COMER BEM PARA VIVER MELHOR
Na edição de Maio da Revista Época foi publicada uma matéria que comparava as dietas restritivas e que associavam o prazer de comer à culpa com dietas simples e saborosas, porém saudáveis. Com o avanço da ciência da nutrição, substâncias benéficas e maléficas dos alimentos foram descobertas, nos fornecendo dados para escolhermos o que comer para viver mais e melhor. O autor da matéria cita surpreso a conclusão de recentes pesquisas de que em dietas criadas por diferentes povos do planeta estão segredos de uma dieta saudável, o oposto de estudos mais antigos que proibiam a ingestão de alimentos saborosos. Porém, as dietas tradicionais citadas pelo autor são defendidas pela maioria das nutricionistas há muito tempo. O artigo baseia-se em informações cientificamente comprovadas, cita as referências e ressalta a importância de não acreditarmos em informações sem comprovação científica. A matéria, além dos artigos, cita a opinião de professores no assunto, como o professor Richard Béliveau, da Universidade de Québec, que diz “as pessoas tem de buscar o caminho do prazer, não da restrição” e que “dietas tradicionais tem muito mais variedade: são simples e deliciosas, o oposto de dietas industrializadas que tem baixo valor nutricional e são monótonas”.
Umas das dietas mais conhecidas e estudadas que combinam saúde e prazer é a Mediterrânea, adotada em países como Grécia, Espanha e Itália, com alto consumo de azeite de oliva, castanhas e ingestão moderada de álcool (normalmente o vinho), que está associada à redução do risco de doenças crônicas, como as cardiovasculares. Uma revisão de vários estudos realizados entre 1966 e Junho de 2008, publicado pela Universidade de Florença na Itália no British Medical Journal em Setembro de 2008, afirmou que esta dieta pode reduzir em 9% a mortalidade geral e a mortalidade por doenças cardiovasculares, diminuir em 6% a incidência de câncer e em 13% a incidência de mal de Parkinson e de Alzheimer.
Entretanto, existem evidências de que outras dietas, como a japonesa, indiana e até mesmo a brasileira, possam trazer benefícios à saúde humana. Em comum, tais dietas têm o consumo elevado e variado de hortaliças e a ausência de alimentos industrializados. Deve-se ressaltar que as dietas tradicionais brasileiras consideradas saudáveis são aquelas que têm a proporção de 75% a 80% de hortaliças para 20% a 25% de carne em um prato – proporções recomendadas pela maioria dos nutricionistas, mas dentre a qual muitos brasileiros não se encaixam, pois consomem fast foods ou alimentos industrializados pela praticidade e correria do dia-a-dia. A tradição japonesa nos oferece a soja e o chá verde, atuando contra o câncer como cita uma revisão do Journal Of Clinical Oncology de 2009, além de peixes ricos na gordura ômega-3. Esta gordura, presente em peixes como atum, salmão e cação, é importante para o coração e o sistema nervoso, além de prevenir o câncer e melhorar a imunidade. No presente ano, a clínica Cleveland fez um estudo mostrando o poder do ômega-3 na redução de triglicerídeos e melhora da coagulação e pressão sanguínea. A matéria não citou, mas o ômega-3 também é encontrado nos peixes sardinha e cavalinha e também tem ação anti-inflamatória. Uma revisão de 2007 publicada na revista Prostaglandins Leukot Essent Fatty Acids, cita o papel do ômega-3 na inflamação e que este mecanismo poderia ser importante na prevenção e tratamento de doenças cardiovasculares.
A culinária indiana prega a substituição do sal por pimentas e especiarias como a cúrcuma, e limita a ingestão de carne vermelha, enquanto que a dieta tradicional brasileira fornece uma proporção equilibrada de alimentos no prato e estimula a ingestão de frutas. A mistura “arroz com feijão” nos oferece uma proteína completa, como a encontrada nas carnes, e a salada fornece fitoquímicos, substâncias que, segundo o neurologista francês David Servan-Schreiber, combatem o câncer. As dietas tradicionais foram substituídas pela alimentação globalizada, como a dos americanos, rica em açúcar e farinha refinados e óleos com ômega-6, e pobre em vitaminas e minerais, levando à obesidade que, segundo a associação americana de combate às doenças cardiovasculares (American Heart Association), reduz a expectativa de vida em cerca de sete e seis anos, respectivamente para mulheres e homens não fumantes na faixa dos 40 anos. A gordura abdominal em adultos jovens parece elevar o risco de demência e Alzheimer na terceira idade, segundo um estudo de 2009 da Universidade Colúmbia.
