O uso da fitoterapia como recurso terapêutico na dispepsia funcional


O uso da fitoterapia como recurso terapêutico na dispepsia funcional

Publicado em 18/04/2019 às 15:52



A dispepsia funcional está entre as desordens funcionais gastrointestinais mais reconhecidas, sendo caracterizada por uma síndrome clínica que compreende sintomas crônicos decorrentes da região gastroduodenal, incluindo plenitude pós-prandial, saciedade precoce, dor ou queimação epigástrica, náuseas, inchaço, eructações e azia, sem nenhuma evidência de doença estrutural que possa explicar os sintomas1.

A importância clínica dessa desordem se justifica pelos seguintes fatores: prevalência populacional de 5 a 40% em todo o mundo (variável devido ao critério diagnóstico adotado e localização geográfica), sendo mais comum em países ocidentais e sexo feminino2,3; custos diretos e indiretos para o sistema de saúde; impacto na qualidade de vida, no emocional e produtividade dos pacientes4; terapêutica medicamentosa limitada, associada a melhora temporária dos sintomas e efeitos colaterais indesejáveis5.

Nesse contexto, a fitoterapia, que consiste no tratamento por meio do uso de plantas medicinais, pode ser um recurso eficaz na melhora clínica dos pacientes com dispepsia funcional. De acordo com uma investigação sobre os tratamentos utilizados por indivíduos com desordens funcionais gastrointestinais, 36,7% optaram por fitoterápicos6.

A abordagem fitoterápica na dispepsia funcional deve abranger plantas medicinais com atividades espasmolítica, carminativa, sedativa, antiácida, digestiva, entre outras, sendo que os principais princípios ativos envolvidos são os princípios amargos, óleos essenciais, mucilagens, anticolinérgicos e alcaloides7. Algumas das plantas que possuem essas características, citadas na literatura e em legislações pertinentes à área incluem: Cynara scolymus (alcachofra), Matricaria recutita (camomila), Maytenus ilicifolia (espinheira-santa), Peumus boldus (boldo), Pimpinella anisum (erva-doce) e Zingiber officinale (gengibre)8,9.

Em um estudo clínico, randomizado e duplo-cego, conduzido com 126 pacientes dispépticos durante 4 semanas, foi administrada uma associação de alcachofra e gengibre em cápsulas ou placebo. Cada cápsula da associação continha 100mg de extrato seco padronizado de alcachofra e 20mg de extrato seco padronizado de gengibre, sendo que o grupo tratado foi orientado a tomar 1 cápsula imediatamente antes do almoço e jantar. Os resultados demonstraram melhora significativa de sintomas como náuseas, plenitude epigástrica, dor epigástrica e inchaço no grupo tratado com a associação dos extratos das plantas10.

Em outro estudo clínico duplo-cego, foram avaliados os efeitos da erva-doce no alívio dos sintomas da síndrome de desconforto pós-prandial, uma subclasse da dispepsia funcional de acordo com o consenso de Roma IV. Um total de 107 pacientes diagnosticados com a síndrome, de acordo com os critérios de Roma, foram randomizados para receber placebo ou 3g de pó de erva-doce após cada refeição, 3 vezes ao dia., durante 4 semanas. Ao final da intervenção houve uma redução significativa da gravidade de plenitude epigástrica, desconforto epigástrico, queimação/dor epigástrica, saciedade precoce, inchaço, eructações e perda de apetite no grupo tratado com o fitoterápico11.

Esses, entre outros estudos conduzidos com plantas medicinais, demonstram que a fitoterapia pode representar uma estratégia de tratamento promissora, eficaz e segura na dispepsia funcional, sendo que para isso precisamos ter um conhecimento detalhado sobre o paciente e suas individualidades, bem como um estudo aprofundado das plantas medicinais e suas características.

Referências bibliográficas:

  1. TALLEY, N.J. Functional Dyspepsia: Advances in Diagnosis and Therapy. Gut and Liver; 11(3): 349-357, 2017.
  2. MAHADEVA, S.; FORD, A.C. Clinicaland epidemiological differences in functional dyspepsia between the East and the West. Neurogastroenterol Motil; 28(2): 167-74, 2016.
  3. Napthali, K. et al. Women and Functional Dyspepsia. Women’s Health; 12(2): 241-50, 2016.
  4. Stanghellini, V. et al. GastroduodenalDisorders. Gastroenterology; 150(6): 1380-92, 2016.
  5. Fan, K., Talley, N.J. Functionaldyspepsia and duodenal eosinophilia: a new model. J Dig Dis; 18(12): 667-677, 2017.
  6. Lahner, E. et al. A Survey of Pharmacological and Nonpharmacological Treatment of Functional Gastrointestinal Disorders. United European Gastroenterology Journal; 1(5):385-93, 2013.
  7. ALONSO, J.R. Fitomedicina: curso para profissionais da área da saúde. 1 ed. São Paulo: Pharmabooks, 2007.
  8. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Instrução Normativa nº2 de 13 de maio de 2014. Publica a “Lista de medicamentos fitoterápicos de registro simplificado” e a “Lista de produtos tradicionais fitoterápicos de registro simplificado”. Diário Oficial da União, nº 90, seção 1, p. 52.
  9. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução RDC n.º 84, de 17 de junho de 2016. Aprova o Memento Fitoterápico da Farmacopeia Brasileira. Anvisa, Brasília, DF, 2016.
  10. Giacosa, A. et al. The Effect of Ginger (Zingiber officinalis) and Artichoke (Cynara cardunculus) Extract Supplementation on Functional Dyspepsia: A Randomised, Double-Blind, and Placebo-Controlled Clinical Trial. Evid Based Complement Alternat Med; 2015: 915087, 2015.
  11. Ghoshegir S.A., et al. Pimpinella anisumin the treatment of functional dyspepsia: A double-blind, randomized clinical trial. Journal of Research in Medical Sciences; 20(1): 13-21, 2015.