18 de Maio de 2012

RESÍDUOS ANTIBIÓTICOS EM ALIMENTOS DE ORIGEM ANIMAL


Mundialmente, a produção global de carne triplicou desde 1970 e subiu em 20% desde 2000, com o consumo aumentando significativamente mais rápido do que a população global. No Brasil, a introdução e o consumo de produtos cárneos na dieta das famílias tende a aumentar de maneira uniforme, de acordo com o nível de rendimentos familiares, uma vez que é o grupo alimentar com o maior impacto econômico sobre o orçamento das famílias brasileiras 1,2.

Apesar do consumo de carnes ser bem diversificado entre as regiões, a ingestão per capita de carne bovina no Brasil é de 36,6 kg/ano, seguida do frango com 26 kg/ano e suínos com 12,8 kg/ano. Em se tratando de laticínios, a ingestão per capita varia de 29 kg/ano na região Nordeste, até 71 kg/ano na região Sul 1,3.

Uma vez que a produção animal é uma das atividades mais expressivas do agronegócio brasileiro e para que os produtos consigam suprir a demanda do mercado, faz-se necessário que o tempo entre o nascimento e o abate do animal diminua. A fim de assegurar a produtividade e a competitividade do setor, a utilização de medicamentos com fins terapêuticos e de profilaxia é uma prática bastante comum. Dos medicamentos utilizados, os agentes antibióticos correspondem a uma das classes mais prescritas4.

Assim sendo, a monitoração de resíduos de antibióticos em alimentos é uma área de preocupação crescente e muito importante, devido ao seu potencial impacto na saúde humana. Os antibióticos são administrados nos animais não só no tratamento de doenças, mas também subterapêuticamente para manter a saúde, evitar infecções, melhorar o desempenho no cruzamento, promover o crescimento de massa muscular, melhorar a eficiência ou utilização alimentar, sincronizar ou controlar o ciclo reprodutivo e aumentar a aceitação do consumidor ao produto final5,6.

Uma larga variedade de antimicrobianos está disponível para uso na medicina veterinária e aquicultura, entre esses, os antimicrobianos das classes dos betalactâmicos (penicilinas e cefalosporinas), sulfonamidas, tetraciclinas, aminoglicosídeos (estreptomicina e gentamicina), macrolídeos (eritrimicinas), quinolonas e anfenicóis (cloranfenicol e análogos) e rifamicinas7.

O uso de antibióticos não autorizados ou o não cumprimento das orientações de administração dos antibióticos autorizados pode resultar na presença de níveis elevados de resíduos de antibióticos nos produtos alimentares. Por este motivo, o controle de resíduos de antibióticos em alimentos deve constituir um programa de vigilância e o conhecimento da dimensão da exposição da população a esses compostos é de fundamental importância para nortear as ações de controle, visando à proteção do consumidor 5,7.

Resíduos antibióticos em leite e derivados
O uso difundido de antibióticos pelos produtores e médicos veterinários no tratamento de doenças infecciosas de vacas leiteiras, principalmente nas mastites, e a utilização de drogas na alimentação animal, como suplemento de dietas, têm contribuído para a presença de resíduos de antimicrobianos no leite. Outras condições que podem determinar a presença de tais resíduos no leite são a higienização de equipamentos e utensílios da indústria e/ou a adição proposital de drogas para encobrir a deficiência na qualidade higiênica do leite e aumentar seu tempo de vida útil8.

O período de carência de um antimicrobiano é o prazo de eliminação deste no leite, após sua última aplicação. Esse período de eliminação da substância administrada deve ser respeitado para prevenir resíduos de drogas e aditivos alimentares nos alimentos provenientes dos animais tratados, que durante esse período não devem ser utilizados para consumo humano8.

O leite contaminado por resíduos de antibióticos pode criar, ainda, prejuízos para a indústria de laticínios, interferindo principalmente nos processos de fermentação, nos quais utilizam-se culturas acidoláticas na produção de queijos, iogurtes e manteiga. Os antibióticos interferem no crescimento dos cultivos iniciadores durante a elaboração de produtos lácteos9.

Em relação ao consumidor, o leite com antimicrobianos pode provocar reações alérgicas, como urticárias, dermatites ou rinites e asma brônquica, além de risco de choque anafilático em indivíduos sensíveis, teratogenia e desequilíbrio da microbiota intestinal. Tais reações são relacionadas principalmente às penicilinas, mas tetraciclina, estreptomicina e sulfonamidas também podem causar esse tipo de reação6,10,11.

Outro risco a ser considerado é o consumo de leite com altos níveis de resíduos de antimicrobianos por gestantes, tendo em vista que alguns antimicrobianos possuem potencial teratogênico. Além de reações alérgicas e de indução de quadros patológicos como, por exemplo, a anemia aplástica, os resíduos de antimicrobianos possibilitam o risco de indução de resistência bacteriana e, posteriormente, a transferência de multiresistência entre os microrganismos através de plasmídios12.

Em um estudo realizado em Piracicaba, São Paulo, foram detectadas concentrações de até 0,002 UI/mL de penicilina. A variação das concentrações de penicilina variou de 0,013 a 0,94 UI/mL, contendo índices superiores ao recomendado (máximo 0,05 UI/mL). Destaca-se a importância de se determinar níveis reduzidos de penicilina no leite, pelo fato de ser discutível qual a faixa de concentração que pode trazer riscos para o consumidor13.

Resíduos antibióticos em carnes
O aumento da produção, as condições higiênico-sanitárias precárias e a superpopulação de animais tornam as granjas e abatedouros verdadeiros incubadores de bactérias, o que pode levar ao desenvolvimento de enfermidades. Para o controle das mesmas, opta-se pelo uso de antibióticos. O problema surge quando o produtor utiliza o antibiótico em níveis maiores do que o permitido para promover o crescimento do animal em menor espaço de tempo14.

Com isso, surgem as bactérias resistentes aos antibióticos, trazendo grandes preocupações para o consumo humano, acarretando em falhas no tratamento, aumento nos custos dos mesmos e aumento nas taxas de morbidade e mortalidade da população humana. O resultado seria a necessidade de doses mais elevadas de medicamentos antibióticos para tratar infecções, devido ao consumo de carnes, leite ou ovos contaminados15,16.

Os principais antibióticos utilizados em produtos cárneos são: tetraciclina, penicilinas, estreptomicinas, eritromicina, nistatina, tilosina, virginiamicina, sulfonamidas, entre outros17.

Para contornar tal situação, os aditivos fitogênicos, extratos herbais e vegetais, fazem parte de uma classe de produtos que poderá substituir os agentes antimicrobianos. Como opção, destaca-se o extrato de orégano, por ser composto de dois principais fenóis com propriedades antimicrobianas: o carvacrol e o thymol, que agem sobre a membrana celular bacteriana, impedindo sua divisão mitótica, causando desidratação nas células e impedindo a sobrevivência de bactérias patogênicas, apresentando grande efeito como agente antimicrobiano. Tais aditivos podem ser adicionados à ração dos animais. Adicionalmente, o uso de probióticos como agente promotor de crescimento tem mostrado bons resultados, resultando em maior ganho de peso pelo animal, melhor palatabilidade da carne, entre outros benefícios16,18.

Resíduos antibióticos em ovos
Em se tratando de ovos, há a possibilidade da produção dos mesmos contendo resíduos, em função da exposição das aves a diversos contaminantes. Muitos dos resíduos são preferencialmente depositados na gema, devido à sua composição química característica, como a presença de maior fração lipídica19.

Os antibióticos mais comuns utilizados em frangos são as penicilinas, estreptomicinas, diidroestreptomicinas, neomicinas e tetraciclinas. Já em ovos, os mais comuns são a oxitetraciclina e a espectinomicina. Uma vez que resíduos de antibióticos ofertados às aves conseguem ser transferidos às gemas, torna-se fundamental manter-se vigilante quanto a todos os tipos de medicamentos veiculados. No entanto, muitos dos níveis de tolerância ou o Limite Máximo de Resíduos em ovos não são conhecidos/regulamentados para os antibióticos que são comumente utilizados na avicultura comercial17,19.

Os efeitos colaterais à saúde humana são os mesmos observados com o consumo de leite e carnes contaminados por antibióticos.

Conclusão
O uso de antibióticos como promotores de crescimento foi banido por países da Comunidade Europeia. Apresentando-se como um dos maiores produtores e exportadores mundiais de carnes, o Brasil precisa estar preparado para atender às exigências de exportações, desenvolvendo novas tecnologias e pesquisas que possibilitem alternativas para a substituição dos antibióticos18.

Embora o uso excessivo de antibióticos na medicina humana seja a principal causa da crise atual da resistência a antibióticos, especialistas em saúde pública concordam que o uso excessivo e o mau uso destas substâncias na produção animal intensiva são também fatores importantes, uma vez que cerca de metade da produção de antibiótico do mundo é direcionada para animais de fazenda20.

Assim sendo, os medicamentos veterinários aplicados aos animais devem ser somente aqueles adequados e apenas o estritamente necessário para os efeitos terapêuticos ou profiláticos desejados, em relação aos quais deve-se sempre respeitar o intervalo de segurança prescrito, de forma a evitar a presença de resíduos de medicamentos veterinários e salvaguardar a segurança alimentar e a saúde pública21.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Pesquisa de Orçamento Familiar 2008-2009.
2. HANCE, J.; Meat consumption jumps 20 percent in last decade with super-sized environmental impacts. Disponível em http://news.mongabay.com/2011/1011-hance_meateating_rise.html Outubro, 2011. Acessado em 24 de novembro de 2011.
3. AGROCARNES. Disponível em http://www.agrocarnes.com.br/carnes.htm. Acessado em 24 de novembro de 2011.
4. REGITANO, J.S.; LEAL, R.M.P.; Comportamento e impacto ambiental de antibióticos usados na produção animal brasileira. R. Bras. Ci. Solo; 34:601-616, 2010
5. PENA, A.L.S.; SILVEIRA, M.I.N.; CASTILLO, B.; Antibióticos em alimentos: determinação e quantificação por HPLC com detecção fluorimétrica. Ars Pharmaceutica; 38:27-37, 1997.
6. SILVA, M.V.M.; SARMENTO,A.M.C.; FRANCA, A. P.; Resíduos de antibióticos no leite e seus efeitos na saúde pública: uma preocupação constante. In: 35ºCongresso Brasileiro de Medicina Veterinária, 2008. Gramado. Anais do 35ºCongresso Brasileiro de Medicina Veterinária, 2008.
7. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Programa Nacional de Análise de Resíduos de Medicamentos Veterinários em Alimentos Expostos ao Consumo – PAMVet. Brasília, 2003. Disponível em: http://www.anvisa.gov.br/alimentos/pamvet/pamvet.pdf. Acessado em 26 de novembro de 2011.
8. TENÓRIO, C.G.B.; Avaliação da eficiência do teste COPAN (microplate e single) na detecção de resíduos de antimicrobianos no leite. Belo Horizonte, UFMG, 2007, 59 p. Dissertação (mestrado) – Universidade Federal de Minas Gerais, 2007.
9. SOUSA, F.C.; OLIVEIRA, E.N.A.; SANTOS, D.C.; SILVA, E.F.M. Ocorrência de resíduos de antibióticos em leites pasteurizados comercializados no estado do Ceará- Brasil. Rev Verde (Mossoró – RN – Brasil); 5(4):10-14, 2010.
10. PAIVA E BRITO, M.A.V.; LANGE, C.C.; Comunicado técnico 44: Resíduos de antibióticos no leite. Disponível em: http://people.ufpr.br/~freitasjaf/artigos/antibioticoleite.pdf. Acessado em 26 de novembro de 2011.
11. MACEDO, L.C.S.; FREITAS, J.A.Ocorrência de resíduos de antimicrobianos em leite. Rev. Ciênc. Agrar; 52:147-157, 2009.
12. BORGES, G.T.; SANTANA, A.P.; MESQUITA, A.J.; et al. Ocorrência de resíduos de antibióticos em leite pasteurizado integral e padronizado produzido e comercializado no estado de Goiás. Rev Ciência Animal Brasileira; 1(1), 2000.
13. NASCIMENTO, G.G.; MAESTRO, V.; CAMPOS, M.S.P. Ocorrência de resíduos de antibióticos no leite comercializado em Piracicaba, SP. Rev. Nutr., Campinas, 14(2): 119-124, 2001.
14. DALKE, V.S. Análise de Resíduos de antibióticos em carne de frango. Novo Hamburgo, 2006. Centro Universitário FEEVALE. Monografia. Universidade Feevale, 2006.
15. BOURSCHEIT, A. Consumo de carnes com antibióticos podem fazer mal à saúde. Agência Envolverde. Disponível em http://www.secom.unb.br/unbcliping2/2006/cp060426-15.htm.
16. CORRÊA,G. et al; Utilização de antibiótico e probióticos como promotores de crescimento na alimentação de frangos de corte. Revista Universidade Rural: Série Ciências da Vida; 22(2):75-81. 2003.
17. GOMES, M.D. Resíduos de antibióticos promotores de crescimento em produtos de origem animal, Brasília. UnB. Dissertação (mestrado) – Universidade de Brasília. 2004.
18. FUKAYAMA, E.H.; BERTECHINI, A.G.; GERALDO, A.; et al; Extrato de orégano como aditivo em rações para frango de corte. R. Bras. Zootec.; 34(6): 2316-2326. 2005.
19. MAZUCCO, H. Resíduos contaminantes em ovos comerciais. Avicultura Industrial; 1:12-20,2006.
20. COMPASSION IN WORLD FARMING. Antibiotics in animal farming: Public health and animal welfare. 2011. Disponível em http://www.ciwf.org.uk/includes/documents/cm_docs/2011/a/antibiotics_in_animal_farming.pdf.
21. MINISTÉRIO DA ECONOMIA E DA INOVAÇÃO. Autoridade de Segurança e economia (ASAE). Perfil de risco dos principais alimentos consumidos em Portugal. Portugal, 2009.

Vânia Mattoso
Aluna-bolsista do curso de pós-graduação de Nutrição Clínica Funcional da VP Consultoria Nutricional / Divisão Ensino e Pesquisa




ANTIOXIDANTES NO PEQUI E EFEITOS NA ATIVIDADE FÍSICA

O Pequi
O Caryocar brasiliense Camb., popularmente conhecido com Pequi, é uma árvore típica do cerrado brasileiro, cujo fruto é usado na culinária regional e na medicina popular, devido ao seu alto valor nutritivo. O óleo contido na polpa do fruto do pequizeiro contém diversos carotenoides, tais como caroteno, licopeno, criptoxantina, zeaxantina, luteína e neoxantina1-4.

O pequizeiro é nativo do cerrado brasileiro, incluindo os estados do Pará, Mato Grosso, Goiás, Distrito Federal, São Paulo, Minas Gerais, Paraná e os estados nordestinos do Piauí, Ceará e Maranhão. A palavra pequi, na língua indígena, significa "casca espinhosa", porém o fruto também é conhecido por diversos nomes como piqui, pequiá, amêndoa de espinho, grão de cavalo ou amêndoa do Brasil. Sua frutificação ocorre principalmente entre os meses de janeiro e março5.

O fruto é constituído pelo exocarpo ou pericarpo, de coloração esverdeada ou marrom-esverdeada, mesocarpo externo, polpa branca com coloração pardo-acinzentada e mesocarpo interno, que constitui a porção comestível, que apresenta coloração amarelada. O endocarpo, que é espinhoso, protege a semente ou amêndoa, que é revestida por um tegumento fino e marrom, sendo também uma porção comestível6.

Composição química do pequi e sua capacidade antioxidante
Em 2007, um grupo de pesquisadores analisou a composição química e os compostos bioativos presentes na polpa e na amêndoa do pequi. Nesse trabalho foi observado que a polpa do fruto de pequi é rica em lipídios (33,4%). Além disso, é considerada uma fonte interessante de fibras, apresentando 10,02%, correspondendo a 40% das necessidades diárias de fibras alimentares. Observou-se também que a fração proteica corresponde a 3% do fruto4.

Ao analisarem os componentes da amêndoa do pequi, os pesquisadores constataram que 51,51% do conteúdo corresponde a lipídios, enquanto as proteínas correspondem a 25, 27%. Já em relação aos carboidratos, a amêndoa apresenta 8,33% e 2,2% de fibras. Verificou-se um baixo teor de umidade e um teor elevado de minerais, representado pelas cinzas. Esse fruto apresentou concentrações predominantes de ácidos graxos insaturados.

A polpa apresenta 61,35% e a amêndoa apresenta 52,17% de ácidos graxos insaturados. O ácido oleico está presente em maior concentração na polpa, com 55,87%, sendo seguido pelo ácido palmítico, que corresponde a 35,17%. Na amêndoa do pequi, predominam os ácidos palmítico e oleico em quantidades praticamente iguais, 43,76% e 43,59%, respectivamente. Também estão presentes o ácido linoleico, com 5,51%; esteárico, com 2,04% e palmitoleico, com 1,23%.

É possível observar que tanto a polpa como a amêndoa do pequi possuem ácidos graxos importantes para compor uma dieta saudável. Por ser um fruto encontrado em regiões onde as árvores recebem alta incidência de raios solares, ocorre um favorecimento da formação de radicais livres. Essas condições favorecem a biossíntese de compostos secundários com propriedades antioxidantes (compostos fenólicos e carotenoides totais), como é apresentado na Tabela 1 4.

Tabela 1.
Teores de fenólicos totais e carotenoides totais em mg/100g, na polpa e amêndoa de pequi
(valores expressos como média +/- desvio-padrão).
Fonte: adaptado de Lima et al., 20074.


Na avaliação da atividade antioxidante do extrato aquoso e das frações de ácidos fenólicos da polpa do pequi há evidências de proteção contra os danos oxidativos, comparados ao padrão comercial butilidroxitolueno (BHT). Esses resultados indicam que a polpa do pequi é um alimento com elevada capacidade antioxidante, demonstrando a correlação existente entre a quantidade de fenólicos totais e a proteção antioxidante 7,8.

Na tabela 2, podemos observar uma comparação entre os teores fenólicos de polpas de frutas consideradas extensivamente antioxidantes. O pequi apresenta 209 mg de fenólicos em 100 gramas de polpa, ou seja, tem uma elevada capacidade antioxidante. Na polpa e na amêndoa do pequi, os lipídios são os constituintes predominantes, prevalecendo nestes os ácidos graxos oleico e palmítico.




