Benefícios e propriedades do cacau


Benefícios e propriedades do cacau

Publicado em 11/10/2017 às 10:46



O cacau é um fruto popular proveniente da América do Central e do Sul e produzido pelo cacaueiro. A partir deste fruto são produzidos o cacau em pó, o chocolate e a manteiga de cacau. O chocolate era historicamente apreciado como um alimento de alto teor calórico para aumentar a energia em atletas e soldados, mas atualmente pesquisas têm mostrado outros efeitos funcionais de alguns componentes do cacau, como a redução do risco de doenças cardiovasculares e do risco de câncer por conter flavonoides, compostos altamente antioxidantes e anti-inflamatórios.

Em relação à composição nutricional, o cacau apresenta cálcio, ferro, magnésio, fósforo, potássio, zinco, cobre, manganês e selênio, além de ser uma importante fonte de compostos fenólicos.  Particularmente em relação ao teor de lipídios, que estão presentes na manteiga de cacau, encontra-se uma mistura de ácidos graxos saturados e monoinsaturados. Dos monoinsaturados, o ácido oleico é o predominante e dos ácidos graxos saturados, o palmítico e o ácido esteárico. Estudos anteriores já mostravam que dietas contendo derivados do cacau, até mesmo em grandes quantidades, não elevavam as concentrações de LDL e outros estudos revelavam o efeito neutralizador do ácido esteárico no colesterol sérico.

Os ácidos graxos se diferenciam pelo comprimento da cadeia de carbono (que pode variar de 8 a 18 átomos). Os de cadeia média (que possuem de 8 a 12 carbonos) não aumentam os níveis de lipídios no sangue, pois após a absorção intestinal são transferidos para a circulação sanguínea e se ligam às albuminas. Em seguida são transportados, pela veia porta, diretamente para o fígado, onde são metabolizados.

A ingestão de um ácido graxo de cadeia longa (18 carbonos), como o ácido esteárico, também é capaz de reduzir os níveis de colesterol plasmático, pois a absorção do ácido graxo pode ser incompleta ou significantemente diferente do que a de outros ácidos graxos saturados. Outra possível explicação é que o ácido esteárico pode ser rapidamente convertido em ácido oleico monoinsaturado no organismo, e, segundo o American Heart Association, ingerir gorduras monoinsaturadas com moderação pode ajudar na redução das lipoproteínas de baixa densidade (LDL) na corrente sanguínea e aumentar os níveis de HDL, que são as lipoproteínas de alta densidade.

Por outro lado, somente três ácidos graxos de cadeia longa podem elevar o colesterol: o láurico (12:0), o mirístico (14:0) e o palmítico (16:0). Eles constituem aproximadamente 26% do total de gordura de uma dieta e são encontrados sobretudo em carnes, produtos lácteos (incluindo a manteiga) e alimentos processados que contêm gordura, como o queijo branco, requeijão cremoso, leite integral, óleo de palma entre outros.  Em contrapartida, a manteiga do cacau - gordura presente no chocolate - contém 34% de ácido esteárico, a qual, como descrito anteriormente, não eleva os níveis plasmáticos de colesterol, ao contrário da manteiga comum, que é rica em ácido mirístico e palmítico – os principais ácidos graxos saturados de cadeia longa. A gordura saturada, de maneira geral, eleva a concentração plasmática de colesterol. Entre os mecanismos propostos para essa alteração está a redução dos receptores de LDL hepáticos; maior atividade da ACAT (acilcolesteril-aciltransferase), aumentando a esterificação do colesterol das lipoproteínas contendo apo B17; e aumento na quantidade de colesterol esterificado transportado na LDL, devido à conformação química retilínea dos ácidos graxos saturados.

