Agroecologia no Brasil: do surgimento até sua consolidação como ciência


Agroecologia no Brasil: do surgimento até sua consolidação como ciência

Publicado em 13/03/2019 às 10:50



O termo agroecologia surgiu na década de 70, pela necessidade normativa e/ou explicativa destas novas vertentes de agriculturas alternativas que, além da importância da produção, também apresentavam como seus atores principais as questões de sustentabilidade ambiental, econômica e social, inclusive abrangiam àquelas que ultrapassavam os limites da propriedade rural1.

Incentivados pelos problemas apresentados pelo novo modelo de agricultura pós-revolução verde, muitos pesquisadores passaram a se empenhar no estudo de modelos indígenas de agricultura, que apresentavam características mais endógenas e não dependentes de agentes externos, onde estes sistemas de agricultura utilizam as variações e limitações na capacidade de produção do próprio local, contornando estes fatores limitantes através da implantação de mecanismos que ajustavam e protegiam o ambiente da degradação1.

A definição para o termo Agroecologia é muito ampla, e é preciso ter atenção com as interpretações errôneas empregadas a sistemas que não contemplam suas ideias norteadoras. O termo tem sido muito usado com um viés sócio-político do processo de ecologização, e mesmo que reflita de forma positiva, acaba por reduzir todo o potencial que está imbuído neste termo quando o mesmo é vinculado a expressões rasas, como por exemplo, a de ser apenas mais um modelo de agricultura ecológica e socialmente justa. Ao invés disto, devemos interpretar como sendo um meio plausível e passível de realização de processos para o alcance de uma agricultura mais sustentável em todos os âmbitos, sejam eles sociais, ambientais, culturais, inclusive políticos e econômicos2.

Analisando o conhecimento construído por três dos principais autores, Altieri, Hecht e Gleissmann, que apesar de demonstrarem em suas teorias, peculiaridades, todos eles concordam em pontos centrais que dão estrutura a qualquer sistema que possa ser chamado de agroecológico. Todos os autores concordam que a Agroecologia é, além de uma ciência, uma ferramenta para minimizar a artificialização dos ambientes naturais, com o objetivo de produzir alimentos e gerar biodiversidade, fazendo uso dos recursos e características locais na composição e dinamização do agroecossistema, na busca incessante por maior sustentabilidade em cada um dos seus processos, e não como uma técnica ou ciência que pode ser replicada de forma cosmopolita, pois é dependente do conhecimento e cultura locais, bem como, das características intrínsecas a cada propriedade rural1,3,4.

A Agroecologia começou a se institucionalizar após o primeiro Encontro Nacional de Agroecologia (ENA), que ocorreu em 2002. Nesta ocasião foi criada a Articulação Nacional de Agroecologia (ANA). Já em 2004, no 2º Congresso Brasileiro de Agroecologia (CBA), foi fundada a Articulação Brasileira de Agroecologia (ABA).

A Agroecologia então se consolida, como ciência, em 2006, com a publicação do Marco Referencial de Agroecologia, lançado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) e na União com a criação da Lei de Ater, Lei nº 12.188/2010, que institui a Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (PNATER), além do Programa de Assistência Técnica e Extensão Rural na Agricultura Familiar e na Reforma Agrária (PRONATER), definindo os princípios e objetivos dos serviços prestados. Após isso, tem sua produção e comercialização definidas através da Lei 10.831, de 23 de dezembro de 2003 e regulamentadas em 27 de dezembro de 2007 a partir da publicação do Decreto Nº 6.3235.

Após todos estes passos, o assunto começou a ser discutido no âmbito universitário com o surgimento dos cursos de Agroecologia nas universidades federais, estaduais e mais recentemente em particulares também, ofertando mais de 30 cursos diferentes em Agroecologia, sendo 6 de bacharelado e os demais tecnológicos, além de programas de pós-graduação, totalizando mais de 12.000 pesquisadores atuantes na área de pesquisa em Agroecologia, dos quais, quase 4.000 são doutores, distribuídos de Norte a Sul do Brasil6.

A partir da disseminação destes conhecimentos produzidos pela ciência, somadas aos conhecimentos empíricos adquiridos, aliadas à valorização da cultura de cada localidade e sua biodiversidade, passamos a ver mudanças contínuas e crescimento similar de produtores em transição agroecológica, assim como o interesse pelos consumidores por estes alimentos produzidos em sistemas mais sustentáveis6. Estes dados nos dão esperança de estarmos vivendo o princípio de uma mudança em busca de um Brasil mais Agroecológico em toda a amplitude deste termo.

Figura 1. Apresentação simplificada da amplitude e a transversalidade que pode abranger o conceito de agroecologia.

A figura tenta representar, mesmo que de forma minimalista por não apontar todos os âmbitos de interação todos os seus eixos transversais e suas inter-relações, a amplitude e a complexidade do conceito de agroecologia. Portanto, ter atitude agroecológica é buscar maior sustentabilidade em todos os âmbitos de interação e processos de produção de alimento que envolvem o ser humano e o ambiente.

Figura 2. Linha do tempo do surgimento da agricultura, demonstrando o largo tempo na construção do conhecimento até a revolução verde e a jovem vida da ciência agroecologia que tenta fazer o resgate e socialização destes conhecimentos em busca de maior sustentabilidade.

 

Por: Luis Gustavo Patricio Nunes Pinto

Graduado em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual Paulista “Julio de Mesquita Filho” (Unesp) de Bauru, integrante da Articulação Regional de Agroecologia (ARA); principais temas de pesquisa: Agroecologia, produção orgânica e biodinâmica, Agricultura familiar, sustentabilidade rural e ambiental.

Referências Bibliográficas:

HECHT, S.B. A evolução do pensamento agroecológico. Universidade da Califórnia. In: Altieri, M. (ed.), Agroecologia – as bases científicas da agricultura alternativa. Rio de Janeiro: PTA-FASE, 1989. p. 25-41.

CAPORA, F.R.; COSTABEBER, J.A. AGROECOLOGIA: alguns conceitos e princípios. 24p., Brasília: MDA/SAF/DATER-IICA, 2004. Disponível em: .  Acesso em: 03/02/2019.

GLEISSMAN, S.R. Agroecologia: processos ecológicos em agricultura sustentável. 4ª ed. Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 2009. 658p.

ALTIERI, M. Agroecologia: a dinâmica produtiva da agricultura sustentável. 4.ed. – Porto Alegre, RS. Editora da UFRGS, 2004.

VILLAR, J.P.; CARDOSO, I.M.; FERRARI, E.A. et al. Os caminhos da agroecologia no Brasil. In: GOMES, J.C.C.; ASSIS, W.S. (eds.). Agroecologia: princípios e reflexões conceituais. Brasília: Embrapa, p. 37-72, 2013.

EMBRAPA. Marco referencial em agroecologia. Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária.  Brasília - DF. Embrapa Informação Tecnológica, 2006. Disponível em: < https://www.alice.cnptia.embrapa.br/alice/bitstream/doc/107364/4/Marcoreferencial.pdf>. Acesso em: 03/02/2019.

MASSUKADO, L.M.; BALLA, J.V. Panorama dos cursos e da pesquisa em agroecologia no Brasil. 2016, Revista Eletrônica de Jornalismo Científico. Disponível em: < http://www.comciencia.br/comciencia/handler.php?section=8&edicao=127&id=1548>. Acesso em: 03/02/2019.


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