Tabela 2. Tabela comparativa dos teores de fenólicos totais em 100g de polpa.
Fonte: adaptado de Lima et al., 20074.


Estresse oxidativo induzido por atividade física intensa
O metabolismo humano produz continuamente espécies reativas de oxigênio (EROs), como resultado do metabolismo oxidativo mitocondrial normal - ou seja, processos oxidativos são constantes no organismo.9

Em situações normais, os produtos dos processos oxidativos são neutralizados por um sistema de defesa antioxidante, que consiste de enzimas, como a catalase (CAT), superóxido dismutase (SOD), glutationa peroxidase (GPX) e diversos antioxidantes não enzimáticos10. A atividade física regular é considerada essencial para promover saúde e prevenção de diversas doenças - porém, a partir do momento em que essa atividade é excessiva pode promover danos, ao invés de trazer benefícios. A prática de exercícios físicos de forma extenuante aumenta o consumo de oxigênio e pode promover um desequilíbrio entre as EROs e os antioxidantes, promovendo estresse oxidativo. Trabalhos mostram que a atividade exaustiva aumenta a geração de espécies reativas de oxigênio, promovendo danos no DNA e nos tecidos. 11

A prática de exercícios físicos extenuantes pode promover o estresse oxidativo. Isso resulta em aumento nos níveis sanguíneos de malondialdeído (MDA), que serve como indicador indireto da peroxidação lipídica e pode ser mensurado pelas TBARS, substâncias reativas ao ácido tiobarbitúrico. Além disso, ele pode iniciar reações que se assemelham à fase aguda de uma resposta imune como uma infecção com aumento de PCR (proteína C reativa) 10. Nesse contexto, o consumo dietético de antioxidantes pode ajudar a prevenir o estresse oxidativo e lesões teciduais.

O pequi e a prevenção do estresse oxidativo induzido por atividade física

Muitos estudos têm investigado o impacto do status antioxidante nos prejuízos gerados pelo exercício12,14,16.. Com esse propósito, a maioria das intervenções dietéticas tem como foco os fatores nutricionais, como as vitaminas e compostos antioxidantes que neutralizam o estresse oxidativo induzido pela atividade física.

Os compostos fitoquímicos bioativos podem apresentar um papel vital na proteção de células submetidas ao estresse oxidativo induzido pelo exercício16. Trabalhos mostram que os compostos bioativos são capazes de prevenir os danos oxidativos em atletas de endurance que esgotaram sua capacidade endógena antioxidante, devido aos treinos intensos e frequentes. Além disso, a composição rica em ácidos graxos insaturados do óleo de pequi está envolvida na modulação das taxas pós-prandiais de triglicerídeos e colesterol18. Estudos mostram que o óleo de pequi é eficiente na redução de danos ao DNA e nos tecidos13. Além disso, de acordo com estudos, os óleos da polpa de outra espécie de pequi, o C. coriaceum, apresenta efeitos anti-inflamatórios significativos. Pesquisadores alegam que o óleo de pequi poderia reduzir eficientemente a inflamação induzida pela atividade física, podendo inclusive modular os níveis de lipídios pós-prandiais de corredores.

Conclusão
O pequi apresenta compostos fenólicos e carotenoides totais, os quais estão associados à prevenção de processos oxidativos. Diante das questões aqui discutidas, é possível observar que o consumo da polpa de pequi poderá trazer benefícios à saúde da população; além disso, devido à sua ampla capacidade antioxidante, seu consumo pode ser interessante para praticantes de atividade física. A atividade física apresenta benefícios já bem descritos na literatura, porém essa prática promove aumento da produção de EROs. Quando o organismo é submetido à atividade extenuante, há um aumento do estresse oxidativo, com possível redução da sua capacidade antioxidante.

Nesse sentido, torna-se essencial que praticantes de atividade física tenham um consumo elevado de alimentos antioxidantes. O pequi apresenta compostos bioativos em sua composição e lipídios insaturados que, ao serem introduzidos no planejamento alimentar do indivíduo, poderão facilitar o equilíbrio do organismo. O uso do óleo de pequi, como um suplemento para atletas, também pode ser interessante. Para essa confirmação, ainda são necessários mais estudos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. RAMOS, M.I.L.; UMAKI, M.C.S.; HIANE, P.A.; RAMOS-FILHO, M.M. Efeito do cozimento convencional sobre os carotenoides pró-vitamínicos “A” da polpa de pequi (Caryocarbrasiliense Camb.). Bol Centro Pesq Process Aliment; 19:23-32, 2001.
2. AZEVEDO-MELEIRO, C.H.; RODRIGUEZ-AMAYA, D.B. Confirmation of the identity of the carotenoids of tropical fruits by HPLC-DAD and HPLC-MS. J Food Comp Anal; 17:385-396, 2004.
3. OLIVEIRA, M.N.S.; GUSMÃO, E.; LOPES, P.S.N.; et al. Estágio de maturação dos frutos e fatores relacionados aos aspectos nutritivos e de textura da polpa de pequi (Caryocar brasiliense Camb.). Rev Bras Frutic; 28:380-386, 2006.
4. LIMA, A.; SILVA, A.M.O.; TRINDADE, R.A.; et al. Composição química e compostos bioativos presentes na polpa e na amêndoa do pequi (Caryocar brasiliense Camb.). Rev Bras Frutic; 29:695-698, 2007.
5. RIBEIRO, R.F. Pequi: o rei do cerrado. Belo Horizonte: Rede Cerrado, 62p, 2000.
6. MELO JUNIOR, A.F.; CARVALHO, D.; PÓVOA, J.S.R.; BEARZOTI, E. Estrutura genética de populações naturais de pequizeiro (Caryocar brasiliense Camb.). Scientia Forestalis; 66: 56-65, 2004.
7. LIMA, A.; MANCINI-FILHO, J. Compostos com atividade antioxidante no fruto Pequi (Caryocar brasiliense, L), Revista da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição (NUTRIRE); 30: 310, 2005.
8. KUSKOSKI, E.M.; ASUERO, G.A.; TRONCOSO, A.M.; MANCINI-FILHO, J.; FETT, R. Aplicación de diversos métodos químicos para determinar actividad antioxidante em pulpa de frutos. Revista de Ciência e Tecnologia de Alimentos; 25(4): 726-732, 2005.
9. HERMES-LIMA, M. Oxygen in biology and biochemistry: Role of free radicals. In: Storey KB (ed) Functional Metabolism: Regulation and Adaptation. Hobocken, New Jersey, pp 319-368, 2004.
10. FERREIRA, F.; FERREIRA, R.; DUARTE, J.A. Stress oxidativo e dano oxidativo muscular esquelético: Influência do exercício agudo inabitual e do treino físico. Rev Port Cien Desp; 7(2):257-75, 2007.
11. SUREDA, A.; TAULER, P.; AGUILÓ, A.; et al. Relation between oxidative stress markers and antioxidant endogenous defences during exhaustive exercise. Free Rad Res; 39:317-1324, 2005.
12. CLARKSON, P.M.; THOMPSON, H.S. Antioxidants: what role do they play in physical activity and health? Am J Clin Nutr; 72:637S-46S, 2000
13. MIRANDA-VILELA, A.L.; AKIMOTO, A.K.; ALVES, P.C.Z.; et al. Dietary carotenoid-rich oil improves plasma lipid peroxidation and damages in runners: evidence for an association with MnSOD genetic variant-Val9Ala. Gen Mol Res; 8(4), 2009.
14. URSO, M.L.; CLARKSON, P.M. Oxidative stress, exercise, and antioxidant supplementation. Toxicology; 189:41-54, 2003.
15. CRUZAT, V.F.; ROGERO, M.M.; BORGES, M.C.; TIRAPEGUI, J. Aspectos atuais sobre estresse oxidativo, exercícios físicos e suplementação. Rev Bras Med Esp;13(5):336-42, 2007.
16. JI, L.L. Oxidative stress during exercise: implication of antioxidant nutrients. Free Rad Biol Med; 18(6):1079-86.,1995.
17. ALESSIO, H.M.; HAGERMAN, A.E.; ROMANELLO, M.; et al. Consumption of green tea protects rats from exerciseinduced oxidative stress in kidney and liver. Nutr Res; 22:1177-88, 2002.
18. LÓPEZ, S.; BERMÚDEZ, B.; PACHECO, Y.M.; et al. Dietary oleic and palmitic acids modulate the ratio of triglycerides to cholesterol in postprandial triglyceride-rich lipoproteins in men and cell viability and cycling in human monocytes. J Nutr; 137:1999-2005, 2007.
19. LECARPENTIER, Y. Physiological role of free radicals in skeletal muscles. J Appl Physiol; 103:1917-8, 2007.
20. CAZZOLA, R.; RUSSO-VOLPE, S.; CERVATO, G.; CESTARO, B. Biochemical assessments of oxidative stress, erythrocyte membrane fluidity and antioxidant status in professional soccer players and sedentary controls. Eur J Clin Invest; 33:924-30, 2003.
21. WOODS, J.A.; LU, Q.; LOWDER, T. Exercise-induced modulation of macrophage function. Immunol Cell Biol; 78:545-53. 2000.

*Texto elaborado pelo Departamento Científico da VP Consultoria Nutricional.




O PAPEL DA RADIAÇÃO SOLAR NA PRODUÇÃO DE VITAMINA D

Introdução
Desde que os alimentos começaram a ser fortificados com vitamina D e o raquitismo pareceu ter sido eliminado, muitos profissionais da saúde pensaram que o maior problema de saúde, relacionado à deficiência desta vitamina, havia sido resolvido. No entanto, o raquitismo pode ser considerado apenas o topo do iceberg da deficiência de vitamina D. A descoberta de que a maioria das células e tecidos do corpo tem receptores para a vitamina D e que muitos possuem a maquinaria enzimática necessária para converter a fórmula circulante primária, 25-hidroxivitamina D, para a fórmula ativa, 1,25-diidroxivitamina D, têm trazido novas perspectivas sobre a função desta vitamina1.

Existe um renovado interesse na síntese, metabolismo e ação da vitamina D. Uma das razões deste interesse aumentado pode ser a tendência ao agravamento da deficiência mundial de vitamina D. Nos Estados Unidos, bem como em outras partes do mundo, a média dos níveis séricos da vitamina D (25(OH)D) caiu drasticamente na última década2. O maior exemplo desta queda vem do estudo populacional National Health and Nutrition Examination Survey (NHANES)3, que demonstrou quase o dobro do número de indivíduos com níveis de 25(OH)D menores do que 30ng/mL, de 1994 para 20044.

Assumiu-se que ingerir uma dieta balanceada e viver perto da linha do Equador era tudo o que se necessitava para se garantir a suficiência de vitamina D5. Porém, infelizmente, poucos alimentos contêm naturalmente vitamina D e somente alguns alimentos são fortificados com esta vitamina6. A exposição solar, que supre mais do que 90% das necessidades diárias de vitamina D para a maioria dos indivíduos6, também tem sido evitada, em consequência do aumento da preocupação com o câncer de pele7. Um número de fatores influencia a fotossíntese e a biodisponibilidade da vitamina D e contribuem com o aumento do risco de deficiência desta vitamina8. Desta forma, este estudo tem a finalidade de rever aspectos relacionados com a síntese e o metabolismo da vitamina D, bem como os elementos determinantes deste processo.

Síntese e Metabolismo
Trabalhos científicos entre 1920 e 1930 levaram à descoberta de que a vitamina D poderia ser sintetizada endogenamente na pele de mamíferos expostas ao sol. O mecanismo e a sequencia de reações químicas envolvidas no processo foram elucidados em 19808.

Na pele, a 7-dehidrocolesterol (pró-vitamina D) absorve a radiação ultravioleta B (UVB) com comprimentos de onda de 290 – 315 nm e é convertida em pré-vitamina D3. A pré-vitamina D3 passa por uma isomerização termal e se torna vitamina D3. A exposição contínua à radiação UVB leva a transformação da pré-vitamina D3 e da vitamina D3 em foto-produtos inativos, evitando a intoxicação por excesso de exposição solar. As formas de vitamina D dietética (ergocalciferol - D2 e colecalciferol - D3) são absorvidas no trato gastrointestinal, incorporadas em quilomícrons e transportadas via sistema linfático até a circulação. A vitamina D (D2 e D3) proveniente da dieta e da síntese cutânea entra na circulação juntamente à proteína ligadora de vitamina D (DBP). Como uma molécula lipossolúvel, ela pode ser estocada no tecido adiposo para uso posterior. A vitamina D circulante é metabolizada no fígado para 25-hidroxivitamina D [25(OH)D], pela enzima D-25-hidroxilase. A atividade da enzima D-25-hidroxilase é inibida pela [25(OH)D] (feedback negativo). A [25(OH)D] reentra na circulação e é metabolizada no rim e em outros tecidos ao metabólito ativo 1,25-dihidroxivitamina D [1,25(OH)2D] pela enzima 25-hidroxivitaminaD-1a-hidroxilase (25(OH)D-1a-hidroxilase). A produção renal da 1,25(OH)2D é inibida pelos elevados níveis plasmáticos de fósforo, cálcio e fator de crescimento do fibroblasto (FGF-23). O hormônio paratireoidiano (PTH) aumenta a produção renal de 1,25(OH)2D. O catabolismo da 25(OH)D e da 1,25(OH)2D, em moléculas biologicamente inativas, é primeiramente mediado pelas enzimas do citocromo P-450, CYP24 e CYP3A48.

Fatores que influenciam a síntese e a absorção da vitamina D
Um grande número de fatores biológicos e ambientais se combina para influenciar no status de vitamina D, nos humanos8. Na pele, qualquer coisa que influencie o número de fótons solares de UVB ou a quantidade de 7-dehidrocolesterol disponível, pode influenciar significativamente a produção da vitamina D. Para que a síntese desta vitamina ocorra, o espectro de ação dos raios solares deve estar dentro da faixa de raios ultravioleta do tipo B (280-315nm). O comprimento de onda ótimo para a produção de vitamina D fica entre 295nm e 300nm, com pico de produção em 297nm9.

Partículas atmosféricas: A quantidade de radiação UVB efetiva para a vitamina D, que alcança a superfície da Terra, é influenciada pela camada de ozônio (O3) e por substâncias que viajam pela atmosfera terrestre, como o oxigênio e o nitrogênio, aerossóis, vapor de água, partículas poluentes e nuvens10.

Ângulo Solar de Zênite: Outro fator que influencia a radiação UVB é o ângulo solar de zênite (ASZ). O ASZ é o ângulo entre o local vertical e a linha do observador ao sol. ASZ menores (que ocorrem quando o sol está no alto do céu) resultam em uma radiação UVB mais intensa. A hora do dia, a estação do ano e a latitude se combinam para estabelecer um ASZ específico para um local e hora. Em geral, a incidência de radiação UVB alcança níveis máximos ao meio dia, no verão11.

Uso de protetor solar: Outro aspecto que influencia na produção de vitamina D refere-se ao uso de protetor solar. Este hábito influencia a interação da 7-hidroxicolesterol e os raios UVB, tanto absorvendo quanto refletindo ou espalhando a incidência da radiação UV8. Um estudo americano constatou que os níveis séricos de 25(OH)D de 20 usuários de protetor solar de longo prazo eram menos da metade dos níveis séricos do grupo com a mesma idade e mesmo tempo de exposição solar, sem uso do protetor solar12.

Vestimenta: A vestimenta também pode atrapalhar a formação da vitamina D8. Tecidos leves e de fibras não sintéticas são menos efetivos em bloquear a radiação UV do que lã, seda, nylon e poliéster13.

Melanina: Outro fator cutâneo envolvido na síntese da vitamina D é a melanina. Melanina é um polímero opaco, produzido constitutivamente e em resposta à radiação UV, pelos melanócitos da pele8. Comparados com indivíduos de pele de pigmentação clara, aqueles com alta concentração de melanina (Afro-americanos) requerem exposição mais longa aos raios UV para gerar a mesma quantidade de vitamina D314. Foi descoberto que mulheres afro-americanas têm 20 vezes mais probabilidade de terem níveis séricos de 25(OH)D abaixo de 10ng/dL do que mulheres caucasianas15.
Após a síntese cutânea ou a ingestão oral, a biodisponibilidade da vitamina D depende da absorção intestinal, armazenamento no tecido adiposo e metabolismo8.

Má absorção: A Vitamina D é uma molécula não polar e, portanto, deve ser incorporada à solução micelar de sais biliares para ser devidamente absorvida. Qualquer processo resultante da má absorção intestinal de gorduras pode prejudicar a absorção de vitamina D8. Em pacientes com doença celíaca, obstrução biliar e pancreatite crônica, a absorção caiu para 50%, < 28% e < 18% da dose oral, respectivamente. Em todos os casos, a absorção prejudicada se correlacionou com o grau de esteatorreia1,16.

Obesidade: A obesidade está associada ao decréscimo da biodisponibilidade da vitamina D, sintetizada ou ingerida na dieta. Isto, provavelmente secundário ao sequestramento da vitamina D para um grande reservatório de tecido adiposo1. Um estudo demonstrou que um grupo de obesos que ingeriu uma dose de 50.000UI de vitamina D ou foi exposto à cama de bronzeamento artificial mostrou aumento da concentração sanguínea de vitamina D não superior a 50% do que o grupo de indivíduos não obesos, submetidos ao mesmo tratamento17.

Doenças: Doenças renais e hepáticas também interferem no status da vitamina D sérica. A enzima 25(OH)D-1a-hidroxilase é responsável pela produção da maioria da vitamina 1,25(OH)2D circulante. Em consequência, uma patologia renal pode afetar significativamente o status de vitamina D. O declínio da taxa de filtração glomerular leva a um correspondente decréscimo dos níveis de 1,25(OH)2D, a ponto de os níveis séricos de 1,25(OH)2D serem geralmente indetectáveis no estágio final da doença renal18. Da mesma forma, na doença do parênquima hepático, há tanto uma redução na absorção da vitamina D quanto uma redução na capacidade de hidroxilação, levando também à deficiência da 25(OH)D8. O aumento da exceção urinária da 1,25(OH)2D, relacionada à proteína ligante da vitamina D, na síndrome nefrótica, também leva ao decréscimo dos níveis séricos desta vitamina1.

