Água e biodiversidade. Água e vida.


Água e biodiversidade. Água e vida.

Publicado em 25/09/2019 às 14:22



Diante da magnitude das alterações climáticas já anunciadas amplamente em todos os meios de comunicação, a atitude mais ingênua é insistir que as soluções serão encontradas por meio do progresso tecnológico, sem que os padrões de produção e consumo nas sociedades modernas sejam profundamente repensados.

Os dez mil anos de história da agricultura podem ser interpretados como uma busca incessante de novas práticas para a intensificação do uso dos solos em resposta às crescentes demandas alimentares decorrentes dos aumentos demográficos (BOSERUP, 1987).

A rápida disseminação global dos padrões técnicos da Revolução Verde trouxe como consequência uma profunda reorientação na lógica de apropriação dos recursos naturais pela agricultura, sobretudo ao distanciá-la dos processos ecológicos responsáveis pela reprodução da integridade ambiental dos agroecossistemas. À medida que as inovações técnicas permitiam a intensificação produtiva, os agroecossistemas foram se diferenciando estrutural e funcionalmente dos ecossistemas naturais, num processo de progressiva artificialização, ou seja, de distanciamento dos equilíbrios naturais.

Neste ponto, é possível dizer que a agricultura consome mais de 70% da água bombeada de rios, lagos e aquíferos do mundo. As áreas irrigadas no planeta triplicaram e apresentam cerca de 60% deste volume como desperdício, por meios de fenômenos naturais como evaporação por exemplo. De acordo com estudos, se promovêssemos uma redução de 10% no volume desperdiçado, este montante seria suficiente para abastecer o dobro da nossa população mundial atual (PETERSEN, 2009).

Acesso Infogram: https://infogram.com/uso-da-agua-no-mundo-1g3qnmx979zjmlw

Fonte: EBC Notícias. Disponível em: .

Alguns dados nos ajudam a mensurar este custo elevado de água e os seus exacerbados desperdícios em efeito cascata quando analisamos o exemplo de certos cultivares de grãos. Para que 1 kg de cereais seja cultivado na agricultura irrigada, o arroz, por exemplo, são consumidos mais de 2 mil litros de água (WATER FOOTPRINT).

A pegada global da água utilizada na produção de arroz 

 “WaterFootprint” é uma forma de mensurar a pegada de toda a água consumida na cadeia produtiva de determinado bem. É composta por indicadores que estão relacionados com a origem ou impacto causado na água, envolvendo seu uso e contaminação, sendo representados pelas cores azul, verde e cinza. O indicador verde representa a água de chuva, o azul a água de superfície (rios, lagos e outros) e subterrâneas, já o cinza informa o impacto causado por poluição nos corpos d’água.

Fonte: WATER FOOTPRINT.

O solo e a água são recursos naturais indispensáveis à sobrevivência da vida no planeta Terra, sendo a produção de alimentos dependente diretamente destes bens.

O solo, as águas superficiais e subterrâneas podem ser contaminados e, posteriormente, poluídos por compostos de natureza orgânica ou inorgânica, originados da deposição de substâncias e/ou compostos estrangeiros ao próprio ambiente.

No atual processo produtivo agrícola, podemos observar uma constante utilização de agrotóxicos com moléculas de ação biocida, tais como inseticidas, fungicidas, herbicidas e nematicidas, com objetivo de eliminar insetos, pragas, doenças e plantas invasoras que, na tentativa de reduzir danos econômicos nas lavouras, causam prejuízos imensuráveis ao ambiente.

Mesmo que estes modelos de agriculturas façam a utilização apenas dos adubos químicos, estas já se apresentariam como insustentáveis. Moléculas como o Nitrogênio e Fósforo podem se acumular e serem lixiviadas, promovendo a contaminação e posterior poluição de sistemas hídricos, ocasionando a eutrofização daqueles ambientes.

É interessante ponderarmos a diferença entre os termos contaminação e poluição. Um ambiente é considerado contaminado por algum elemento quando houver aumento de suas concentrações em relação às concentrações naturais, enquanto que um ambiente é considerado poluído quando as concentrações de um determinado elemento se encontram em níveis superiores à capacidade de absorção e/ou degradação destas moléculas pelo ambiente, afetando os componentes bióticos do ecossistema, comprometendo sua funcionalidade e sustentabilidade.