Além disso, alguns estudos revelam o efeito neutralizador do ácido esteárico no colesterol sérico. Um deles examinou os efeitos de uma dieta rica em manteiga de cacau (composta predominantemente por ácido esteárico) no colesterol sérico, comparando-a a três outras dietas ricas em tipos diferentes de gordura: azeite de oliva (conhecido por seus efeitos hipocolesterolêmicos), óleo de soja (considerado hipocolesterolêmico e manteiga de leite de vaca (hipercolesterolêmica). As dietas com azeite de oliva e óleo de soja diminuíram significativamente os níveis de colesterol sanguíneo (5% e 15%, respectivamente), enquanto que a dieta rica em manteiga de leite de vaca aumentou os níveis de colesterol em 8%. Em compensação, a dieta rica em manteiga de cacau não elevou os níveis de colesterol. Neste sentido cabe discutir que apesar dos efeitos encontrados no estudo, o consumo de manteiga de leite de vaca em pequenas quantidades e dentro de uma dieta equilibrada pode benefícios à saúde intestinal devido ao teor de ácido butírico, que além de ser uma fonte primária de energia para enterócitos pode modular a função dos macrófagos intestinais, restaurando a integridade dos tubos intestinais e reduzindo, assim, as inflamações. Além disso, embora tenham sido encontrados resultados favoráveis com o óleo de soja, em nosso país a maior parte destas leguminosas é transgênica, e ainda não sabemos o efeito em longo prazo do consumo deste tipo de alimento em nosso organismo. Por isso ressalta-se a importância de diversificar no uso de óleos e gorduras em nossa dieta. Atualmente temos variedades e fácil acesso aos óleos de abacate, coco, macadâmia, linhaça entre outros, que além de fornecerem gorduras mono e poli-insaturadas, indispensáveis ao nosso organismo, possuem propriedades funcionais como ação antioxidante e anti-inflamatória.

Um dos subprodutos mais consumidos do cacau é o chocolate, destacando-se propriedades nutricionais e funcionais do chocolate amargo, que além de conter a manteiga de cacau, possui maior concentração deste fruto, resultando em um benefício adicional pelo conteúdo de flavonoides. Assim, além dos efeitos sobre o colesterol, este alimento pode modular o estresse oxidativo e a inflamação e melhorar as funções das células endoteliais e, consequentemente, das funções cardiovasculares. Além disso, os flavonoides podem ser coadjuvantes terapêuticos em patologias como o câncer, condições inflamatórias, hiperglicemia e resistência à insulina.

Considerando estas propriedades, um estudo publicado pela revista Appetite investigou o impacto do consumo de 50g de chocolate amargo, por 3 semanas, nos níveis de estresse oxidativo de 25 mulheres e 25 homens(em idades de 28 a 45 anos). Além disso, os pesquisadores avaliaram os níveis de HDL e LDL dos dois grupos após o consumo do chocolate. Os participantes foram orientados a não consumir outros produtos contendo cacau nesse período e consumir uma dieta com baixo teor de flavonoides. Os resultados mostraram uma melhora no perfil lipoproteico, o que pode corresponder a um efeito protetor sobre o sistema cardiovascular. A concentração total de HDL das mulheres aumentou de 64,5% para 71,5% e o dos homens de 50,3% para 54%, já o LDL das mulheres teve uma redução de 108,5% para 91,75% e o dos homens de 123% para 118%. O estudo discute que os resultados foram mais positivos nas mulheres em comparação aos homens devido à diferença na via oxidativa entre os gêneros, a qual é mais acentuada nas mulheres em decorrência da produção de estrogênio e do aumento do estresse oxidativo durante o período reprodutivo, fato confirmado pelos maiores níveis de peroxidação lipídica nesta população encontrados no estudo. Assim, sugere-se que as mulheres possuem melhor resposta dos mecanismos de defesa antioxidante contra os danos oxidativos, se beneficiando mais com o consumo de chocolate amargo em relação aos homens.

Outro estudo demonstrou que o consumo de 65g de chocolate amargo por pacientes com HIV/AIDS em estado inflamatório e oxidativo foi suficiente para aumentar as concentrações de HDL-c. Os participantes receberam 65g de uma barra de chocolate amargo, contendo 36g de cacau – correspondendo a uma média de 2864mg de polifenois (aproximadamente 550mg/dia de flavonoides) – ou 65g de chocolate branco como placebo. O grupo que recebeu 65g de chocolate amargo apresentou aumento na concentração média de HDL-c (p=0,008), ao contrário do grupo placebo, que não apresentou diferenças na concentração média de HDL-c (p=0,14).

Cabe enfatizar que os benefícios citados são associados principalmente à ingestão de cacau em pó 100% ou chocolate amargo. O consumo de chocolate ao leite ou branco contém quantidades muito inferiores de flavonoides (devido ao baixo teor de cacau) e podem, ainda, conter outras gorduras de adição que não a manteiga de cacau, assim, os benefícios citados não seriam aplicáveis.

Além disso, apesar dos benefícios associados à manteiga de cacau anteriormente mencionados, ressalta-se que o consumo moderado dentro de uma dieta equilibrada, individualizada, com o rodízio do tipo de óleos e gorduras utilizados na dieta é a melhor estratégia, pois considera a ativação de diferentes vias metabólicas (reduzindo a sobrecarga de determinada via) e a interação e biodisponibilidade dos nutrientes, um pilar fundamental da nutrição funcional para atingirmos resultados mais favoráveis na modulação dos níveis lipídicos.  

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