Outros fatores: A idade e o uso de medicamentos (anticonvulsivantes, glicocorticoides, etc), entre outros demais fatores, também podem interferir na concentração sérica da vitamina D, pela redução de 7-dehidrocolesterol na pele e pela ligação ao receptor esteroide, respectivamente1.

Considerações finais
Enquanto a definição do status ótimo de vitamina D continua controverso, níveis da forma predominantemente circulantes desta vitamina (25(OH)D) abaixo do ideal (30ng/ml) continuam a ser um grave problema de saúde pública8. Evidências epidemiológicas sugerem que há uma epidemia mundial de deficiência de vitamina D19. Este quadro está associado a mortes por todas as causas na população dos Estados Unidos2. Sua manutenção tem se tornado um problema substancial devido: 1) a limitações na exposição solar; 2) às atuais recomendações de ingestão diária de vitamina D, subestimadas; 3) à relativa escassez de vitamina D da dieta e talvez 4) ao aumento da massa de gordura corporal na população mundial2.

Continuam ocorrendo debates sobre a estratégia ideal para melhorar os níveis séricos de vitamina D, já que o comprimento de onda responsável pela síntese desta vitamina é o mesmo que causa eritema (queimadura solar) e dano ao DNA. Tanto que tem sido justificada a proteção contínua da exposição solar e a manutenção dos níveis séricos através do aumento da ingestão oral da vitamina D8, quanto ao equilíbrio nas recomendações sobre exposição solar20. Doses diárias de 4.000 UI são defendidas para a manutenção dos níveis séricos de vitamina D acima de 30ng/dL. Vieth21, entre outros autores, alega que esta dosagem em adultos traz benefícios que incluem a melhora do bem-estar geral, menores índices de depressão e melhora da resposta insulínica. Ensaios clínicos com dosagens altas de vitamina D demonstram benefícios, sem relatar nenhum evento adverso significativo atribuído a ela. Contudo, é incontestável que a abordagem mais efetiva e menos dispendiosa, para se manter níveis séricos adequados de vitamina D, é a exposição solar8.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. HOLICK, M.F. Vitamin D deficiency. N Engl J Med; 357:266–81, 2007.
2. ADAMS, J.S.; HEWISON, M. Update in vitamin D. J Clin Endocrinol Metab; 95:471– 8, 2010.
3. LOOKER, A.C.; PFEIFFER, C.M.; LACHER, D.A. et al. Serum 25-hydroxyvitamin D status of the US population: 1988–1994 compared with 2000–2004. Am J Clin Nutr; 88:1519–1527, 2008.
4. GINDE, A.A.; LIU, M.C.; CAMARGO JR., C.A. Demographic differences and trends of vitamin D insufficiency in the US population, 1988–2004. Arch Intern Med; 169:626–632, 2009.
5. HOLICK, M.F. The vitamin D deficiency pandemic and consequences for non skeletal health: mechanisms of action. Mol Aspects Med; 29(6):361-8, 2008.
6. HOLICK, M.F. Sunlight and vitamin D for bone health and prevention of autoimmune diseases, cancers, and cardiovascular disease. Am J Clin Nutr; 80:1678S-88S, 2004.
7. TANGPRICHA, V.; TURNER, A.; SPINA, C. et al. Tanning is associated with optimal vitamin D status (serum 25-hydroxyvitamin D concentration) and higher bone mineral density. Am J Clin Nutr; 80(6):1645-9, 2004.
8. TSIARAS, W.G.; WEINSTOCK, M.A. Factors influencing vitamin D status. Acta Derm Venereol; 91(2):115-24, 2011.
9. MACLAUGHLIN, J.A.; ANDERSON, R.R.; HOLICK, M.F. Spectral character of sunlight modulates photosynthesis of previtamin D3 and its photoisomers in human skin. Science; 216: 1001–1003, 1982.
10. KIMLIN, M.G. Geographic location and vitamin D synthesis. Mol Aspects Med; 29: 453–461, 2008.
11. WEBB, A.R.; ENGELSEN, O. Ultraviolet exposure scenarios: risks of erythema from recommendations on cutaneous vitamin D synthesis. Adv Exp Med Biol; 624: 72–85, 2008.
12. MATSUOKA, L.Y.; WORTSMAN, J.; HANIFAN, N. et al. Chronic sunscreen use decreases circulating concentrations of 25-hydroxyvitamin D. A preliminary study. Arch Dermatol; 124: 1802–1804, 1988.
13. DAVIS, S.; CAPJACK, L.; KERR, N.; et al. Clothing as protection from ultraviolet radiation: which fabric is most effective? Int J Dermatol; 36: 374–379, 1997.
14. CLEMENS, T.L.; ADAMS, J.S.; HENDERSON. S.L. et al. Increased skin pigment reduces the capacity of skin to synthesise vitamin D3. Lancet; 1: 74–76, 1982.
15. NESBY-O’DELL, S.; SCANLON, K.S.; COGSWELL, M.E. et al. Hypovitaminosis D prevalence and determinants among African American and white women of reproductive age: third National Health and Nutrition Examination Survey, 1988–1994. Am J Clin Nutr; 76: 187–192, 2002.
16. LO, C.W.; PARIS, P.W.; CLEMENS, T.L.; et al. Vitamin D absorption in healthy subjects and in patients with intestinal malabsorption syndromes. Am J Clin Nutr; 42: 644–649, 1985.
17. WORTSMAN, J.; MATSUOKA, L.Y.; CHEN, T.C. et al. Decreased bioavailability of vitamin D in obesity. Am J Clin Nutr; 72: 690–693, 2000.
18. K/DOQI clinical practice guidelines for bone metabolism and disease in chronic kidney disease. Am J Kidney Dis; 42: S1–201, 2003.
19. BENER, A.; EHLAYEL, M.S.; TULIC, M.K. et al. Vitamin D Deficiency as a Strong Predictor of Asthma in Children. Int Arch Allergy Immunol; 6;157(2):168-175, 2011.
20. The Cancer Council Australia. Risks and benefits of sun exposure: position Statement, 2005. De: http://www.cancer.org.au//File/PolicyPublications/PSRisksBenefitsSunExposure03May07.pdf Acesso: Novembro 2011.
21. VIETH, R. Why the minimum desirable serum 25-hydroxyvitamin D level should be 75 nmol/L (30 ng/ml). Best Pract Res Clin Endocrinol Metab; 25(4):681-91, 2011.

*Texto elaborado pela nutricionista Márcia Paiva, aluna bolsista do curso de pós-graduação em Nutrição Clínica Funcional da VP Consultoria Nutricional/Divisão Ensino e Pesquisa.




FITOTERÁPICOS COM AÇÃO ANTIFÚNGICA

A utilização de plantas com fins medicinais para tratamento, cura e prevenção de doenças é uma das mais antigas formas de prática medicinal da humanidade. Atualmente, com o desenvolvimento da tecnologia, e com o aumento da resistência a medicamentos tradicionais, o valor terapêutico das ervas vem sendo pesquisado e seu uso diário dentro das preparações ou na forma de chás vêm sendo incentivado. Outro ponto positivo de fitoterápicos com ação antifúngica é que eles apresentam menor custo quando comparados a medicamentos tradicionais e menos efeitos colaterais, como alterações gastrointestinais e hepatotoxicidade.

O uso de fitoterápicos é amplamente aplicado baseando-se na sabedoria popular. Esta é uma área de pesquisa que ainda carece de trabalhos científicos que comprovem a eficácia e a dosagem das “plantas medicinais” conhecidas.

Nesse sentido, o objetivo principal desse artigo será a abordagem da atividade antifúngica de alguns fitoterápicos através de uma revisão de artigos científicos. O conceito antifúngico é amplo, engloba qualquer substância capaz de produzir uma alteração na estrutura da célula fúngica e que consiga inibir seu desenvolvimento, alterando sua capacidade de desenvolvimento. A atividade antifúngica observada em extratos vegetais é, muitas vezes, atribuída a compostos orgânicos. As espécies vegetais possuem, simultaneamente, substâncias inertes e princípios ativos, cuja concentração dá-se, preferencialmente, nas flores, raízes ou folhas, e, em menor proporção, nos frutos e nas cascas. A concentração destes princípios também não é uniforme durante seu ciclo de vida, sendo influenciada pelo solo, habitat, colheita e preparação.

Diversos fitoterápicos têm sido utilizados no tratamento de fungos, sendo identificados: Alecrim, Orégano, Cravo, Óleo de coco, Óleo de melaleuca, Echinacea, Pau d’ arco, Alho, Gengibre.

Alecrim – Rosmarinus officinalis – Planta nativa da região mediterrânea, cultivada principalmente em países de clima temperado. A parte da planta utilizada são as folhas. Dentre os principais componentes ativos estão: ácido fenólico como o ácido rosmarínico, óleos essenciais (canfeno, pineno, cineol, borneol, cânfora) e taninos. O óleo essencial de alecrim inibe o desenvolvimento micelial de fungos. O alecrim é usado na forma de chás (infusos) e tinturas (extrato hidroalcoólico) preparados com as folhas secas ou frescas. A atividade antifúngica do óleo essencial de Rosmarinus officinalis L. tem sido objeto de estudo de várias pesquisas1-5.

Orégano – Origanum Vulgare – Planta perene que tem origem da região do Mediterrâneo. Os principais constituintes ativos, 90% deles encontrados no óleo, são dois agentes fenólicos, o carvacrol e o timol, responsáveis pelos efeitos antifúngicos e antimicrobianos. As partes da planta utilizadas são as folhas e flores. O carvacrol possui a propriedade de inibir o crescimento da Cândida albicans e o timol estimula a resposta imune. Em pesquisas in vitro, a concentração de 0,25 mg/ml foi capaz de inibir completamente o desenvolvimento da C. albicans. Já em estudos in vivo, com ratos, foi observado que administração de carvacrol a 8.66 mg/kg de peso corporal foi suficiente para cura em 80% dos casos (resultado similar ao medicamento Amphotericin B)7. Estudos mostram a ação dos principais componentes do óleo essencial, como timol e carvacrol frente à Aspergillus, Fusarium, Penicillium, Trichosporum beigelli, Trichophyton rubrum e Trichophyton mentagrophytes. Pode ser utilizado no tempero de massas, no pão, vegetais, diretamente na salada, na sopa, deixar na mesa e colocar na comida6-10.

Cravo- Syzygium aromaticum - é uma planta pertencente à família das Myrtaceas da qual é usada o botão floral seco, o qual contém cerca de 15% de óleo essencial cujo principal componente é o eugenol, um alilbenzeno, composto fenólico volátil, que também está presente na canela, por exemplo. O potente efeito bactericida e fungicida atribuído ao óleo de cravo é derivado do composto eugenol. Estudos têm mostrado sua eficácia no tratamento da candidíase11-12.

Óleo de coco – rico em ácido cáprilico (cerca de 7% da gordura do coco) e ácido láurico (cerca de 50% da gordura do coco) que tem como metabólito a monolaurina, uma das substâncias com ação antifúngica, e que não afeta as bactérias da flora intestinal probiótica. Estudos mostram sua ação contra Candida albicans13, F. oxysporum, P. piricola e M. arachidicola14.

Óleo de melaleuca - Melaleuca alternifólia - extraído de uma árvore nativa da Austrália apresenta propriedades antifúngicas e antibacterianas, pois contém Terpinenol-4, responsável por essa ação. A composição química do mesmo consiste basicamente em monoterpenos cíclicos onde o principal responsável pela propriedade antimicrobiana é o Terpinenol-4 e em trabalho realizado mostrou ter potente efeito sobre Candida albicans. Infelizmente, não há ensaios clínicos usando-se o óleo como tratamento da candidíase e a verdadeira prevalência dos efeitos colaterais ainda é desconhecida15-22. A atividade antifúngica do óleo de Melaleuca está mais que comprovada nos trabalhos in vitro, o que sugere um possível efeito positivo quando administrados em humanos, no tratamento da candidiase, entretanto também requer mais estudos para esta aplicação15.

Echinacea - Echinacea purpurea - Planta nativa da região mediterrânea, cultivada principalmente em países de clima temperado. Partes utilizadas: Raiz e rizoma, que também contém os princípios ativos. O chá da erva Echinacea é utilizado para ajudar a prevenir a recorrência de infecções vaginais. De acordo com a instrução normativa n. 05 da ANVISA, esse fitoterápico exige prescrição médica.

Pau d’arco - Tecoma curialis - Conhecido como ipê, é uma árvore oriunda das regiões do cerrado. Têm propriedades antifúngicas devido ao seu princípio ativo chamado lapachol, presente tanto nas cascas do caule como na serragem da madeira. Tomá-lo como um chá (2 colheres de sopa cozido em 1 litro de água;. 3?–?6 xícaras por dia).

Alho - Allium sativum - é usado como fitoterápico há muito tempo, sendo mencionado em 1500AC em uma receita egípcia. Possui ação fungicida, sendo um ótimo aliado contra a Candida, porém deve ser consumido cru. Muitos estudos têm sido desenvolvidos buscando aplicações práticas do alho, baseadas em sua capacidade de inibição de crescimento e lise bacteriana, sendo seus maiores componentes inibitórios a alicina e os tiosulfonatos. Uma dica é colocar o alho (depois de fazer cortes com uma faca) em uma garrafa de cor escura e preencher com azeite de oliva extra virgem. A alicina, um líquido de coloração amarelada, forma-se quando o alho é mastigado ou cortado, rompendo-se as células do bulbo23-26.

Gengibre - Zingiber officinale - o gengibre pode ter efeito bactericida e fungicida. Possui vários constituintes ativos: o gingerol é o principal deles, obtido do rizoma, sendo recomendável usá-lo cru, pois há indícios de que o calor inativa o gingerol, responsável por esta ação. Quanto menor for o tempo de exposição a altas temperaturas mais preservada se encontrará a sua atividade terapêutica. Usado em doses orais de até 2 g/dia, o gengibre é bem tolerado27.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1) PANIZZI, L. et al. Composition and antimicrobial properties of essential oils of four Mediterranean Lamiaceae. Journal of Ethnopharmacology; 39(1): 167-70, 1993.
2) LARRONDO, J.V.; AGUT, M.; CALVO-TORRAS, M.A. Antimicrobial activity of essences from labiates. Microbios; 82(1): 171-172, 1995.
3) MANGENA, T.; MUYIMA, N.Y. Comparative evaluation of the antimicrobial activities of essences oils of Artemisia afra, Pteronia incana and Rosmarinus officinalis selected bacteria and yeast strains. Letters in Applied Microbiology; 28 (1): 291-296, 1999.
4) DAFERERA, D.J.; ZIOGAS, B.N.; POLISSIOU, M.G. Analysis of essential oils from some Greek aromatic plants and their fungitoxicity on Penicillium digitatum. Journal of Agricultural and Food Chemistry; 48 (1): 2576-2581, 2000.
5) FENNER, R. et al. Plantas utilizadas na medicina popular brasileira com potencial atividade antifúngica. Revista Brasileira de Ciências Farmacêuticas; 42(3): 369-94, 2006.
6) LAMPERT, R. J. W.; SKANDAMIS, P.N.; COOTE, P. J. A study of the minimum inhibitory concentration and mode of action of oregano essencial oil, thymol and carvacrol. J Appl Microb; 91:453-462-2001.
7) MANOHAR, V.; INGRAM, C.; GRAY, J. et al. Antifungal activities of origanum oil against Candida albicans. Molecular and Cellular Biochemistry; 228: 111–117, 2001.
8) ROSATO, A.; VITALI, C.; PIARULLI, M.. et al. In vitro synergic efficacy of the combination of Nystatin with the essential oils of Origanum vulgare and Pelargonium graveolens against some Candida species. Phytomedicine; 16; 972–975, 2009.
9) CHAMI, F.; CHAMI, N.; BENNIS, S. et al. Oregano and clove essential oils induce surface Alteration of Saccharomyces Cerevisiae. Phytother. Res.; 19: 405–408, 2005.
10) CHAMI, N.; CHAMI, F.; BENNIS, S. et al. Antifungal treatment with carvacrol and eugenoll of oral candidiasis in immunosuppressed rats. The Braz. J. Infec. Dis.; 8 (3): 217-226, 2004.
11) NÚÑEZ, L.; D’AQUINO, M.; CHIRIFE, J. Antifungal properties of clove oil (eugenia caryophylata) in sugar solution. Brazilian Journal of Microbiology; 32:123-126, 2001.
12) PINTO, E. ; VALE-SILVA, L.; CAVALEIRO, C. et al. Antifungal activity of the clove essential oil from Syzygium aromaticum on Candida, Aspergillus and dermatophyte species. Journal of Medical Microbiology; 58:1454–1462, 2009.
13) OGBOLU, D.O.; ONI, A.A; DAINI, O.A. et al. In vitro antimicrobial properties of coconut oil on Candida species in Ibadan, Nigeria. Journal Med Food; 2:384-7, 2007.
14) WANG, H.X; NG, T.B. An antifungal peptide from the coconut. Peptides; 26, 2392–2396, 2005.
15) CARSON, C.F.; RILEY, T. V. Antimicrobial activity of the major components of the essential oil of Melaleuca alterfolia. J Appl Bacteriol; 78: 264-9, 1995.
16) COX, S. D.; MANN, C. M.; MARKHAM, J. L. The mode of antimicrobial action of the essential oil of Melaleuca alterfolia (tea tree oil). J Appl Microbiol; 88: 170-5, 2000.
17) BLACKWELL, A. L. Tea tree oil and anaerobic (bacterial) vaginosis. Lancet; 337-300, 1991.
18) PISSERI, F.; BERTOLI, A. NARDONI, S. et al. Antifungal activity of tea tree oil from Melaleuca alternifolia against Trichophyton equinum: An in vivo assay. Phytomedicine; 16:1056–1058, 2009.
19) CATALÁN, A.; PACHECO, J.G.; MARTÍNEZ, A. In vitro and in vivo activity of melaleuca alternifolia mixed with tissue conditioner on Candida albicans. Oral Surg Oral Med Oral Pathol Oral Radiol Endod; 105:327-32, 2008.
20) CONCHA, J.M.; MOORE, L. S.; HOLLOWAY, W. J. et al. Antifungal activity of Melaleuca alterfolia (tea tree) oil against various pathogenic organisms. J Am Podiat Med Assoc; 88: 489-92, 1998.
21) COX, S.D.; MANN, C.M.; MARKHAM, J.L. et al. The mode of antimicrobial action of essential oil of Melalenca alternifolia (tea tree oil). J Appl Microbiol; 88: 170–175, 2000.
22) HAMMER, K.A.; CARSON, C.F.; RILEY, T.V. Antifungal effects of Melaleuca alternifolia (tea tree) oil and its components on Candida albicans, Candida glabrata and Saccharomyces cerevisiae. Journal of Antimicrobial Chemotherapy; 53: 1081–1085, 2004.
23) ANKRI, S.; MIRELMAN, D. Antimicrobial properties of allicin from garlic. Microbes and Infection; 1(2), 125-129,1999.
24) AGARWALL, K. C. Therapeutic actions of garlic constituints. Med Res Rev; 16: 111-24, 1996.
25) PAVLOVA, S. I.; TAO, L. In vitro inh of commercial douche products against vaginal microflora. Infect Dis Obstet Gynecol; 8:99-104, 2000.
26) ANKRI, S.; MIRELMAN, D. Antimicrobial properties of allicin from garlic. Microbes and Infection; 1(2), 125-129,1999.
27) CHRUBASIK, S.; PITTLER, M.H. e ROUFOGALIS, B.D. Zingiberis rhizoma: A comprehensive review on the ginger effect and efficacy profiles. Phytomedicine; 2, 684-701, 2005.
28) GIORDANI, R.; REGLI, P.; KALOUSTIA, J. et al. Antifungal Effect of Various Essential Oils against Candida albicans. Potentiation of Antifungal Action of Amphotericin B by Essential Oil from Thymus vulgaris. Phytother; 18, 990–995, 2004.

