GORDURA X CALORIA – O QUE É MELHOR CORTAR PARA EMAGRECER MAIS RÁPIDO?
Texto elaborado pela Dra. Renata Lemos Fetter, aluna bolsista do curso de Pós-graduação em Nutrição Clínica Funcional pela VP Consultoria Nutricional/ Divisão Ensino e Pesquisa.
A edição nº 332 de dezembro de 2010 da revista Saúde é Vital publicou a matéria “Gordura X Caloria – o que é melhor para emagrecer mais rápido?”, que abordou a questão da contagem de calorias e redução da gordura na perda de peso. Na matéria, considera-se que a contagem de calorias não é o principal fator no emagrecimento, mas sim, é o controle da ingestão de gorduras saturadas.
Estudos de revisão realizados por profissionais da USP demonstraram que a comida gordurosa facilita a deposição de gordura corporal com mais rapidez do que comidas ricas em carboidratos, mesmo quando o índice calórico das duas é similar. O risco de conversão em gordura corporal no primeiro caso é de 96%, enquanto que no segundo caso é de apenas 46%.
A obesidade é uma patologia complexa, de etiologia multifatorial, devendo ser tratada de forma mais abrangente e não somente enfatizando a questão da contagem de calorias. A matemática entre ingestão e gasto energético deve ser levada em conta na estratégia de emagrecimento; porém, não deve ser fator único a ser considerado, uma vez que diversos estudos têm demonstrado que a qualidade da dieta influencia muito mais do que apenas um balanço energético negativo.
Além da sua função de armazenamento de gordura, o tecido adiposo é um órgão que possui função secretória de componentes que modulam o apetite, gasto energético, sistema endócrino, sensibilidade à insulina, sistema reprodutor, metabolismo ósseo, inflamação e imunidade.
A secreção de adipocinas (polipeptídeos secretados pelos adipócitos) como TNF-alfa, interleucina-6, leptina, adiponectina e resistina age na mediação do metabolismo. O excesso de secreção de adipocinas está relacionado com o desenvolvimento de doenças metabólicas e cardiovasculares, assim como aumento do processo inflamatório. Indivíduos obesos apresentam níveis elevados de marcadores inflamatórios como proteína C reativa (PCR), TNF-alfa e IL-6 quando comparados a indivíduos magros.
Dentre os fatores que auxiliam no ganho de peso, podemos citar a qualidade da alimentação e dietas restritivas associadas à exposição a toxinas. Esta associação promove uma estimulação do sistema imunológico, levando ao estado de inflamação com desequilíbrios na atividade de diversos neurotransmissores hipotalâmicos. Uma alimentação desequilibrada, pobre em vitaminas, minerais e fibras e rica em carboidratos refinados e gorduras saturadas estimula o processo inflamatório, gerando maior resistência à perda de peso.
Tendo em vista que muitos alimentos possuem compostos bioativos capazes de modular a inflamação causada pelo excesso de peso, podemos utilizar esta ferramenta na prática clínica. Dentre eles, os ácidos graxos ômega-3 estão entre as gorduras consideradas benéficas ao organismo e que favorecem a redução de peso. Portanto, as estratégias dietéticas que auxiliam na perda de peso devem incluir um adequado consumo de ácidos graxos ômega-3, redução do consumo de ácidos graxos saturados e trans, além da maior ingestão de frutas, vegetais, grãos integrais, oleaginosas e redução da ingestão de grãos refinados.
Uma recente meta-análise demonstrou que no período de um ano, uma dieta com baixo conteúdo de gordura, além de promover melhores efeitos no perfil lipídico, foi mais eficaz na redução de peso do que as dietas com baixo teor de carboidratos. Outro estudo comparou a dieta mediterrânea (rica em grãos integrais, legumes, frutas, vegetais, nozes, azeite de oliva e peixes) com a dieta recomendada pela American Heart Association (gordura total < 30% do valor energético total). Ao final de dois anos, o número de componentes da síndrome metabólica foi menor nos pacientes que seguiram a dieta mediterrânea.
O que precisa ser levado em consideração é que para emagrecer, deve ser realizado um planejamento dietético bem estruturado contendo alimentos funcionais que visam modular os níveis de cortisol e glicemia, melhorar a inflamação através da modulação do NFkB, neutralizar os radicais livres, assim como praticar exercício físico, que favorece a perda de gordura corporal e a manutenção da massa muscular, além de acelerar o metabolismo.