A figura abaixo demonstra alguns dos possíveis caminhos percorridos por essas substâncias contaminantes.

Fonte: REBELO et al., 2014. 

Um exemplo bem recente de poluição por efeito consequente dos sistemas produtivos atuais foi noticiado pela Agência Fapesp, nos reservatórios do médio Tietê, a agência definiu através de análises laboratoriais que a Floração de Algas está diretamente ligada às concentrações de Nitrogênio e Fósforo provindas da agricultura de cana-de-açúcar e laranja nesta bacia de drenagem, esta Floração de algas causa poluição das águas, além de provocar morte dos organismos aquáticos (peixes, plantas, e outros) por consumirem o oxigênio disponível na coluna d1água, liberarem gases tóxicos da decomposição da matéria orgânica e impedir a entrada de luz, dando continuidade a este processo eutrófico (AGÊNCIA FAPESP, 2019)

Abaixo, a Floração de Algas em Ibitinga/SP, uma região do rio Tietê;

Fonte: INPE.

É demonstrado nas imagens, da esquerda para a direita, o rápido desenvolvimento do Bloom de Algas à medida que a concentração de algas aumenta ao longo do verão último, poluindo os corpos d’água. O crescimento das algas é demonstrado com a intensificação da cor vermelha.

Analisando todas estas questões, fica clara a importância de aprendermos sobre o uso eficiente e responsável da água, aplicando tais conhecimentos acima citados, para o desenvolvimento de novas tecnologias e saberes que considerem a produção planejada de acordo com a quantidade de água disponível em cada solo, uma das características essenciais para a construção de estilos de agricultura mais adequadas a cada região, ampliando a sustentabilidade local e ambiental.

A questão que nos fica é a seguinte: Que tipo de utilização da água estamos promovendo e financiando com os nossos hábitos de consumo?

Referências Bibliográficas:

AGÊNCIA FAPESP. Laboratório do Inpe divulga nota sobre florações de algas em reservatórios do rio Tietê. Agência Fapesp, 2019. Disponível em:< http://agencia.fapesp.br/laboratorio-do-inpe-divulga-nota-sobre-floracoes-de-algas-em-reservatorios-do-rio-tiete/29848/>.

BOSERUP, E. Evolução agrária e pressão demográfica. São Paulo: Ed. Hucitec, 1987.

INPE - Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Coordenação-Geral de Observação da Terra. Nota técnica do Laboratório de Instrumentação de Sistemas Aquáticos (LabISA - OBT/INPE) sobre os recentes eventos de florações de algas no sistema de reservatórios do Rio Tietê. INPE, 2019. Disponível em: <http://www.obt.inpe.br/OBT/noticias/nota-do-laboratorio-de-instrumentacao-de-sistemas-aquaticos-labisa-obt-inpe-sobre-os-recentes-eventos-de-floracoes-de-algas-no-sistema-de-reservatorios-do-rio-tiete>.

PEREIRA, L.G. Síntese dos métodos de pegada ecológica e análise emergética para diagnóstico da sustentabilidade de países: o Brasil como estudo de caso. Dissertação (mestrado) – Universidade Estadual de Campinas, 2008.  

PETERSEN, P.F.; WEID, J.M.; FERNANDES, G.B. Agroecologia: reconciliando agricultura e natureza. Informe Agropecuário; 30(252), 2009.

PIMENTEL, J. A Relação da Planta com a Água. Depto. de Fitotecnia. Instituto de Agronomia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Seropédica: Ed. EDUR, 2004.

REBELO, R.M.; CALDAS, E.D. Avaliação de risco ambiental de ambientes aquáticos afetados pelo uso de agrotóxicos. Quím Nova;  37(7): 1199-1208, 2014. 

STEFFEN, G.P.K.; STEFFEN, R.B.; ANTONIOLLI, Z.I. Contaminação do solo e da água pelo uso de agrotóxicos. Revista TECNO-LÓGICA da Universidade Federal de Santa Maria; 15(1):15-21, 2011. Disponível em: .

WATER FOOTPRINT. Product gallery. Disponível em: < Disponível em: .