*Texto elaborado pela nutricionista Ivania Patrícia Cansi, aluna bolsista do curso de pós-graduação de Nutrição Esportiva Funcional do Centro Valéria Paschoal/Divisão de Ensino e Pesquisa.




SUSTENTABILIDADE


Definida pelo Our Commom Future, na WCED de 1987, como a capacidade de satisfazer as necessidades presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazerem as suas próprias, a sustentabilidade é também um desafio social que, entre outros fatores, envolve leis nacionais e internacionais, planejamento urbano e transporte, estilo de vida local e individual, consumo ético, planejamento responsável e gestão de recursos1,2. Já em ecologia, a palavra sustentabilidade descreve como sistemas biológicos conseguem se manter diversos e produtivos ao longo do tempo2.

Figura 1: Esquema do desenvolvimento sustentável: a confluência das três partes constituintes3.

Nesse contexto, surge a crescente preocupação com o consumo sustentável, que incorpora o impacto no clima e no meio ambiente, proveniente das escolhas diárias dos seres humanos. Alimentação, o consumo de energia elétrica domiciliar e meios de transporte respondem por grande parte dos maiores impactos sociais dos consumidores4. Dessas variáveis, a alimentação representa uma oportunidade única para o consumidor de reduzir seu nível de impacto pessoal devido à grande subjetividade da dieta humana4.

Ao redor do mundo, estima-se que 2 bilhões de pessoas se alimentam com dietas baseadas no consumo de carne, enquanto que 4 bilhões de pessoas optam pelo vegetarianismo5. Somente nos Estados Unidos, o sistema de produção de alimentos usa em torno de 50% da área total de terras disponíveis no país, 80% da água doce e 17% dos combustíveis fósseis consumidos lá5. Tal cenário se mantém no mundo todo, deixando claro que, seja a dieta humana baseada no consumo de carnes ou vegetais, o sistema de produção de alimentos está longe de poder ser considerado sustentável5.

O aquecimento antropogênico
Um das questões ambientais mais urgentes, dentro do tema sustentabilidade, é a mudança do clima global relacionada à crescente concentração atmosférica de gases causadores do efeito estufa6. Tal aquecimento antropogênico é causado principalmente pela emissão dos chamados greenhouse gas (GHG) e non-GHG, ou gases causadores do efeito estufa, como o dióxido de carbono, metano e óxido nitroso7.

A maior fonte de emissão de gás carbônico é derivada do uso de combustíveis fósseis. Já a decomposição de resíduos provenientes da pecuária e a atividade agrícola são as maiores fontes da emissão de metano. A indústria e a agricultura são as maiores responsáveis também pela emissão de óxido nitroso8. A introdução do sistema de agricultura e a domesticação de animais afetaram, marcadamente, o meio ambiente e os impactos negativos da produção e consumo de alimentos já podem ser sentidos em todo o mundo 9,10.

O impacto da criação de animais
Quando o dano ecológico causado pela criação de animais é examinado, certos aspectos devem ser considerados. Primeiramente, o requerimento de terras para a produção de carne é 10 vezes maior do que para a produção de vegetais. O estrume, produzido em grande escala pela pecuária e utilizado na agricultura como adubo, gera grandes níveis de nitratos potencialmente cancerígenos que contaminam plantações de hortaliças e água potável. A criação de animais requer uma quantidade considerável de energia, combustíveis fósseis e água doce e leva ao desmatamento – que, devido às queimadas, libera mais CO2 na atmosfera -, para a geração de grandes áreas destinadas a pasto10,11

Figura 2: O desmatamento para o cultivo de animais12.

Somente nos Estados Unidos, a população de gado consome sete vezes mais grãos do que é consumido diretamente por toda a população americana. O montante de alimentos destinados a atividade pecuarista americana seria suficiente para alimentar 840 milhões de pessoas que seguem uma dieta vegetariana. Cerca de 40% da produção mundial de grãos é destinada a alimentação destes animais 5,10. Além disso, há o despejo de minerais como boro, mercúrio, chumbo, cloro, entre outros, provenientes de fertilizantes, pesticidas e defensivos agrícolas usados no cultivo de grãos para sua alimentação. Tais elementos tóxicos infiltram no solo e atingem os lençóis freáticos, poluindo-os11,12.

Outro agravante é o despejo no meio ambiente de antibióticos, hormônios, analgésicos, bactericidas, fungicidas, vacinas e outros fármacos que via urina, fezes, sangue e vísceras inevitavelmente atingem os lençóis freáticos12.

Ocorre também a liberação de óxido nitroso – trezentas vezes mais prejudicial para a atmosfera do que o CO2 –, gás carbônico e metano, que são extremamente nocivos à camada de ozônio.10,12,13.

A agricultura nociva
O indiscriminado uso de fertilizantes, pesticidas, agrotóxicos e recursos não renováveis não só poluem importantes fontes de água doce, como também são responsáveis pela emissão na atmosfera de GHG e non-GHG. O tipo de cultivo, a falta de rotação de culturas e o desmatamento são grandes responsáveis pelo empobrecimento do solo10.

A solução para tal problema seria a agricultura orgânica que prima pelo controle natural de pragas, rotação de culturas, uso de leguminosas, como adubo, entre outras práticas. Adicional-mente, a comida deve ser minimamente processada, empacotada e transportada10.

A nutrição sustentável na vida diária
No dia a dia, a nutrição sustentável se baseia nas escolhas e prioridades individuais. Um dos pilares desta seria o consumo de hortaliças frescas e, preferencialmente, provindas de fazendas orgânicas locais, uma vez que práticas como tipo de transporte e distância percorrida, congelamento, uso de agrotóxicos, grau de processamento e tipo de preparação aumentam a emissão de gás carbônico na atmosfera5,7. Outro ponto importante é a diminuição da quantidade de proteína animal ingerida, já que o aumento do seu consumo contribui para o aumento dos danos relacionados com a atividade pecuária 5,7,12.

O tipo de transporte e distância percorrida, processamento, estocagem, comercialização e preparação dos alimentos, entre outros, influenciam diretamente na emissão de GHG e non-GHG5.

Conclusão
A ciência da nutrição fez grandes descobertas no último século. Entretanto, a população continua a crescer e o planeta Terra está à beira de grandes mudanças climáticas, com suas implicações para a produção de alimentos e escassez maciça de energia sustentável e água potável. Tal ciência foi boa em certos pontos, porém ignorou e negligenciou o bem-estar planetário e, portanto, os determinantes básicos da saúde e bem-estar humanos. Nós, agora, devemos garantir que a prática da nutrição suporte ecossistemas sustentáveis e meio-ambientes saudáveis13.

Assim, a visão do mundo sustentável depende de cada indivíduo que se sente responsável pelo meio-ambiente e pela saúde ambiental e humana, de forma geral10. Entretanto, a visão da nutrição sustentável é também uma questão de prioridade pessoal. Consumidores interessados e bem informados serão capazes de pesar os argumentos e fazer as escolhas necessárias para o bem do mundo em que vivem9.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1 – ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS.Comissão mundial sobre meio ambiente e desenvolvimento:Nosso futuro comum.1987.
2 – ONIONS, T.C. The Shorter Oxford English Dictionary. p. 2095.Oxford: Clarendon Press.1964.
3 – ADAMS, W.M. (2006). The Future of Sustainability: Re-thinking Environment and Development in the Twenty-first Century.Report of the IUCN Renowned Thinkers Meeting, . 2009.
4 – WEBER,C.L.;MATTHEWS, S.H. Food-Miles and the relative climate impacts of food choices in the United States.Environ. Sci. Technol, p.3508-3513.2008.
5 – PIMENTEL,D.;PIMENTEL.M;Sustainability of meat-based diet and plant-based diets and the environment.Am J Clin Nutr,78(suppl):660S-3S.2003.
6 – ESHEL,G; MARTIN,P.A.; Diet, energy and global warming. Earth Interactions. Volume 10, paper No.9, Page 1, 2006.
7- CARLSSON-KANYAMAK,A;GONZÁLEZ,D.A.;Potencial contributions food consumption patterns to climate change. Am J Clin Nutr,89(suppl):1704-9S.2009.
8 – KRAMER,KJ et al.; Greenhouse gas emissions related to Dutch food consumtion.Energy Police;p.203-216.1999.
9 – REIJINDERS,L;SORET,S; Quantification of the environmental impact of different dietary protein choices. Am J Clin Nutr,78(suppl):664S-8S.2003.
10–LEITZMANN,C. Nutrition ecology: the contribution of vegetarian diets. Am J Clin Nutr,78 (suppl):657S-9S.2003.
11 – PIMENTEL,D;RIMENTEL,M. Population growth, environmental resources and global foods. J Sutain Forestr;9:35-44. 1999.
12- SOCIEDADE VEGETARIANA BRASILEIRA; Impactos sobre o Meio Ambiente do Uso de Animais para Alimentação. 2007.
13 - WAHLQVIST, M.L.; The new nutrition science: sustainability and development. Public Health Nutrition, 8(6ª),766-772.2005.

*Texto elaborado pela bolsista do curso de pós-graduação em Nutrição Clínica Funcional do Centro Valéria Paschoal/Divisão Ensino e Pesquisa Vânia Mattoso Ribeiro.




ECOBAG SERÁ FEIRA A PARTIR DE GARRAFA PET


Além de apresentar um excelente e vasto conteúdo científico durante todo o congresso, que traz como tema central: Sustentabilidade e Meio Ambiente, o compromisso da Nutrição Funcional também enxerga que as atitudes podem ser também apresentadas de vários aspectos durante todo o Congresso em 2011.

Pensando nisso, a Ecobag do congressista este ano será feito a partir da fibra da garrafa Pet, com o intuito de apresentar novas maneiras de se transportar alimentos e materiais de forma correta e sustentável.


 

 

 

 

 





GENES E MEIO AMBIENTE: COMO OS FATORES AMBIENTAIS INFLUENCIAM A EXPRESSÃO DE PRÉ-ADIPÓCITOS EM ADIPÓCITOS

A obesidade é um dos maiores problemas de saúde pública do mundo atual. Trata-se de uma doença crônica caracterizada pelo excesso de gordura corporal, principalmente abdominal, e está diretamente relacionada ao desenvolvimento de resistência à insulina, diabetes do tipo 2, hiperlipidemia, hipertensão arterial, doença coronariana, acidente vascular cerebral, osteoartrite, apneia do sono, esteatose hepática e alguns tipos de câncer1-4. A doença é causada pela interação entre componentes ambientais e genéticos, uma vez que meio ambiente é o principal fator para a ativação ou silenciamento dos genes candidatos à obesidade5.

Os adipócitos são as únicas células especializadas e adaptadas a armazenar lipídeos sem comprometer sua integridade funcional6. Os pré-adipócitos são originários de células-tronco multipotentes e têm potencial para gerar novas células adiposas por toda a vida. Na adipogênese, eles se diferenciam em adipócitos imaturos sob o controle do PPAR? (receptor gama ativado por proliferadores de peroxissomas), que induz a expressão de C/EPBa (proteína alfa estimuladora da ligação a CCAAT) e, sinergicamente, eles induzem a transcrição de genes anteriormente silenciados e regulam a conversão de adipócitos imaturos em adipócitos maduros1,2,3,6,7. Os PPARs são fatores de transcrição pertencentes a uma família de receptores nucleares hormonais. O PPAR? é expresso abundantemente no tecido adiposo e regula os genes que modulam a diferenciação adipocitária4,8. Os receptores de PPAR funcionam como heterodímeros obrigatórios com o receptor RXR e servem como sensores metabólicos para hormônios lipolíticos, ácidos graxos dietéticos e compostos químicos que agem como disruptores endócrinos9.

A nutrigenômica estuda a importância dos nutrientes na expressão gênica e o tipo de gordura consumido através da dieta (gordura saturada, trans e ômega-3) pode influenciar a expressão de alguns genes envolvidos na adipogênese. Os ácidos eicosapentaenoico e docosahexaenoico (EPA e DHA, respectivamente), que constituem o ômega-3, diminuem a expressão de PPAR?, reduzindo a transcrição de genes relacionados ao metabolismo lipídico e adipogênese, diminuindo o processo inflamatório, aumentando a lipólise e a apoptose de adipócitos e reduzindo o conteúdo de mRNA hepático da SREBP-1 (proteína ligante do elemento de resposta ao esteróide do tipo 1), que também controla a expressão de genes lipogênicos1,4,10-19. A suplementação de 1,8g/dia de óleo de peixe contendo EPA e DHA durante 26 semanas diminuiu significativamente a expressão de genes inflamatórios e a transcrição de genes envolvidos na adipogênese, ao diminuir a expressão de PPAR13,20. O consumo materno de ácidos graxos ômega-3 durante a gestação e lactação pode afetar o desenvolvimento do tecido adiposo ao inibir a diferenciação adipocitária, diminuindo os riscos de obesidade infantil21.

Ao contrário do ômega-3, os ácidos graxos saturados e trans são pró-inflamatórios, aumentam a ativação do NF-?B, a quimiotaxia de monócitos, e a presença de macrófagos no tecido adiposo, propiciando a ativação de genes inflamatórios relacionados à obesidade. Esses ácidos graxos são ligantes de PPAR e ativam PPAR?, aumentando a diferenciação de pré-adipócitos em adipócitos e contribuindo para a transcrição de genes sensíveis ao ambiente obesogênico14,16-19,22,23. Industrialmente, os ácidos graxos trans podem ser produzidos através da hidrogenação parcial de óleos vegetais, que altera os lipídeos insaturados com ligações duplas na posição cis para a configuração trans. As principais fontes alimentares desses ácidos graxos incluem os produtos de panificação, alimentos fritos e congelados, pipocas de microondas, margarinas e biscoitos22.

A diferenciação adipocitária também pode ser influenciada por disruptores endócrinos (xenobióticos), que são ligantes lipolíticos facilmente estocados no tecido adiposo e capazes de alterar o funcionamento normal dos hormônios e outras moléculas sinalizadoras do organismo24,25,26. Os disruptores endócrinos, como bisfenol A, ftalatos, organotins (como o tributiltin), bifenil policlorados (PCBs) e tiazolidinedionas (fármaco anti-diabético), podem ser considerados obesogênicos à medida que ativam efetivamente PPAR?, tanto quanto um ligante endógeno e uma única exposição a estes compostos pode provocar alterações na diferenciação adipocitária e induzir a expressão de citocinas pró-inflamatórias nos adipócitos9,24,27-35. A exposição a estas substâncias durante períodos críticos do desenvolvimento, inclusive durante a gestação, tem grande impacto sobre o desenvolvimento de adipócitos. No feto este efeito não é facilmente reversível, podendo evoluir até a vida adulta e contribuindo para a obesidade24,27,35,36. Os xenobióticos utilizados em produtos sintéticos podem migrar para os alimentos e água, contaminando os indivíduos. Os organotins são utilizados em tintas anti-incrustantes para barcos e navios, catalisadores de madeiras, plastificantes, microbicidas em sistemas de água industriais e fungicidas em alimentos. As principais fontes ambientais destas substâncias incluem os frutos do mar, produtos agrícolas e água potável9,34. Os ftalatos são utilizados principalmente como plastificantes na fabricação de produtos flexíveis de vinil, embalagens de alimentos, cosméticos, detergentes e solventes. Eles podem sofrer lixiviação contaminando o meio ambiente e os alimentos e sua passagem para os alimentos aumenta sob altas temperaturas, longo período de armazenamento e na presença de alimentos ácidos28,29,37. O bisfenol A está presente em resinas, selantes e plásticos, inclusive de mamadeiras, podendo migrar para os alimentos e para a água; por isso, alguns países como o Canadá, proibiram o uso destes compostos em mamadeiras33,36,38.

