Overtraining e o sistema imune: o papel da nutrição


Overtraining e o sistema imune: o papel da nutrição

Publicado em 22/04/2019 às 15:23



O objetivo primário do atleta é otimizar seu desempenho. Tal finalidade torna-se possível por meio da modulação progressiva do volume, intensidade e frequência do treinamento, aliado ao equilibrado estado nutricional e higiene do sono. Contudo, uma progressão é bem tolerada quando existem períodos intercalados e adequados entre descanso e recuperação dentro da periodização definida para cada indivíduo.

O overreaching é considerado um acúmulo de carga de treinamento que leva à queda no desempenho esportivo (1,2). O decréscimo no desempenho esportivo é um estado de treinamento programado e desejado, causado por excesso de exercício e, quando o overreaching é seguido de descanso adequado, há melhoria na performance, chamando-se "overreaching funcional” (1). Contudo, quando o overreaching atinge níveis extremos associados a hábitos estressantes e contínuos, como alimentação inadequada, sono irregular e ruim controle das variáveis do treinamento, há o “overreaching não funcional”, que, em última instância, pode evoluir para a “síndrome do overtraining” e acarretar na perda de rendimento por longo prazo, adoecimento recorrente e estresse mental-depressivo, podendo levar anos para ser completamente sanada (3). Dentro deste contexto, é importante distinguir a diferença entre overtraining, em que há um decréscimo crônico no desempenho e costuma levar semanas ou meses para se recuperar; e overreaching, caracterizado por um decréscimo de desempenho temporário, seguido de alguns dias de recuperação completa gerando a supercompensação almejada. Um dos problemas está na dificuldade em distinguir overreaching e estágios iniciais do overtraining (4).

Neste cenário, uma alimentação com adequada ingestão energética e de macro e micronutrientes é essencial para manter as defesas naturais do corpo contra patologias infecciosas e imunosupressão induzida por exercício excessivo. Sendo assim, a nutrição exerce efeito adjuvante no que tange disposição, execução e recuperação ótima associada ao treinamento. Facilmente, a presença de uma subnutrição pode gerar déficits metabólicos que, em curto e/ou médio prazo, podem comprometer sua evolução esportiva. Podemos, por exemplo, destacar a importância de nutrientes específicos como vitamina D, cobalamina e zinco para o ideal estado de um sistema imunológico eficaz (5,6). Ou até mesmo dietas hipocalóricas - e em alguns casos isocalóricas - podem culminar em perda de peso dos atletas, adjacendo quedas significativas de inúmeros aspectos da função imune (7,8).

Em alguns casos, a utilização de suplementos dietéticos pode auxiliar o resgate da função imunológica e reduzir o risco de infecções por tornar o cumprimento do consumo devido macro e micronutricional facilitado. Porém, a quantidade de suplementos existentes que, teoricamente aumentam a imunidade, é muito ampla. Deve-se ter muita cautela, pois tais alegações são frequentemente baseadas em evidências limitadas e seletivas onde os ensaios metodológicos são baseados em animais, experimentos in vitro, crianças, idosos e até mesmo pacientes clínicos críticos; ou seja, em populações nada tangíveis e transferíveis de realidade (6,9).

A “Síndrome do overtraining” é demasiada complexa e deve ser constantemente evitada. Para isso, além do treinamento controlado, a nutrição terá responsabilidade essencial e mandatária no que tange recuperação e manutenção ótima do sistema imunológico dos atletas e praticantes recreacionais.

Referências bibliográficas:

  1. Halson, S.L.; Jeukendrup, A.E. Does overtraining exist? An analysis of overreaching and overtraining research. Sports Med; 34(14): 967-981, 2004.
  2. Meeusen, R.; Duclos, M.; Gleeson, M. et al. Prevention, diagnosis and treatment of the overtraining syndrome: ECSS Position Statement Task Force. Eur J Sport Sci; 6(1): 1-14, 2006.
  3. Armstrong, L.E.; VanHeest, J.L. The unknown mechanism of the overtraining syndrome: clues from depression and psychoneuroimmunology. Sports Med; 32: 185-209, 2002.
  4. Pedersen, B.K.; Hoffman-Goetz, L. Exercise and the immune system: regulation, integration, and adaptation. Physiol Rev; 80(3): 1055-1081, 2000.
  5. Calder, P.C.; Yaqoob, P. Diet, Immunity and Inflammation. Woodhead Publishing: Cambridge, 2014.
  6. Walsh, N.P.; Gleeson, M.; Pyne, D.B. et al. Position Statement Part Two: Maintaining immune health. Exerc Immunol Rev; 17: 64-103, 2011.
  7. Shimizu, K.; Aizawa, K.; Suzuki, N. et al. Influence of weight loss on monocytes and T-cell populations in male judo athletes. J Strength Cond Res; 25: 1943-1950, 2011.
  8. Umeda, T.; Nakaji, S.; Shimoyama, T. et al. Adverse effects of energy restriction on changes in immunoglobulins and complements during weight reduction in judo. J Sports Med Phys Fitness; 44: 328-334, 2004.
  9. Gleeson, M.; Bishop, N.; Walsh, N. Exercise Immunology. Routledge: London, 2013.

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