Alimentação adequada para uma pele saudável


Alimentação adequada para uma pele saudável

Publicado em 22/02/2017 às 12:08



Cravos e espinhas são grandes inimigos estéticos dos adolescentes, faixa etária na qual são mais prevalentes e estão relacionados com prejuízos psicológicos, como constrangimento, redução da autoestima, ansiedade, frustração e até depressão. A associação entre acne e alimentação, apesar de ser rodeada de mitos e crendices, tem sido bastante estudada pela ciência e explorada pelos meios midiáticos.

Para o entendimento do papel dietético sobre a prevenção e tratamento da acne é necessário o conhecimento de quatro fatores básicos que podem causar esta doença: a produção exagerada de sebo, a hiperproliferação de células da pele, o aumento da multiplicação de bactérias da espécie Propionibacterium acnes e a inflamação da pele, que são eventos essenciais à instalação da acne e todos eles sofrem influência da alimentação.

Vários estudos epidemiológicos demonstram que em civilizações que adotam hábitos alimentares distintos dos ocidentais contemporâneos, a acne é rara, enquanto no ocidente, esta dermatose atinge entre 75 e 90% dos adolescentes. O elevado consumo de laticínios e alimentos de alto índice glicêmico, como açúcar, doces e cereais refinados é apontado como a principal justificativa para tais achados. Leite, derivados e carboidratos de rápida absorção elevam a secreção hepática do fator de crescimento semelhante à insulina 1 (IGF-1) que, por sua vez, promove aumento da proliferação das células da pele e aumenta a liberação de hormônios sexuais, que estimulam na pele a produção de sebo.

Os alimentos ricos em gorduras saturadas, como carnes gordas, linguiças, salames e chocolates também podem piorar a acne, pois o principal componente do sebo estimulador da multiplicação da Propionibacterium acnes, o ácido sapiênico, é proveniente da transformação de ácidos graxos saturados da dieta. O desequilíbrio entre o consumo de alimentos ricos em gorduras da série ômega 6 e ômega 3 também tem implicação no aumento da prevalência da acne. Os ácidos graxos ômega 3 têm como principais fontes alimentares pescados, linhaça e chia. São consumidos em quantidades insuficientes nos padrões alimentares ocidentais. Na pele, estes lipídeos reduzem a inflamação e, consequentemente, melhoram quadros acneicos. Os ômega 6, por outro lado, presentes principalmente em óleos de soja, milho e girassol são consumidos em quantidades exageradas e têm efeito inflamatório. Segundo estudos o leite e os alimentos com um alto peso glicêmico são os melhores candidatos à desencadear processos de acne.

Alterações da homeostase microbiana intestinal são também responsáveis pela alta prevalência de acne. Elementos comuns do estilo de vida ocidental contemporâneo, como estresse, má alimentação e uso excessivo de antibióticos e inibidores da secreção ácida alteram no intestino o equilíbrio entre bactérias benéficas e patogênicas. As bactérias maléficas destroem as junções entre as células intestinais, aumentando a permeabilidade intestinal, que permite a absorção de macromoléculas e toxinas que, por sua vez, causam inflamação sistêmica, observada na pele com o aparecimento de cravos e espinhas. O intestino alterado também produz substância P, que na pele induz inflamação e secreção de sebo.

A alimentação tem uma forte influência sobre a saúde da pele, assim como de todo o organismo. A alta prevalência de acne em nossa sociedade não se deve apenas a alterações hormonais vivenciadas por todos, durante a adolescência, mas principalmente aos hábitos de vida da população. O estímulo à mudança de hábitos alimentares é essencial para a redução do impacto à qualidade de vida, representado por esta patologia.

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