Pode-se concluir que os genes obesogênicos podem sofrer influência do meio ambiente, uma vez que o consumo de gordura saturada e trans e de xenobióticos propicia a ativação do PPAR?, responsável pela diferenciação de pré-adipócitos em adipócitos. Já o consumo de ácidos graxos ômega-3, presente principalmente em peixes e frutos do mar, pode ser benéfico ao diminuir a expressão do PPAR?.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. DE QUEIROZ, J.C.F.; ALONSO-VALE, M.I.C.; CURI, R. et al. Controle da adipogênese por ácidos graxos. Arq Bras Endocrinol Metab; 53(5):582-94, 2009.
2. BUECHLER, C.; WANNINGER, J.; NEUMEIER, M. Adiponectin, a key adipokine in obesity related liver diseases. World J Gastroenterol; 17(23):2801-11, 2011.
3. HAJER, G.R.; VAN HAEFTEN, T.W.; VISSEREN , F.L. Adipose tissue dysfunction in obesity, diabetes, and vascular diseases. Eur Heart J; 29(24):2959-71, 2008.
4. WARNKE, I.; GORALCZYK, R.; FUHRER, E. et al. Dietary constituents reduce lipid accumulation in murine C3H10 T1/2 adipocytes: a novel fluorescent method to quantify fat droplets. Nutr Metab; 8:30, 2011.
5. BOUCHARD, C. Gene-environment interactions in the etiology of obesity: defining the fundamentals. Obesity; 16(3):S5-S10, 2008.
6. FONSECA-ALANIZ, M.H.; TAKADA, J.; ALONSO-VALE, M.I.C. et al. Adipose tissue as an endocrine organ: from theory to practice. J Pediatr; 83(5):S192-203, 2007.
7. ISWAKARMA, N.; JIA, Y.; BAI, L. et al. Coactivators in PPAR-regulated gene expression. PPAR Res; 2010.
8. PI, J.; LEUNG, L.; XUE, P. et al. Deficiency in the nuclear factor E2-related factor-2 transcription factor results in impaired adipogenesis and protects against diet-induced obesity. J Biol Chem; 285(12):9292-9300, 2010.
9. GRÜN, F.; BLUMBERG, B. Endocrine disrupters as obesogens. Mol Cell Endocrinol; 304(1-2):19-29, 2009.
10. WORTMAN, P.; MIYAZAKI, Y.; KALUPAHANA, N.S. et al. n3 and n6 polyunsaturated fatty acids differentially modulate prostaglandin E secretion but not markers of lipogenesis in adipocytes. Nutr Metab; 6:5, 2009.
11. DECKELBAUM, R.J.; WORGALL, T.S.; SEO, T. n-3 fatty acids and gene expression. Am J Clin Nutr; 83(6):1520S-5S, 2006.
12. VAKILI, S.; CAUDILL, M.A. Personalized nutrition: nutritional genomics as a potential tool for targeted medical nutrition therapy. Nutr Rev; 65(7):301-15, 2007.
13. BOUWENS, M.; VAN DE REST, O.; DELLSCHAFT, N. et al. Fish-oil supplementation induces antiinflammatory gene expression profiles in human blood mononuclear cells. Am J Clin Nutr; 90(2):415-24, 2009.
14. YEOP HAN, C.; KARGI, A.Y.; OMER, M. et al. Differential effect of saturated and unsaturated free fatty acids on the generation of monocyte adhesion and chemotactic factors by adipocytes: dissociation of adipocyte hypertrophy from inflammation. Diabetes; 59(2):386-96, 2010.
15. PARACCHINI, V.; PEDOTTI, P.; TAIOLI, E. Genetics of leptin and obesity: a HuGE review. Am J Epidemiol; 162(2):101-14, 2005.
16. KOZA, R.A.; NIKONOVA, L.; HOGAN, J. et al. Changes in gene expression foreshadow diet-induced obesity in genetically identical mice. PLoS Genet; 2(5):769-80, 2006.
17. ROBERTS, L.D.; VIRTUE, S.; VIDAL-PUIG, A. et al. Metabolic phenotyping of a model of adipocyte differentiation. Physiol Genomics; 39(2):109-19, 2009.
18. CLARKE, S.D.; THUILLIER, P.; BAILLIE, R.A. et al. Peroxisome proliferator-activated receptors: a family of lipid-activated transcription factors. Am J Clin Nutr; 70(4):566-71, 1999.
19. MEMISOGLU, A.; HU, F.B.; HANKINSON, S.E. et al. Interaction between a peroxisome proliferator-activated receptor ? gene polymorphism and dietary fat intake in relation to body mass. Hum Mol Genet; 12(22):2923-9, 2003.
20. JUNG, U.J.; TORREJON, C. TIGHE, A.P. et al. n-3 Fatty acids and cardiovascular disease: mechanisms underlying beneficial effects. Am J Clin Nutr; 87(6):2003S-9S, 2008.
21. FAN, C.; LIU, X.; SHEN, W. et al. The regulation of leptin, leptin receptor and pro-opiomelanocortin expression by n-3 PUFAs in diet-induced obese mice is not related to the methylation of their promoters. Nutr Metab; 8(1):31, 2011.
22. MICHA, R.; MOZAFFARIAN, D. Trans fatty acids: effects on cardiometabolic health and implications for policy. Prostaglandins Leukot Essent Fatty Acids; 79(3-5):147-52, 2008.
23. ROBINSON, L.E.; BUCHHOLZ, A.C.; MAZURAK, V.C. Inflammation, obesity, and fatty acid metabolism: influence of n-3 polyunsaturated fatty acids on factors contributing to metabolic syndrome. Appl Physiol Nutr Metab; 32(6):1008-24, 2007.
24. HATCH, E.E.; NELSON, J.W.; STAHLHUT, R.W. et al. Association of endocrine disruptors and obesity: perspectives from epidemiologic studies. Int J Androl; 33(2):324-32, 2010.
25. WARING, R.H.; HARRIS, R.M. Endocrine disrupters: a human risk? Mol Cell Endocrinol; 244(1-2):2-9, 2005.
26. RUZZIN, J.; PETERSEN, R.; MEUGNIER, E. et al. Persistent organic pollutant exposure leads to insulin resistance syndrome. Environ Health Perspect; 118(4):465-71, 2010.
27. NEWBOLD, R.R.; PADILLA-BANKS, E.; SNYDER, R.J. et al. Developmental exposure to endocrine disruptors and the obesity epidemic. Reprod Toxicol; 23(3):290-6, 2007.
28. BILITY, M.T.; THOMPSON, J.T.; MCKEE, R.H. et al. Activation of mouse and human peroxisome proliferator-activated receptors (PPARs) by phthalate monoesters. Toxicol Sci; 82(1):170-82, 2004.
29. HURST, C.H.; WAXMAN, D.J. Activation of PPARalpha and PPARgamma by environmental phthalate monoesters. Toxicol Sci; 74(2):297-308, 2003.
30. ARSENESCU, V.; ARSENESCU, R.I.; KING, V. et al. Polychlorinated biphenyl-77 induces adipocyte differentiation and proinflammatory adipokines and promotes obesity and atherosclerosis. Environ Health Perspect; 116(6):761-8, 2008.
31. PERAZA, M.A.; BURDICK, A.D.; MARIN, H.E. et al. The toxicology of ligands for peroxisome proliferator-activated receptors (PPAR). Toxicol Sci; 90(2):269-95, 2006.
32. DIAMANTI-KANDARAKIS, E.; BOURGUIGNON, J.P.; GIUDICE, L.C. et al. Endocrine-disrupting chemicals: an endocrine society scientific statement. Endocr Rev; 30(4):293-342, 2009.
33. ELOBEID, M.A.; ALLISON, D.B. Putative environmental-endocrine disruptors and obesity: a review. Curr Opin Endocrinol Diabetes Obes; 15(5):403-8, 2008.
34. YANIK, S.C.; BAKER, A.H.; MANN, K.K. et al. Organotins are potent activators of PPAR? and adipocyte differentiation in bone marrow multipotent mesenchymal stromal cells. Toxicol Sci; 2011.
35. KIRCHNER, S.; KIEU, T.; CHOW, C. et al. Prenatal exposure to the environmental obesogen tributyltin predisposes multipotent stem cells to become adipocytes. Mol Endocrinol; 24(3):526-39, 2010.
36. SOMM, E.; SCHWITZGEBEL, V.M.; TOULOTTE, A. et al. Perinatal exposure to bisphenol A alters early adipogenesis in the rat. Environ Health Perspect; 117(10):1549-55, 2009.
37. SAX, L. Polyethylene terephthalate may yield endocrine disruptors. Environ Health Perspect; 118(4):445-8, 2010.
38. MASUNO, H.; IWANAMI, J.; KIDANI, T. et al. Bisphenol A accelerates terminal differentiation of 3T3-L1 cells into adipocytes through the phosphatidylinositol 3-kinase pathway. Toxicol Sci; 84(2):319-27, 2005.

*Texto elaborado pela bolsista do curso de pós-graduação em Nutrição Clínica Funcional do Centro Valéria Paschoal/Divisão Ensino e Pesquisa Caroline Schilling Soares.




ENTREVISTA: DRA. VANIA ASSALY

1 - Quais são as principais mudanças comportamentais decorrentes do envelhecimento do sistema neuroendócrino?

Da interação entre o nosso genoma e os fatores ambientais a que somos submetidos desde a nossa fase embrionária extraímos um resultado biológico lido na expressão fenotípica. Nossa aparência física resulta deste movimento contínuo de interferências que se estabelecem ao longo do processo de envelhecimento, trazendo a cada indivíduo uma maior ou menor velocidade no processo de envelhecer. O homem reage à vida em perfis dinâmicos e complexos e adaptativos, demonstrando sua carga vital a partir dos arquivos que qualificamos recursos neurobiológicos para vivenciar adversidades. Guardamos em nossa memória ancestral modelos comportamentais arquivados no código genômico. Estes arquivos biológicos nos relatam as experiências que contribuíram para a sobrevivência da espécie. Ao longo da vida repetimos padrões operacionais que são reafirmados e validados pela cultura familiar e pela sociedade.

No ápice da juventude hormonal podemos ler a biologia em sua qualidade pulsátil e vibracional, a carga vital e a libido ultrapassam a consciência. Não vemos riscos, andamos em alta velocidade na contra mão da vida. Com nossos hormônios em tempestade esquecemos e vivemos a coragem no corpo e na mente. Lutamos por ideias e ideais e tentamos anular alguns modelos aprendidos. Fumamos, bebemos, usamos drogas e fazemos sexo sem perceber o risco. Como premissa da biologia, o homem busca crescimento e procriação, ampliando território e traduzindo em romances os bons momentos para a possível fertilidade. Esta é a cara da juventude cumprindo sua função ,assim como a força da natureza ,não há como não admirar sua luz e negar sua força intrínseca de construção, muitas vezes extrapolando e destruindo por impulsividade e anarquia a si próprio.

2 - Quais são as consequências do envelhecimento do sistema neuroendócrino?

A alta excitabilidade hormonal autoriza explosão dos neurocircuitos cerebrais, colocando a força e a emoção sobre a lógica e a consciência. Com a maturidade, a qualidade analítica e cognitiva dos modelos psico sociais se manifestam na biologia extraindo da individualidade bioquímica o nosso potencial de adaptação. Somos moldados pela sociedade a que pertencemos e o preço desta carga adaptativa se dá no circuito psico neuro imuno endócrino. O eixo hipotálamo hipófise adrenal nos coloca em pé dando força para a ação diante de ameaças físicas e psíquicas. As glândulas supra renais favorecem a liberação da glicose do estoque hepático ,nos dá carga pressórica e nos dá força de combate através da secreção dos esteróides adrenais. Estes hormônios qualificam a forma e potencializam a agressividade, trazendo competência e movimento de cognição e adaptação. Hoje já conhecidos como neuroesteróides, sabemos que exercem ação importante na equação, Medo X Força / Ansiedade X Depressão / Impulsividade X Consciência / modulando aspectos dinâmicos do comportamento ,do psiquismo e das funções metabólicas .

3 - Quais são os mecanismos de defesa que ajudam a prevenir os “ataques” ao sistema neuroendócrino?

Sabemos que as reações bioquímicas são essenciais para o funcionamento celular e equilíbrio orgânico. Entender os mecanismos responsáveis pelo envelhecimento é essencial para a compreensão dos aspectos relacionados à saúde e doença. Na prevenção do processo de envelhecimento precisamos compreender as reações bioquímicas que exercem funções vitais a sobrevivência do sistema e assim aprender a restaurar o anabolismo da juventude sobre o catabolismo da senescência. Preservar o sistema neuroendócrino é possibilitar uma melhor capacidade de reparo e estabelecer um menor custo energético para a sobrevivência diante do stress. A mente interpreta e o corpo reflete nossa carga vital. A fragilidade do idoso é percebida em sua perda de imunidade e no adoecimento frequente. A obesidade, a hipertensão e a hiperglicemia do diabético é uma forma de deixar explícito o corpo em desadaptação, criando peso para permanecer, aumentando pressão para se manter em pé, e bombeando glicose para o cérebro não apagar. Assim representamos na disfunção contínua o horizonte clínico do adoecimento e a disfunção alostática é lida nos exames laboratoriais: Colesterol alto, triglicérides, sódio, hiperglicemia, hipertrofia ventricular, esteatose e gradativamente o peso da doença paralisando o corpo e derrotando a mente. O medo da vida e a presença da morte nos colocam refém da ansiedade ou enjaulados na depressão. Se podemos mudar isso? Claro que sim, revendo o que já sabemos sobre as teorias neuroendócrinas do envelhecimento.





ENTREVISTA: DRA. VALÉRIA PASCHOAL

1 - O Tema Central do Congresso 2011 será: “SUSTENTABILIDADE E MEIO AMBIENTE: O COMPROMISSO DA NUTRIÇÃO FUNCIONAL” Qual a razão para a escolha do tema, e qual é o compromisso da Nutrição Funcional com o meio ambiente e a sustentabilidade?

A sustentabilidade e o meio ambiente são pautas de discussões de diversas entidades e profissionais. Escolhemos esse tema porque acreditamos que o principal compromisso da Nutrição Funcional é conscientizar os profissionais da saúde sobre a importância do equilíbrio da nossa saúde em sinergia com a saúde ambiental. Fatores como desnutrição e aumento da incidência de doenças metabólicas estão cada vez mais associados à resposta do ambiente frente a devastação que o homem causou e tem causado ao nosso planeta.

Esse ambiente funciona como antecedente para gatilhos ambientais e endógenos que favorecem a expressão de genes que estimulam mediadores bioquímicos, levando ao desequilíbrio do nosso funcionamento celular, promovendo o aumento no índice de defeitos congênitos, problemas de reprodução como infertilidade, endometriose, câncer, asma e outras doenças respiratórias, alergias, doenças auto-imunes, doenças neurológicas e doenças metabólicas como obesidade e diabetes.

Porém, nosso compromisso com o planeta não é somente profissional, mas como cidadão de um mundo que precisa de atenção, que está em alerta pelo excesso de produção de lixo e gases poluentes, pela falta de água limpa, pelo uso indiscriminado de medicamentos e agrotóxicos em alimentos de origem animal e vegetal. Além disso, tentando melhorar nossa saúde por conta da redução da saúde do planeta, que tem impacto direto no nosso organismo, procuramos técnicas de rejuvenescimento, super alimentos e super suplementos, mas esquecemos que toda essa tecnologia pode também exercer um impacto devastador no meio ambiente, pois são estratégias não sustentáveis!!! Nos preocupamos com a Ecologia externa, porém ainda não nos conscientizamos que colocamos muitos lixos na nossa ecologia interna e não percebemos que ambos são sinérgicos.

Temos que encontrar estratégias sim que minimizem o impacto do meio ambiente tóxico na nossa saúde, mas mais importante ainda é que essas estratégias sejam sustentáveis, que contribuam para a saúde das gerações futuras.

Ficar esperando por medidas governamentais e pela atitude do outro não é suficiente - temos que assumir nosso papel perante o Planeta e saber que pequenas ações diárias farão a grande diferença.

2 – Dra. Valéria, você abrirá o VI Congresso de Nutrição Esportiva Funcional com a palestra “Genes e meio ambiente: o papel da Nutrição Funcional no aumento da performance física”. Considerando a individualidade bioquímica, de que forma a Nutrição Funcional pode contribuir para o aumento dessa performance?

Os compostos biativos e os nutrientes dos alimentos podem interferir na expressão dos nossos genes e alterar nosso fenótipo, interferindo, inclusive no desempenho esportivo promovendo aumento da massa e potência muscular, alterando a capacidade oxidativa do músculo e atuando na regulação metabólica e oxidação do tecido adiposo. Esses nutrientes, inclusive, podem aumentar a atividade antioxidante de algumas enzimas e a secreção de citocinas anti-inflamatórias, modulando a inflamação local, o dano e proteólise muscular e também a apoptose. Esses fatores em conjunto auxiliam o atleta ou praticante de atividade física a ter um melhor desempenho em sua atividade e com isso adquirir melhor performance esportiva.

3 – No segundo dia de Congresso você falará sobre “Ionomics”. O que é e como pode interferir na qualidade de vida do ser humano?

O conceito “Ionomics” faz parte do conjunto de ciências da Era Ômica, relacionadas ao genoma, que envolvem a Nutrigenomica, Proteomica, Transcriptomica e Metabolomica, e consiste basicamente em uma nova abordagem para o estudo do metabolismo mineral. Em seu sentido mais puro, trata-se de uma ferramenta descoberta para identificar os genes cuja proteína derivada pode regular o metabolismo mineral de mamíferos. Frente a este conceito, vê-se a importância de estudar as relações existentes entre genes e minerais e a maneira com que ambos interagem. Esse estudo pode trazer para a prática clínica uma visão mais ampla do paciente, possibilitando assim que a individualidade bioquímica seja cada vez mais respeitada mediante a aplicação de uma conduta nutricional.

4 – No último dia você explicará como preparar e armazenar os alimentos para preservar os nutrientes e compostos bioativos e minimizar os contaminantes e agrotóxicos. Qual será sua abordagem?

Tenho convicção que a técnica dietética e culinária é a maior ferramenta da nutrição para garantir a preservação dos nutrientes e compostos biativos responsáveis pela modulação da nossa expressão gênica. As técnicas adequadas de congelamento e descongelamento que envolvem o processo de branqueamento e os tipos de embalagens utilizados para este armazenamento, o tempo, temperatura, utensílios e eletrodomésticos utilizados durante a cocção são fundamentais para potencializar a presença e a ação dos constituintes nutricionais dos alimentos e, inclusive, amenizar a presença de fatores anti-nutricionais e xenobióticos presentes nos mesmos. Esta palestra trará os mais recentes trabalhos científicos que irão influenciar nossa conduta no preparo dos alimentos, demonstrando a importância da gastronomia funcional se tornar uma EcoGastronomia com aplicação na nutrigenomica.



ESTRESSE OXIDATIVO E INFLAMAÇÃO NO ESPORTE

*Texto elaborado pela Dra. Renata Lemos Fetter, aluna bolsista do curso de Pós-graduação em Nutrição Clínica Funcional pela VP Consultoria Nutricional/ Divisão Ensino e Pesquisa.