Alguns estudos alertam também para os prejuízos à saúde causados por substâncias adicionadas aos alimentos, como por exemplo, os corantes artificiais. Uma pesquisa da Agência Britânica de Padrões Alimentares, cita que a substância E128, conhecida como Vermelho 2G (um corante usado em hambúrgueres e salsichas) pode ser nociva, porque encontrou tumores cancerosos em camundongos submetidos a certa quantidade da substância. No Japão, o Vermelho 2G é proibido para o consumo humano. Porém, mais estudos realizados em humanos são necessários para comprovar tal afirmação. Mas porque não utilizar corantes naturais, como a cúrcuma? A curcumina, presente na cúrcuma, pode combater e prevenir o câncer, proteger o cérebro, fortalecer a imunidade e ter ação anti-inflamatória. Estudo de revisão de 2009 do Journal Of Clinical Oncology também confirma a informação de que a curcumina, assim como o morango, teriam ação anti-inflamatória, além de antioxidante e anti-cancerígena. O artigo de Época não cita o papel do morango em relação ao câncer, mas sim da ação antioxidante das antocianinas também presentes na amora, cereja e framboesa como protetoras do coração e do cérebro. Em 2009, a Universidade Trufts associou a ingestão de amoras à melhora das funções cognitivas e motora. O alho, a cebola, o alho-poró e a cebolinha são ricos em alicina, que previne o câncer, protege coração e cérebro e melhora a imunidade. Segundo um estudo da Universidade de Adelaide de 2008 pode reduzir a pressão arterial em hipertensos. As oleaginosas (castanha-do-brasil (antiga do Pará), nozes, amêndoas e avelã), as crucíferas (brócolis, couve-flor e couve-de-bruxelas, entre outros) e a couve assim como a laranja, acerola, abóboras e a cenoura agem na prevenção do câncer, proteção do coração e fortalecem a imunidade. Oleaginosas são fontes de vitamina E, selênio e zinco, antioxidantes que previnem o envelhecimento precoce. Um estudo da Universidade Loma Linda associou a ingestão das oleaginosas ao menor risco de obesidade e doenças coronárias. O Instituto Americano de Saúde mostrou que a vitamina C presente nas frutas citadas poderia inibir o câncer de mama. As quantidades de ingestão diária recomendadas na matéria seriam: 1 colher de chá de cúrcuma (3g), 1 punhado das frutas vermelhas, 2 dentes de alho, 100g de oleagionosas, 100g de crucíferas, 1 copo de suco de laranja, assim como 3 ou mais porções semanais de atum, salmão ou cação. No entanto, mais estudos em humanos fazem-se necessários para se confirmar tais quantidades.
Segundo a International Agency for Research on Cancer, os Estados Unidos tem 32% de adultos obesos e incidência de câncer de 357 casos a cada 100 mil habitantes; enquanto que no Japão 3% dos adultos são obesos, a expectativa de vida é de 82 anos e a incidência de câncer é de 214 por 100 mil habitantes. A alimentação não seria o único fator causal da obesidade, mas o sedentarismo teria sua influência. No Brasil, a obesidade atinge 11% dos adultos, 18% dos meninos e 15,5% das meninas. O artigo conclui que a mudança de hábitos alimentares, reduziria os custos com doenças e melhoraria a qualidade de vida da população e nos faz refletir sobre a importância da troca do conceito de saúde curativa para o de saúde preventiva.
*Texto elaborado pela Dra. Erika Santinoni, aluna bolsista do curso de Pós-graduação em Nutrição Clínica Funcional - VP Consultoria Nutricional/ Divisão Ensino e Pesquisa.