgânicas, que causam menor impacto sobre o meio ambiente e ainda apresentam o melhor perfil de gorduras, ricas em ômega 3, ácido linoleico conjugado e vitaminas lipossolúveis como as do complexo B, vitamina E e K, constitui uma alternativa mais sustentável e com maiores benefícios à saúde (ŚREDNICKA-TOBER, 2016).

Portanto, devemos considerar os pilares da nutrição funcional acerca da individualidade bioquímica e da biodisponibilidade de nutrientes, com um consumo mais equilibrado e consciente de carnes bovinas, aumentando o consumo de hortaliças orgânicas e biodinâmicas. Assim, os hábitos alimentares tornam-se mais equilibrados e sustentáveis, atingindo a vitalidade positiva humana e do planeta.

Referências bibliográficas

WORLD CANCER RESEARCH FUND. Food, Nutrition, Physical Activity, and the prevention of Cancer: a Global Perspective. 2007. Disponível em:< http://www.aicr.org/assets/docs/pdf/reports/Second_Expert_Report.pdf>.

AIKING, H. Protein production: planet, profit, plus people? The American Journal Of Clinical Nutrition; 100 Suppl 1:483S-9, 2014.

JOHNSON, I. The cancer risk related to meat and meat products. British Medical Bulletin; 1:9, 2016.

BOUVARD, V. et al. Carcinogenicity of consumption of red and processed meat. The Lancet Oncology; 16(16):1599-600, 2015.

WOLK, A. Potential health hazards of eating red meat. Journal Of Internal Medicine; ;281(2):106-122, 2017.

 KOUVARI, M.; TYROVOLAS, S.; PANAGIOTAKOS, D.B. Red meat consumption and healthy ageing: A review. Maturitas; 84:17-24, 2016.

ŚREDNICKA-TOBER, D. et al. Composition differences between organic and conventional meat: a systematic literature review and meta-analysis. British Journal Of Nutrition; 115, 994–1011, 2016.

WHO  (WORLD HEALTH ORGANIZATION). IARC Monographs evaluate consumption of red meat and processed meat. 2015. Disponível em:< http://www.iarc.fr/en/media-centre/pr/2015/pdfs/pr240_E.pdf>.

RIBEIRO, C.S.G; CORÇÃO, M. O consumo de carne no Brasil: entre valores socioculturais e nutricionais. Demetra; 8(3); 425-438, 2013.

EKMEKCIOGLU, C. et al. Red meat, diseases and healthy alternatives: A critical review. Critical Reviews In Food Science And Nutrition, 2016.

IAMARINO, L.Z. et al. NITRITOS E NITRATOS EM PRODUTOS CÁRNEOS ENLATADOS E/OU EMBUTIDOS. Gestão em Foco; 7:246-251, 2015.

FAHRER, J.; KAINA, B. Impact of DNA repair on the dose-response of colorectal cancer formation induced by dietary carcinogens. Food And Chemical Toxicology; 1-12, 2016.

LUZ, R.L.F. et al. Hidrocarbonetos Policíclicos Aromáticos (HPAs) em leite e derivados: contaminação e influência na saúde dos consumidores. Revista Eletrônica Acervo Saúde; 8 (2), 868-675, 2016.


ASSINE NOSSA NEWSLETTER E RECEBA PROMOÇÕES E CONTEÚDOS EXCLUSIVOS