O exercício físico regular possui, sem dúvida, diversos efeitos benéficos à saúde1. Porém, dependendo da intensidade, carga do treinamento e nível de exaustão do indivíduo, promove um aumento na síntese de radicais livres, levando ao estresse oxidativo, que pode ocasionar lesão muscular, fadiga e inflamação2-5. A resposta inflamatória ao exercício é um processo fisiológico normal e adaptativo, porém, se for excessiva, implica em prejuízo no desempenho, cansaço e overtraining.5,6. Como proteção aos danos causados pelo estresse oxidativo induzido pelo exercício, o nosso organismo possui um sistema de defesa antioxidante, que atua de forma a promover a homeostase entre pró e antioxidante3,7.

ESTRESSE OXIDATIVO INDUZIDO PELO EXERCÍCIO E RESPOSTA INFLAMATÓRIA

O elevado consumo de oxigênio no exercício físico está relacionado com o aumento do estresse oxidativo devido ao aumento da formação de espécies reativas de oxigênio (EROs)1,2,8,14, que podem ocasionar injúrias na membrana lipídica celular, proteínas e DNA, fadiga e estresse muscular, diminuição da performance e overtraining3,4,9,10,13-15.

Os exercícios podem provocar estresse oxidativo por mecanismos como: isquemia-reperfusão, ativação da via da xantina oxidase pela interrupção temporária das bombas de ATP dependentes de cálcio, aumento da atividade da enzima óxido nítrico sintase3,10,14, oxidação dos componentes da hemoglobina e mioglobina, catecolaminas, elevação da temperatura corporal e o ácido lático3,4,10.

Outro mecanismo, mais discutido neste trabalho, é a resposta inflamatória no exercício, que inclui sinais de resposta de fase aguda, ativação de leucócitos, liberação de mediadores inflamatórios, dano tecidual e infiltrado celular, produção de radicais livres, ativação do sistema complemento e cascatas de coagulação e fibrinolíticas11,12.

Quando o tecido é lesionado, os miócitos e outras células liberam citocinas como TNF-a, IL-1ß e IL-611,16,17. Desta forma, os neutrófilos são mobilizados para reparar o dano muscular induzido pelo exercício e fagocitam a fibra muscular lesada por meio da ativação do sistema enzimático nicotinamida adenina dinucleotídio fosfato-oxidase (NADPH) e liberação de enzimas proteolíticas a partir dos seus grânulos intracelulares que, também contribuem para um burst respiratório e subsequente liberação de EROs5,16. A síntese das citocinas pró-inflamatórias, como TNF-a e IL-1ß, estimula a síntese de IL-6 que, por sua vez, estimula a produção hepática de proteínas de fase aguda, como a proteína C reativa (PCR) e inibidores de proteases. A IL-6 modula a extensão da resposta inflamatória por aumentar a síntese de citocinas anti-inflamatórias5,12,18,19.

A gradativa elevação na produção de EROs promovida pela realização de exercícios físicos é capaz de disparar adaptações em resposta a uma maior produção destes radicais livres20. Porém, indivíduos que se submetem a treinos muito intensos ou exaustivos estão expostos a estresse oxidativo crônico, graves lesões musculares, consequente processo inflamatório crônico, implicando em prejuízo no desempenho e, possivelmente, overtraining5,6,21.

Barquilha et al.22 demonstraram que o treinamento de força não linear (que possui alterações constantes de volume e intensidade durante um período de treinamento) aumentou a força muscular e induziu lesão em atletas de Hockey in line, sem causar inflamação sistêmica, o que pode ter significado fisiológico na via de sinalização do músculo esquelético, promovendo a adaptação.

Os programas atuais de treinamento alternam períodos de treino intenso seguido de período pré-competição, caracterizado por redução na carga de treinamento com o objetivo de modular o estresse oxidativo e otimizar a performance23,24.

DEFESA ANTIOXIDANTE E SUPLEMENTAÇÃO

O sistema antioxidante atua como proteção aos danos causados pelo estresse oxidativo, promovendo o equilíbrio entre pró e antioxidante7. Abrange o sistema enzimático, que inclui enzimas como superóxido dismutase, catalase e glutationa peroxidase; o sistema não enzimático, que inclui compostos endógenos como a glutationa, transferrina, ferritina, hemoglobina, ácido úrico, bilirrubina, ceruloplasmina e os provenientes da dieta, como ácido ascórbico, a-tocoferol, ß-caroteno e compostos fenólicos3,4,9,10.

O treinamento físico é conhecido por induzir uma resposta adaptativa bioquímica que pode exigir um aumento na ingestão e/ou na absorção de micronutrientes. Como o estresse oxidativo não pode ser evitado, o desequilíbrio entre oxidantes e antioxidantes pode ser atenuado a fim de minimizar os danos oxidativos24.

A suplementação com vitamina E, creatina e glutamina podem atenuar o estresse oxidativo ou reduzir a quantidade de lesões celulares decorrentes de exercícios físicos exaustivos. A vitamina C pode ter pouco ou nenhum efeito de suplementação; todavia, a redução de seus estoques corporais pode contribuir para o aumento do estresse oxidativo21.

Mastaloudis et al.25 demonstraram, em um estudo com atletas de exercício de ultramaratona de 50Km, que a resposta inflamatória induzida pelo exercício não foi influenciada pela suplementação de antioxidantes. Esta resposta inflamatória é importante, pois estimula a recuperação do exercício por induzir a regeneração do tecido danificado e o recrutamento da proliferação de células satélite, não inibindo a adaptação muscular da atividade física26.

Embora os suplementos de nutrientes antioxidantes sejam amplamente utilizados pelos atletas, observa-se que os estudos ainda são controversos com relação à suplementação, objetivando a redução do estresse oxidativo2,27,28,29. Há evidências que nutrientes por si só podem evitar os danos oxidativos, como também causar efeitos adversos ou limitar o efeito endógeno de adaptação do treinamento. Altas doses de suplementos podem provocar efeitos pró-oxidantes se não adequadas às necessidades individuais27.

A suplementação de nutrientes pode ter benefícios em um período de deficiência do atleta, porém não substitui uma nutrição equilibrada advinda da dieta30. Desta forma, a modulação com antioxidantes deve ser realizada de acordo com a intensidade do treinamento e necessidades individuais, visto que a suplementação com antioxidantes pode provocar diminuição da performance e força muscular devido à interferência na adaptação das células musculares ao estresse31.

O USO DE POLIFENÓIS COMO PROTEÇÃO AO ESTRESSE OXIDATIVO

Substâncias como polifenóis, que representam um dos maiores grupos de fitoquímicos, também têm sido estudadas em atletas e podem atuar como proteção ou atenuar os danos oxidativos promovidos pelo exercício27,32-35,41. A tabela 1 apresenta os principais estudos que avaliaram os efeitos dos polifenóis.

A utilização da quercetina tem sido estudada baseada em resultados de experimentos com ratos, que demonstraram uma melhora na capacidade oxidativa muscular e endurance37. Alguns estudos com indivíduos treinados38 e não treinados39 não resultaram em aumento da performance, nem diminuição do estresse oxidativo. MacRae et al.40 observaram melhora do desempenho utilizando um coquetel contendo quercetina, taurina, niacina, cafeína, vitamina C e outras vitaminas; porém, não ficou claro se houve diferença significativa na performance na comparação entre grupos com e sem quercetina. Portanto, ainda há controvérsias nesta questão, havendo a necessidade de estudos complementares, pois é possível que as adaptações mitocondriais ocorram com a suplementação de quercetina em humanos, mas com uma dose diferente de quercetina e/ou duração do tratamento, comparados ao protocolo estudado em ratos.

Panza et al.41 investigaram os efeitos do consumo do chá verde em marcadores de estresse oxidativo e dano tecidual em um grupo de homens jovens submetidos a um protocolo de exercício resistido. O chá verde diminuiu os valores pós-esforço de hidroperóxidos lipídicos e aumentou a concentração de glutationa reduzida e a capacidade antioxidante do plasma, sendo que os valores de TBARS permaneceram inalterados; ainda, inibiu a elevação das enzimas CK e AST promovida pelo exercício. Além disso, a ingestão de chá verde diminuiu a concentração de hipoxantina e de ácido úrico, antes e após o exercício, e inibiu a elevação da atividade da xantina oxidase induzida pelo exercício. Os resultados do estudo sugerem que o consumo regular de chá verde melhora os mecanismos de defesa antioxidante em praticantes de exercício resistido, conforme avaliado pelos marcadores plasmáticos.

Os mecanismos de mediação dos benefícios biológicos da suplementação com polifenóis de frutas ainda não são claros, mas podem estar relacionados à atenuação do estresse oxidativo e da inflamação36.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Exercícios físicos estão associados ao aumento do estresse oxidativo que leva à inflamação, com objetivo de reparar o tecido lesado. Na maioria dos casos, essas respostas inflamatórias locais resultam em processo de recuperação da lesão, o que tem sido considerado um processo de adaptação ao exercício. Porém, exercícios muito intensos e extenuantes estão associados ao aumento do estresse oxidativo, levando a uma resposta inflamatória exacerbada que poderá ocasionar consequências fisiopatológicas para os indivíduos, aumento de lesão tecidual, fadiga, diminuição da performance e, possivelmente, overtraining.

Do ponto de vista nutricional, deve-se ressaltar a importância da avaliação individualizada do atleta com relação às suas necessidades nutricionais e ao nível de atividade física, promovendo uma alimentação equilibrada e variada em nutrientes antioxidantes com objetivo de prevenir ou minimizar os danos causados pelo estresse oxidativo, induzido pelo exercício físico.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. VIÑA, J. et al. Free radicals in exhaustive physical exercise: mechanism of production, and protection by antioxidants. IUBMB Life; 50(4-5):271-277, 2000.
2. WILLIAMS, S.L. et al. Antioxidant requirements of endurance athletes: implications for health. Nutr Reviews; 64(3): 93-108, 2006.
3. POWERS, S.K. et al. Dietary antioxidants and exercice. J Sports Sci; 22:81-94; 2004.
4. FINAUD, J; LAC G. FILAIRE, E. Oxidative stress: relationship with exercice and training. Sports Med; 36(4):327-358, 2006.
5. CRUZAT, V.F. et al. Current aspects about oxidative stress, physical exercise and supplementation. Rev Bras Med Esporte; 13(5): 336-342, 2007.
6. PALAZZETTI, S. et al. Overloaded training increases exercise-induced oxidative stress and damage. Can J Appl Physiol; 28:588-604; 2003.
7. SIES, H. Biochemistry of oxidative stress. Angew Chem Int Ed Ingl ; 25:1058-1071, 1986.
8. BLOMMER, R.J et al. Effects of acute aerobic and anaerobic exercise on blood markers of oxidative stress. J Strength Cond Res; 19(2):276-285, 2005.
9. BARREIROS, A.L.B.S; DAVID, J.M; DAVID, J.P. Estresse Oxidativo: relação entre geração de espécies reativas e defesa do organismo. Quim Nova; 29(1):113-123, 2006.
10. SCHNEIDER, C.D; OLIVEIRA, A.R. Radicais livres de oxigênio e exercício: mecanismos de formação e adaptação ao treinamento físico. Rev Bras Med Esporte; 10(4):308-313, 2004.
11. CAMUS, G et al. Inflammatory response to strenuous muscular exercice in man. Mediator of Inflammation; 2:335-342, 1993.
12. TODO-BOM, A.; PINTO, A.M. Exercício físico: resposta imunoinflamatória. Rev Port Imunoalergologia; 15(2):123-133; 2007.
13. HALLIWELL, B.; CHIRICO, S. Lipid peroxidation: its mechanism, measurement, and significance. Am J Clin Nutr; 57:715S–725S, 1993.
14. PACKER, L. Oxidants, antioxidant nutrients and the athlete. J Sports Sci; 15(3):353-63, 1997.
15. SOUZA JR, T.P; OLIVEIRA, P.R.; PEREIRA, B. Exercício físico e estresse oxidativo: efeitos do exercício físico sobre a quimioluminescência urinária e malondialdeído plasmático. Rev Bras Med Esporte; 11(1):91-96; 2005.
16. BUTTERFIELD, T.A; BEST, T.M; MERRICK, M.A. The dual roles of neutrophils and macrophages on inflammation: a critical balance between tissue damage and repair. J Athletic Training; 41(4):457-465, 2006.
17. STUPKA, N. et al. Gender differences in muscle inflammation after eccentric exercice. J Appl Physiol; 89:2325-2332, 2000.
18. PRESTES, J. et al. Papel da Interleucina-6 como um sinalizador em diferentes tecidos durante o exercício físico. Fit Perf J; 5(6):348-353; 2006.
19. PRESTES, J. et al. Influência do exercício físico agudo realizado até a exaustão sobre o número de leucócitos, linfócitos e citocinas circulantes. Fit Perf J; 16(1):32-37; 2007.
20. SCHNEIDER, C.D.; OLIVEIRA, A.R. Radicais livres de oxigênio e exercício: mecanismos de formação e adaptação ao treinamento físico. Rev Bras Med Esporte; 10(4): 308-313; 2004.
21. ROGERO, M.M; MENDES, R.R; TIRAPEGUI, J. Síndrome de Overtraining. Arq Bras Endocrinol Metab.; 49:359-68; 2005.
22. BARQUILHA, G. et al. Treinamento crônico de força em atletas profissionais de hockey in line: estudo de lesão, inflamação e força. Rev Educação Física; 147:77-77; 2009.
23. BOSQUET, L. et al. Effects of tapering on performance: a meta-analysis. Med Sci Sports Exerc; 39(8):1358-65; 2007.
24. DEMINICE, R. et al. Evolução de biomarcadores de estresse oxidativo e relação com a performance competitiva em dois momentos da temporada de treinamento de natação. Rev Bras Med Esporte; 15(4):277-281; 2009.
25. MASTALOUDIS, A. et al. Antioxidant supplementation prevents exercise-induced lipid peroxidation, but not inflammation, in ultramarathon runners. Free Radic Biol Med;36(10):1329-41; 2004.
26. SCHEIDER, C.D. et al. Efeito do exercício de ultrarresistência sobre parâmetros de estresse oxidativo. Rev Bras Med Esporte; 15 (2):89-92; 2009.
27. MARGARITIS, I.; ROUSSEAU, A.S. Does physical exercice modify antioxidant requirements? Nutr Research Reviews; 21:3-12; 2008.
28. URSO, M.L; CLARKSON, P.M. Oxidative stress, exercice and antioxidant supplementation. Toxicology; 189 (1-2):41-54; 2003.
29. BLOOMER et al_Prior exercise and antioxidant supplementation:effect on oxidative stress and muscle injury. J Int Soc Sports Nutrition;4:9; 2007.
30. MAUGHAN, R.J; DEPIESSE, F.; GEYER, H. The use of dietary supplements by athletes. J of Sports Sciences; 25(1):103 –113; 2007.
31. CABRERA, M.C.G; DOMECECH, E.; VIÑA, J. Moderate exercice in na antioxidant: upregularion of antioxidant genes by training. Free Radical Biology & Medicine; 44:126-131; 2008.
32. MORILLAS-RUIZ, J.M et al. Effects of polyphenolic antioxidants on exercice-induced oxidative stress. Clin Nutrition; 25(3):444-453; 2006.
33. CONOLLY, D.A. et al. Efficacy of a tart cherry juice blend in preventing the symptoms of muscle damage. Br J Sports Med; 40(8):679-83; 2006.
34. KUEHL, K.S. et al. Efficacy of tart cherry juice in reducing muscle pain during running: a randomized controlled trial. J Int Soc Sports Nutr; 7:17; 2010.
35. PILACZYNSKA-SZCZESNIAK, L. et al. The Influence of Chokeberry Juice Supplementation on the Reduction of Oxidative Stress Resultingfrom an Incremental Rowing Ergometer Exercise. Int J Sport Nutr Exerc Metabolism; (14):4-58; 2005.
36. TROMBOLD, J.R et al. Ellagitannin consumption improves strength recovery 2-3 d after eccentric exercise. Med Sci Sports Exercise; 42(3):493-498; 2010.
37. DAVIS, J.M. et al. Quercetin increases brain and muscle mitochondrial biogenesis and exercise tolerance. Am J Physiol Regul Integr Comp Physiol; 296(4): R1071–R1077; 2009.
38. DUMKE, C.L. et al. Quercetin´s effect on cycling efficiency and substrate utilization. Appl Physiol Nutr Metab 34:993–1000; 2009.
39. KIRK, J.C et al. Dietary quercetin supplementation is not ergogenic in untrained men. J Appl Physiol; 107:1095-1104; 2009.
40. MACRAE, H.S.; MEFFERD, K.M. Dietary antioxidant supplementation combined with quercetin improves cycling time trial performance. Int J Sport Nutr Exerc Metab; 16(4):405– 419; 2006.
41. PANZA, V.S.P. et al. Consumption of green tea favorably affects oxidative stress markers in weight-trained men. Nutrition ; 24: 433-442; 2008.


SAÚDE INTESTINAL

* Texto elaborado por Dra. Ana Beatriz Baptistella Leme da Fonseca, nutricionista da VP Consultoria Nutricional.

O trato gastrintestinal representa uma das maiores interfaces entre o ambiente endógeno e o mundo externo: da boca até o ânus forma um tubo de nove metros de comprimento, considerado a segunda maior área de superfície do corpo, com tamanho entre 250 e 400m2 1.

Já está bem documentada a importância da microbiota intestinal, que representa um ecossistema de alta complexidade, composto por mais de 50 gêneros de bactérias, com 500 espécies diferentes1. Estima-se que o trato gastrintestinal seja habitado por 1014 microrganismos viáveis, número que representa mais de 10 vezes o de células eucarióticas encontradas no corpo humano.

Dentre as funções básicas da microbiota intestinal temos: estimulação do sistema imune; síntese de vitaminas (complexo B e K); aumento da motilidade gastrintestinal; digestão e absorção de nutrientes; inibição de patógenos por meio da resistência à colonização; metabolismo de compostos e drogas; produção de ácidos graxos de cadeia curta e poliaminas; hidrólise de ésteres de colesterol, de hormônios e sais biliares1,2.

A disbiose intestinal pode ser definida como um desequilíbrio na colonização bacteriana intestinal, com aumento do número de bactérias nocivas que podem promover situações de toxemia intestinal. Numerosos estudos nos últimos anos têm demonstrado a correlação patológica do ambiente intestinal, não apenas com doenças do trato gastrintestinal, mas também com doenças como aterosclerose, hipertensão, artrite reumatoide, espondilite anquilosante, urolitíases, pielonefrite, cálculos biliares e hepatite1,3. Nesse sentido, a manutenção da homeostase da microbiota intestinal é tão importante como o funcionamento de qualquer outro órgão vital!

Para manter a homeostase responsável pelo mecanismo de tolerância da mucosa intestinal por meio das bactérias comensais, as células epiteliais intestinais, em contato com o lúmen intestinal, têm um importante papel regulador, já que formam uma barreira física que impede a absorção de substâncias xenobióticas2,4.

Dentre os principais fatores associados com a etiologia da disbiose intestinal, destacam-se2:
- uso indiscriminado de antibióticos e anti-inflamatórios;
- uso abusivo de laxantes;
- consumo excessivo de alimentos industrializados associado à redução na ingestão de alimentos naturais;
- excessiva exposição a toxinas ambientais;
- doenças intestinais e hepáticas;
- estresse;
- má digestão;
- fatores individuais (idade, tempo de trânsito intestinal, pH intestinal, saúde imunológica).

Na literatura científica há muitos estudos comprovando a eficácia do uso de probióticos para a correção da disbiose intestinal, contribuindo para a melhora da saúde individual. A tabela 1 apresenta alguns estudos publicados recentemente com efeitos positivos:

Contrariamente aos resultados sobre os efeitos dos probióticos nas doenças intestinais, Broadhurst e colaboradores10 publicaram um estudo em dezembro de 2010 sobre a relação entre colite ulcerativa e infecção por helmintos. Estudos demonstram que a colite ulcerativa é menos comum em países onde infecções por helmintos são endêmicas, sugerindo que a colonização por tais parasitas pode regular a inflamação intestinal. Um indivíduo com diagnóstico de colite ulcerativa foi infectado com Trichuris trichiura para tratamento dos sintomas. Análises laboratoriais demonstraram que o tecido com colite ativa apresentava uma maior concentração de células T helper na mucosa, que produzem citocinas inflamatórias IL-17 mas não IL-22 (citocina envolvida na recuperação da mucosa). Após a exposição aos helmintos, observou-se a remissão da doença e aumento da produção de IL-22 na mucosa. Ainda, no tecido em contato com o parasita, o metabolismo de carboidratos e lipídios foi potencializado, enquanto que no tecido com colite ativa houve aumento de genes pró-inflamatórios. Entretanto, apesar dos resultados positivos, os autores ressaltam a importância da resposta individual e da necessidade de mais estudos para avaliar os mecanismos envolvidos e futuras aplicações práticas10.

É importante destacar que há também muitos estudos realizados especificamente com Kefir (bactérias do ácido lático) e alguns deles são destacados na tabela 2.

Sendo assim, os dados apresentados demonstram que a saúde intestinal é fundamental para o adequado funcionamento orgânico e que ela é totalmente dependente de uma adequada colonização bacteriana. Portanto, a manutenção da microbiota intestinal deve ser o objetivo básico das condutas nutricionais, tanto por meio da alimentação como pelo uso de suplementos probióticos. Vale ressaltar que para os casos de suplementação, a mesma deve ser oferecida a noite, combinando diferentes tipos de cepas como L. acidophillus (se fixam acima dos enterócitos), Streptococcus lactis (penetra nos enterócitos) e Bifidobacterium bifidum e Bifidobacterium lactis (são as que mais se multiplicam no intestino).

Referências Bibliográficas:
1. HAWRELAK, J.A.; MYERS, S.P. The causes of intestinal dysbiosis: a review. Altern Med Rev; 9(2):180-97, 2004.
2. ALMEIDA, L.B.; MARINHO, C.B.; SOUZA, C.S.; CHEIB, V.B.P. Disbiose intestinal. Rev Bras Nutr Clin; 24 (1): 58-65, 2009.
3. SAMSONOVA, N.G.; ZVENIGORODSKAIA, L.A.; CHERKASHOVA, E.A.; LAZEBNIK, L.B. Intestinal dysbiosis and atherogenic dyslipidemia. Eksp Klin Gastroenterol; (3):88-94, 2010.
4. EUN, C.S.; KIM, Y.S.; HAN, D.S. et al. Lactobacillus casei prevents impaired barrier function in intestinal epithelial cells. APMIS; 119(1):49–56, 2011.
5. de MORENO de LEBLANC, A; PERDIGÓN, G. The application of probiotic fermented milks in cancer and intestinal inflammation. Proc Nutr Soc; 69(3):421-8, 2010.
6. MATSUMOTO, K.; TAKADA, T.; SHIMIZU, K.; et al. Effects of a probiotic fermented milk beverage containing Lactobacillus casei strain Shirota on defecation frequency, intestinal microbiota, and the intestinal environment of healthy individuals with soft stools. J Biosci Bioeng; 110(5):547-52, 2010.
7. ARONSSON, L.; HUANG, Y.; PARINI, P.; et al. Decreased fat storage by Lactobacillus paracasei is associated with increased levels of angiopoietin-like 4 protein (ANGPTL4). PLoS One; 5(9), 2010.
8. CHEN, Y.S.; JAN, R.L.; LIN, Y.L.; et al. Randomized placebo-controlled trial of lactobacillus on asthmatic children with allergic rhinitis. Pediatr Pulmonol; 45(11):1111-20, 2010.
9. LYRA, A.; KROGIUS-KURIKKA, L.; NIKKILÄ, J.; et al. Effect of a multispecies probiotic supplement on quantity of irritable bowel syndrome-related intestinal microbial phylotypes. BMC Gastroenterol; 10: 110, 2010.
10. BROADHURST, M.J.; LEUNG, J.M.; KASHYAP, V. et al. IL-22+ CD4+ T Cells Are Associated with Therapeutic Trichuris trichiura Infection in an Ulcerative Colitis Patient. Sci Transl Med; 2(60): 60ra88, 2010.
11. GRISHINA, A.; KULIKOVA, I.; ALIEVA, L.; et al. Antigenotoxic effect of kefir and ayran supernatants on fecal water-induced DNA damage in human colon cells. Nutr Cancer; 63(1):73-9, 2011.
12. UCHIDA, M.; ISHII, I.; INOUE, C.; et al. Kefiran reduces atherosclerosis in rabbits fed a high cholesterol diet. J Atheroscler Thromb; 17(9):980-8, 2010.
13. HOJSAK, I.; SNOVAK, N.; ABDOVIC, S.; et al. Lactobacillus GG in the prevention of gastrointestinal and respiratory tract infections in children who attend day care centers: a randomized, double-blind, placebo-controlled trial. Clin Nutr; 29(3):312-6, 2010.


Modulação Hormonal na Obesidade: Uma Breve Revisão

* Texto elaborado pela Dra. Camila Gomes Komatsu, aluna bolsista do curso de Pós-graduação em Nutrição Clínica Funcional pela VP Consultoria Nutricional/ Divisão Ensino e Pesquisa.

A obesidade é considerada um dos maiores problemas de saúde pública da última década, atingindo níveis epidêmicos atualmente. Ela é considerada uma desordem complexa, de forte base genética e de etiologia multifatorial. Apesar de várias evidências quanto à importância dos genes no desenvolvimento da obesidade, também é consenso que o ambiente obesogênico criado a partir da abundância de alimentos (junk food), o estilo de vida sedentário, a alta exposição a toxinas e o estresse crônico também contribuem para o aumento de sua prevalência1.

O sistema regulatório do ganho de peso é formado por interações entre o trato gastrointestinal, tecido adiposo e o sistema nervoso central, sendo influenciado por mecanismos comportamentais, sensoriais, autonômicos, nutricionais e endócrinos2,3. Portanto, fica claro o envolvimento de alterações hormonais nessa patologia. Ainda não se sabe se essas alterações são adaptativas e fisiológicas ou se participam na gênese ou perpetuação da doença. Além disso, o tecido adiposo possui importante função endócrina, que pode ter papel etiológico4.

* Eixos hormonais e obesidade

A obesidade está associada a um estado inflamatório de baixa intensidade caracterizado por níveis plasmáticos aumentados de citocinas pró-inflamatórias, como TNF-a (fator de necrose tumoral a), ILs (interleucinas) e proteínas citocinas-like, conhecidas como adipocinas. Algumas dessas moléculas parecem ser secretadas por adipócitos, enquanto que outras são predominantemente derivadas do infiltrado de macrófagos no tecido adiposo5. As citocinas pró-inflamatórias liberadas podem estimular o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, tornando-o hiper-responsivo4,6,7. Há também um aumento no clearance de cortisol, principalmente na obesidade visceral, já que adipócitos viscerais possuem maior densidade de receptores de glicocorticoides que adipócitos de tecido adiposo periférico.

Como o clearance aumenta, a produção de cortisol aumenta por compensação, mantendo níveis séricos normais ou ligeiramente aumentados4. Já está bem documentado que glicocorticoides promovem a diferenciação e proliferação dos adipócitos humanos, sendo que há mais receptores no tecido adiposo visceral em relação ao subcutâneo. Eles também redistribuem a adiposidade periférica para a central, aumentam o tamanho e número de células gordurosas e ativam a lipólise, aumentando a liberação de ácidos graxos livres para a circulação7.

Uma explicação para o aumento na atividade glicocorticoide na gordura abdominal é a atividade aumentada da enzima 11-beta-hidroxiesteroide desidrogenase tipo 1 (11ßHSD-1), que converte cortisona inativa em cortisol ativo, além de facilitar a ação dos glicocorticoides nos tecidos alvos como fígado e tecido adiposo. Além disso, parece que as citocinas derivadas do tecido adiposo, como TNF-a e IL-1, podem estimular a atividade transcricional do gene da 11ßHSD-14,7,8,9.

Além do hipercorticosolismo, a inflamação sistêmica crônica presente na obesidade pode também levar à resistência à insulina5,10. A cascata inflamatória envolve ativação de uma rede complexa de vias de sinalização, incluindo ativação de muitas serina/tirosina quinases e fatores de transcrição como JNK (c-Jun N-terminal quinase), PKC (proteína quinase C) e NF-?B (fator nuclear ?B)5.

O eixo hipotálamo-hipófise-gonadal também se encontra alterado na obesidade . O homem obeso parece apresentar hipoandrogenismo hipogonadotrófico, com níveis baixos de testosterona livre. A obesidade causa diminuição nos níveis da globulina ligadora de hormônios sexuais (SHBG), o que acarreta níveis baixos de testosterona total. Já a mulher obesa eumenorreica apresenta hiperandrogenismo hipergonadotrófico, com produção androgênica maior com consequente aumento de testosterona livre4,11. Há uma relação inversa entre circunferência da cintura, um indicador de obesidade visceral, e níveis de testosterona12. Além disso, a obesidade provoca hiperestrogenismo, uma vez que a aromatização ocorre no tecido adiposo4.

* Obesidade, hormônios e modulação hormonal

Diversos nutrientes têm sido pesquisados por exercerem funções na modulação da síntese e secreção de enzimas, agindo em diferentes locais.

A substância encontrada no abacate e em castanhas, denominada ß-sitosterol, parece auxiliar no controle da razão DHEA (dehidroepiandrosterona)/cortisol, tendo, portanto, papel no controle do hipercorticosolismo13. Além disso, alguns compostos podem inibir a enzima 11ßHSD-1, como o suco de grapefruit. Os flavonoides presentes na fruta, principalmente a quercetina, parecem inibir a atividade da enzima14,15. Eles também têm sido investigados por possuírem efeitos anti-inflamatório, antioxidante, antiviral e anticarcinogênico. Mais recentemente, também tem sido demonstrado seu efeito como agente antidiabético15. A fosfatidilserina, presente na soja, peixe e em vegetais folhosos verde-escuros, pode diminuir a ativação induzida por estresse do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, diminuindo a liberação de cortisol16,17. O ácido lipoico, conhecido por seu potencial antioxidante, pode ter benefício indireto quando níveis de cortisol estão altos, uma vez que pode restaurar parcialmente a supressão da atividade da célula T-helper induzida por hidrocortisona17.

Os ácidos graxos poli-insaturados de cadeia longa parecem melhorar a sensibilidade à insulina pela regulação da composição da membrana celular de ácidos graxos, o que pode afetar funções celulares como a translocação de transportadores de glicose e sinalização de insulina18. O zinco mimetiza os efeitos da insulina e aumenta a fosforilação de PI3K/Akt, sugerindo que a deficiência do mineral pode estimular o estado de resistência à insulina através da modulação das cascatas de sinalização da RI19. Quantidades adequadas de outros minerais, como o cromo19 e o magnésio20, também apresentam relação inversa com resistência à insulina. O ácido lipoico, como já citado, também age neste processo pelo efeito antidiabético15,22,23. Além desses nutrientes, trabalhos10,24 vêm mostrando a importância de uma microbiota saudável e do baixo consumo de gorduras prejudiciais, pois dietas ricas em gorduras e bactérias entéricas interagem para promover mudanças inflamatórias no intestino, priorizando o ganho de peso, adiposidade e resistência à insulina.

Mudanças na gordura visceral parecem ser consequência de mudanças nos níveis de testosterona total. Os efeitos benéficos dos andrógenos na gordura visceral têm sido confirmados12. Os polifenóis do chá verde podem inibir a ação da enzima aromatase, diminuindo a conversão de andrógenos a estronas ou estradiol25. As isoflavonas também possuem ação semelhante26.

* Considerações finais

Com a população se tornando cada vez mais obesa, surge a necessidade de esclarecer as causas que podem levar à doença e seus fatores protetores. Já está claro que na obesidade há diversas alterações hormonais e que mais estudos são necessários para esclarecer o papel exato dessas alterações, seja na etiologia ou na adaptação à doença. A alimentação e o uso de substâncias isoladas têm mostrado grande potencial na prevenção e controle da obesidade, mostrando a importância de hábitos saudáveis. Aqui foram relatados somente alguns exemplos, porém há ainda um vasto campo a ser estudado nesse sentido.

É importante ressaltar que a obesidade é uma doença muito complexa, que envolve mecanismos bioquímicos, fisiológicos, endócrinos e imunológicos específicos. Portanto, não pode ser tratada de forma isolada, mas sim de forma integrada, englobando todos os aspectos que possam interferir no bom funcionamento do organismo.

Referência Bibliográfica:
1. NAVES, A. Nutrição Clínica Funcional: Obesidade. São Paulo: VP Editora, 2009.
2. BOGUSZEWSKI CL, PAZ-FILHO G, VELLOSO LA. Neuroendocrine body weight regulation: integration between fat tissue, gastrointestinal tract, and the brain. Endokrynol Pol; 61(2):194-206, 2010.
3. NAVES, A. Nutrição Clínica Funcional: Modulação Hormonal. São Paulo: VP Editora, 2010.
4. LORDELO RA, MANCINI MC, CERCATO C, et al. Eixos hormonais na obesidade: causa ou efeito? Arq Bras Endocrinol Metab; 51(1):34-41, 2007.
5. BARBARROJA N, LÓPEZ-PEDRERA R, MAYAS D, et al. The obese healthy paradox: is inflammation the answer? Biochem J; 430(1):141-9, 2010.
6. BOSE M, OLIVÁN B, LAFERRÈRE B. Stress and obesity: the role of the hypothalamic-pituitary-adrenal axis in metabolic disease. Curr Opin Endocrinol Diabetes Obes; 16(5):340-6, 2009.
7. ANAGNOSTIS P, ATHYROS VG, TZIOMALOS K, et al. Clinical review: the pathogenetic role of cortisol in the metabolic syndrome: a hypothesis. J Clin Endocrinol Metab; 94(8):2692-701, 2009.
8. HUGHES KA, REYNOLDS RM, ANDREW R, et al. Glucocorticoids turn over slowly in human adipose tissue in vivo. J Clin Endocrinol Metab; Epub ahead of print, 2010.
9. STAAB CA, MASER E. 11beta-hydroxysteroid dehydrogenase type 1 is na important regulator at the interface of obesity and inflammation. J Steroid Biochem Mol Biol; 119(1-2):56-72, 2010.
10. LANG DL. Gut bactéria as key players in obesity-associated inflammation and insulin resistance. Gastroenterology; Epub ahead of print, 2010.
11. ROSENFIELD RL, BORDINI B. Evidence that obesity and androgens have independent and opposing effects on gonadotropin production from puberty to maturity. Brain Res; Epub ahead of print, 2010.
12. SAAD F, GOOREN LJ. The role of testosterone in the etiology and treatment of obesity, the metabolic syndrome, and diabetes mellitus type 2. J Obes; Epub 2010, 2011.
13. BOUIC PJ, LAMPRECHT JH. Plant sterols and sterolins: a review of their immune-modulating properties. Alten Med Rev; 4(3):170-7, 1999.
14. LEE YS, LORENZO BJ, KOUFIS T, et al. Grapefruit juice and its flavonoids inhibit 11 beta-hydroxysteroid dehydrogenase. Clin Pharmacol Ther; 59(1):62-71, 1996.
15. TORRES-PIEDRA M, ORTIZ-ANDRADE R, VILLALOBOS-MOLINA R, et al. A comparative study of flavonoid analogues on streptozotocin-nicotinamide induced diabetic rats: quercetin as a potential antidiabetic agent acting via 11beta-hydroxysteroid dehydrogenase type 1 inhibition. Eur J Med Chem; 45(6):2606-12, 2010.
16. STARKS MA, STARKS SL, KINGSLEY M, et al. The effects of phosphatidilserine on endocrine response to moderate intensity exercise. J Int Soc Sports Nutr; 5:11, 2008.
17. KELLY GS. Nutritional and botanical interventions to assist with the adaptation to stress. Altern Med Rev; 4(4):249-65, 1999.
18. MURAMATSU T, YATSUYA H, TOYOSHIMA H, et al. Higher dietary intake of alpha-linolenic acid is associated with lower insulin resistance in middle-aged Japanese. Prev Med; 50(5-6):272-6, 2010.
19. JOU MY, PHILIPPS AF, LÖNNERDAL B. Maternal zinc deficiency in rats affects growth and glucose metabolism in the offspring by inducing insulin resistance postnatally. J Nutr; 140(9):1621-7, 2010.
20. ALI A, MA Y, REYNOLDS J, et al. Chromium effects on glucose tolerance and insulin sensitivity in people at risk for diabetes. Endocr Pract; 14:1-21, 2010.
21. KIM DJ, XUN P, LIU K, et al. Magnesium intake in relation to systemic inflammation, insulin resistance, and the incidence of diabetes. Diabetes Care; Epub ahead of print, 2010.
22. WANG Y, LI X, GUO Y, et al. Alpha-lipoic acid increases energy expenditure by enhancing adenosine monophosphate-activated protein kinase-peroxisome proliferator-activated receptor-gamma coactivator-1alpha signaling in the skeletal muscle of aged mice. Metabolism; 59(7):967-76, 2010.
23. KANDEIL MA, AMIN KA, HASSANIN KA, et al. Role of lipoic acid on insulin resistance and leptin in experimentally diabetic rats. J Diabetes Complications; Epub ahead of print, 2009.
24. DING S, CHI MM, SCULL BP, et al. High-fat diet: bactéria interactions promote intestinal inflammation which precedes and correlates with obesity and insulin resistance in mouse. PLoS One; 5(8):e12191, 2010.
25. DAI Q, SHU XO, LI H, et al. Is Green tea drinking associated with a later onset of breast cancer? Ann Epidemiol; 20(1):74-81, 2010.
26. EDMUNDS KM, HOLLOWAY AC, CRANKSHAW DJ, et al. The effects of dietary phytoestrogens on aromatase activity in humam endometrial stromal cells. Reprod Nutr Dev; 45(6):709-20, 2005.


Alho Negro: Uma Saborosa Opção no Combate ao Estresse Oxidativo.

* Texto elaborado pela Nutricionista Gabriela Andrello Paschoal do Departamento Científico da VP Consultoria Nutricional

O alho (Allium Sativum L.) é um condimento bastante presente no cotidiano das pessoas. A sua exploração não foi apenas como especiaria, pois tem sido também utilizado para outros fins, dependendo da cultura. Ao longo dos tempos, através de vários estudos, foi-se descobrindo que o bulbo desta planta possuía também propriedades benéficas para a saúde (1). Ele possui fortes poderes antioxidantes e foi sugerido que pode prevenir doença cardiovascular; inibir a agregação plaquetária e a formação de trombos; prevenir câncer, doenças associadas ao envelhecimento cerebral, artrites e formação de catarata; rejuvenescer a pele e melhorar a circulação e os níveis de energia (2).

Estão presentes no alho compostos organosulfurados, os quais desempenham atividades benéficas à saúde como a aliina (hipotensora, hipoglicemiante), ajoeno (antiagregante plaquetário), alicina (antibiótica, antifúngica, antiviral), alil-mercaptano (hipocolesterolêmica, hipotensora, antitumoral), dialil-dissulfido (hipocolesterolêmica, antitumoral) e compostos gama-glutâmicos (antioxidante, hipocolesterolêmica, antitumoral) (3).

Um estudo chinês mostrou que, in vitro, a alicina reduziu a viabilidade de células cancerígenas gástricas, de maneira, dose e tempo-dependente, o que sugere uma diminuição na proliferação dessas células, evitando a progressão da doença, podendo ser utilizada tanto na prevenção quanto no tratamento (4). Ainda com relação ao câncer, outro estudo observou que a alicina também pode auxiliar no tratamento e prevenção do câncer de cólon, pelo mesmo efeito observado quanto a neoplasias gástricas (5).

Li e colaboradores (6) demonstraram, in vivo, outro efeito bastante interessante, pois constataram que a suplementação preventiva de alicina previne perda de memória e dificuldade de aprendizagem de indivíduos portadores de Mal de Alzheimer, fato atribuído, possivelmente, ao aumento na atividade da superóxido dismutase (SOD), redução dos níveis de malondialdeído e diminuição de alguns genes envolvidos na progressão dessa doença.

Recentemente, descobriu-se que a alicina também possui atividade antiparasitária, principalmente contra Plasmodium falciparum e Trypanosoma brucei brucei, pois inibe enzimas produzidas por esses parasitas e que causam danos à saúde dos seres humanos (7).

Em estudo argentino, Vazquez-Prietro e colaboradores (8) observaram, in vivo, que o extrato aquoso de alho pode prevenir o estresse oxidativo e o remodelamento vascular em casos de síndrome metabólica. Outra importante consequência, observada por estudo chinês, quanto à diminuição do estresse oxidativo, foi uma proteção contra hipertrofia e fibrose cardíaca. (9).

Atualmente, na gastronomia, principalmente chinesa, o alho negro está ganhando espaço. Ele é produzido a partir do envelhecimento do alho fresco em alta temperatura (70°C) e alta umidade (90%UR). Durante o processo de envelhecimento, compostos instáveis do alho fresco, incluindo a aliina, são convertidos em compostos estáveis, como a s-alil cisteína, um composto hidrossolúvel com potente efeito antioxidante, fato este que sugere que o alho negro tenha um poder antioxidante maior do que o alho fresco (10).

Young-Min Lee e colaboradores (10) identificaram que o consumo de alho negro aumentou a atividade da SOD e da glutationa peroxidase (GPx) e quando comparado ao alho fresco, seu consumo reduziu significativamente mais os níveis séricos de TBARS.

Um estudo realizado na Coreia, o qual explorou o potencial do extrato clorofórmico de alho negro no estresse oxidativo, mostrou que além de atenuar a atividade de moléculas de adesão, diminuiu a produção de fator de necrose tumoral alfa (TNF-alfa) induzida por espécies reativas de oxigênio (EROs) e inibiu a ativação de fator de transcrição kappa B (NFkB), dados estes que fornecem novas evidências da atividade anti-inflamatória deste alimento (11). Outras interessantes propriedades do alho negro são os seus efeitos hipoglicemiante e hipocosleterolêmico, como demonstrado em um estudo coreano, o qual comprovou que consumir alho negro reduz significativamente a resistência insulínica, a glicemia e o colesterol total, além de aumentar os níveis de HDL colesterol (12).

Portanto, podemos concluir que o alho negro, assim como o alho fresco, possui atividades anti-inflamatórias, antioxidante, hipoglicemiante e hipocolesterolêmica. Porém, observa-se uma potencialização desses efeitos, mostrando que o processo de envelhecimento do alho não altera as suas propriedades.

Referência Bibliográfica:
1. MENDES, P. A. P. Estudo do teor de Alicina em Alho. São Paulo: IPB, 2008. 22p. Dissertação (mestrado) – Instituto Politécnico de Bragança, 2008.
2. KALLUF, L. J. H.; PASQUA, I. C.; A Fitoterapia Funcional na modulação anti-inflamatória imunomoduladora e antienvelhecimento. In: KALLUF, L. J. H. Fitoterapia Funcional: dos Princípios Ativos à Prescrição de Fitoterápicos. 1.ed. São Paulo: VP Editora, 2008.
3. GARCIA GOMEZ, L.; SANCHEZ-MUNIZ, J. Revisión: Efectos cardiovasculares del ajo (Allium sativum). Arch Latinoam de Nutr: 50 (3): 219-229, 2000.
4. ZHANG, W.; HA, M.; GONG, Y. et al. Allicin induces apoptosis in gastric cancer cells through activation of both extrinsic and intrinsic pathways. Oncol Rep; 24(6):1585-92, 2010.
5. LI, X. H.; LI, C. Y.; XIANG, Z. G. et al. Allicin can reduce neuronal death and ameliorate the spatial memory impairment in Alzheimer's disease models. Neurosciences (Riyadh); 15(4):237-43, 2010.
6. BAT-CHEN, W.; GOLAN, T. ; PERI, I. et al. Allicin purified from fresh garlic cloves induces apoptosis in colon cancer cells via Nrf2. Nutr Cancer; 62(7):947-57., 2010.
7. WAAG, T.; GELHAUS, C.; RATHE, J. et al. Allicin and derivates are cysteine protease inhibitors with antiparasitic activity. Bioorg Med Chem Lett.; 15;20(18):5541-3., 2010.
8. VAZQUEZ-PRIETP, M. A.; GONZÁLEZ, R. E.; RENNA, N. F. et al. Aqueous garlic extracts prevent oxidative stress and vascular remodeling in an experimental model of metabolic syndrome. J Agric Food Chem; 58(11):6630-5, 2010.
9. LIU, C.; CAO, F.; TANG, Q. Z. et al. Allicin protects against cardiac hypertrophy and fibrosis via attenuating reactive oxygen species-dependent signaling pathways. J Nutr Biochem.; 21(12):1238-50, 2010.
10. LEE, Y. M.; GWEON, O. C.; SEO, Y. J., et al. Antioxidant effect of garlic and aged black garlic in animal model of type 2 diabetes mellitus. Nutr Res Pract; 3 (2): 156-161, 2009
11. LEE, E. N.; CHOI, Y. W.; KIM, H. K. et al. Chloroform extract of aged black garlic attenuates TNF-alpha-induced ROS generation, VCAM-1 expression, NF-kappaB activation and adhesiveness for monocytes in human umbilical vein endothelial cells. Phytother Res; 2010.
12. SEO, Y. J.; GWEON, O. C.; LEE, Y. M., et al. Effect of Garlic and Aged Black Garlic on Hyperglycemia and Dyslipidemia in Animal Model of Type 2 Diabetes Mellitus. J Food Sci Nutr; 14 (1): 1-7, 2009.


Vitamina D & Cálcio: Importância das novas Dri's para a População Brasileira.

* Texto elaborado pela Nutricionista Viviane Sant' Anna e pela estagiária Renata Alves Carnauba do Departamento Científico da VP Consultoria Nutricional.

Status Nutricional de Vitamina D e Cálcio no Brasil

Níveis inadequados de vitamina D parecem ser comuns na população adulta de todo o mundo, apesar de diferenças na prevalência de hipovitaminose D em relação à idade, grupo étnico, latitude, estação do ano, tempo e frequência de exposição solar, fortificação alimentar ou uso de suplementos de vitamina D (1). Além disso, tem se observado consumo inadequado de alimentos fontes de cálcio e aumento da prevalência de doenças associadas a essas deficiências, como osteoporose, osteopenia e fraturas ósseas.

No Brasil, a exposição solar ocorre praticamente durante todo o ano. Entretanto, com o aumento da incidência de câncer de pele, os dermatologistas têm recomendado a utilização de protetores solares com fatores muito altos, que podem limitar a disponibilidade da vitamina D (2).

Os dados de ingestão de vitamina D em dietas brasileiras são raros e, quando existentes, provêm de cálculos teóricos por meio de tabelas de composição de alimentos de outros países (2). Entretanto, estudos de avaliação do estado nutricional dos indivíduos em relação à vitamina D no Brasil têm aumentado devido, principalmente, ao reconhecimento da importância dessa vitamina na saúde humana.

A tabela 1 mostra alguns estudos realizados no Brasil sobre o status de vitamina D e cálcio na população.

Funções e Importância na Saúde Humana

A vitamina D é um hormônio que exerce importante influência sobre a absorção de cálcio, em que níveis adequados de vitamina D podem resultar em uma maior eficiência na absorção intestinal de cálcio.

A principal fonte de vitamina D é proveniente da produção endógena na pele após exposição à luz ultravioleta B. A dieta é uma alternativa, mas não tão eficaz fonte de vitamina D, sendo responsável por apenas 20% das necessidades, mas que assume um papel importante nos idosos, pessoas institucionalizadas, e aqueles que vivem em climas temperados (10).

Todos os derivados do colecalciferol são lipossolúveis e circulam principalmente ligados a uma alfa-globulina, a Proteína Ligadora da Vitamina D (DBP), que transporta estas moléculas hidrofóbicas a vários órgãos-alvo. A vitamina D também circula ligada à albumina (11).

No fígado, o colecalciferol é convertido em 25(OH)D pela hidroxilação no carbono 25, mediada pela enzima D3-25-hidroxilase (25-OHase). Aproximadamente, 75% da vitamina D circulante são convertidas a 25(OH)D em sua primeira passagem pelo fígado. Nas mitocôndrias dos túbulos contorcidos proximais do rim está presente a enzima 25(OH)1-hidroxilase (1-OHase), que converte 25(OH)D em 1,25-dihidroxivitamina D [1,25 (OH)2D], que é a forma mais ativa deste hormônio (11).

Estudos demonstram efeitos importantes da vitamina D sobre o sistema imunológico, agindo como potente imunomodulador e tendo possíveis relações com doenças autoimunes (12-14). Foi demonstrado que os monócitos e macrófagos de pacientes com a doença granulomatosa sarcoidose constituitivamente sintetizam a forma ativa da vitamina D, a1-25 dihidroxivitamina D, a partir do precursor 25OHD. Quando os receptores 1-25 dihidroxivitmina D são ativados, há a proliferação de linfócitos. Essa observação sugere que o mecanismo da 1-25 dihidroxivitamina D produzido pelos monócitos poderia agir sobre a produção das células T e B (15).

Estudos com doses suplementadas de vitamina D mostraram um aumento na sensibilidade à insulina, mas não da secreção desse hormônio, podendo ser um coadjuvante no tratamento para pacientes diabéticos (16,17).

O cálcio tem funções importantes em todo o organismo, não se restringindo apenas aos ossos. Várias metaloenzimas, como a alfa-amilase e fosfolipases, contêm cálcio como parte essencial do seu sítio catalítico. A calbindina D é essencial para a absorção do cálcio, para sua entrada na célula e para a reabsorção do filtrado glomerular no rim.

Conforme a ingestão de cálcio aumenta (> 500 mg/dia), a calbindina é responsável pela maior parte da absorção do mineral. Em vista disso, o processo passivo pode tornar-se o mecanismo predominante de absorção de grandes doses de cálcio, uma vez que o transporte ativo já está saturado.

Várias proteínas de coagulação do sangue necessitam de cálcio para sua atividade; muitos dos anticoagulantes utilizados para prevenir a coagulação de amostras de sangue in vivo agem quelando o cálcio. Seu principal papel funcional é a regulação metabólica. A proteína quinase que modula a atividade de enzimas-chave em resposta à ligação de hormônios na superfície das células é ativada pelo cálcio, podendo ser diretamente ligada à calmodulina, proteína ligadora de cálcio de alta afinidade. O cálcio também é importante na regulação da contração muscular, pois a proteína troponina que regula a contratilidade de actina e miosina é dependente de cálcio; e também no controle da pressão arterial, afetando o tônus vascular por meio da regulação de proteínas contráteis e do transporte de substâncias pelas membranas (2).

Há vários fatores que interferem no metabolismo do cálcio, como a deficiência de magnésio, por exemplo, assim como a ingestão de alimentos ricos em fósforo, como refrigerantes e alimentos fontes de proteína de origem animal, promove perda urinária de cálcio. Condições inflamatórias intestinais também podem alterar a absorção do mineral (18).

Avaliação Laboratorial da Vitamina D – Melhores Parâmetros

A concentração de 25(OH)D no plasma é o melhor indicador do estado nutricional do indivíduo em relação à vitamina D, uma vez que nesse caso é possível relacionar toda a vitamina D disponível, isto é, aquela de fonte alimentar e a sintetizada pelo organismo. A concentração de 25(OH)D no soro aceitável é de >30nmol/L; de 1,25(OH)2D é de 48-100pmol/L e a identificação de toxicidade de vitamina D se dá quando a concentração sérica de 25(OH)D é >200nmol/L (2).

Os sintomas mais comuns da deficiência de vitamina D estão relacionados com desordens do metabolismo ósseo, doenças inflamatórias, doenças infecciosas, hiperparatireoidismo secundário, alterações da função cognitiva e desequilíbrio imunológico. Além disso, leva à retenção de fósforo nos rins (18,19).

Prevenção e Tratamento de Doenças Associadas à Deficiência de Vitamina D e Cálcio

Com base nas evidências em estudos animais e humanos, a vitamina D tem surgido como um modificador do risco de desenvolver diabetes tipo 1 e tipo 2. Sugere-se que a vitamina D exerça influência direta (por meio da ativação de receptores da vitamina D) e indireta (através da regulação da homeostase do cálcio) sobre vários mecanismos relacionados com a fisiopatologia dos dois tipos de diabetes, incluindo disfunção das células ß pancreáticas, prejuízo na ação da insulina e inflamação sistêmica. Estudos observacionais de caso controle têm demonstrado que a suplementação de vitamina D na infância ou no início da gravidez está associada com o risco reduzido da incidência de diabetes tipo 1 (20).

Grimnes et al. (2010) avaliaram a hipótese de que baixas concentrações séricas de 25-hidroxivitamina D estão associadas com o aumento do risco de desenvolver diabetes mellitus tipo 2 (DM) em uma coorte de base populacional durante 11 anos de acompanhamento. Participaram deste estudo 4157 indivíduos não fumantes e 1962 fumantes, sem registro de DM ao início, sendo alocados em quartis de 25OHD sérica a cada mês, para se levar em conta as variações sazonais. No fim do estudo, a ocorrência de DM foi registrada em 183 não fumantes e em 64 fumantes, sendo que quanto menor o quartil, maior o risco de desenvolver DM (21).

Tem sido mostrado também que a vitamina D possui ação moduladora do sistema imunológico, sendo sua deficiência associada com o desenvolvimento de diversas doenças autoimunes, como, além do diabetes tipo 1, a esclerose múltipla. O uso experimental de vitamina D tem revelado um novo papel na imunopatogênese das doenças autoimunes. Distúrbios como lúpus eritematoso sistêmico, artrite reumatoide, polimiosite/ dermatomiosite e escleroderma sistêmico têm sido associados a algum grau de deficiência de vitamina D. Se a deficiência de vitamina D se apresentar de uma forma grave em pacientes com doenças autoimunes, a suplementação de vitamina D pode ser indicada (22).

Em alguns países, já é preconizada a fortificação dos alimentos com vitamina D para diminuição do risco de desenvolvimento de doenças como as citadas anteriormente, através da obtenção de colecalciferol e ergocalciferol de leveduras e de esteróis de plantas (ergosterol) (1).

Novas Recomendações de Ingestão Diária e de Limites de Ingestão de Cálcio e Vitamina D de acordo com a Dietary Reference Intake (DRI)

Nos últimos dez anos, o público vem conflitando dados sobre outros benefícios do cálcio e da vitamina D, especialmente desse último nutriente mencionado, e também sobre quanto desses nutrientes são necessários para obtenção de benefícios à saúde (23).

Para responder a essas questões, os governos dos Estados Unidos e do Canadá questionaram o Instituto de Medicina (IOM) para avaliar os dados recentes sobre os efeitos à saúde associados com o cálcio e a vitamina D. O Instituto de Medicina então fez um Comitê de estudiosos na área para revisar todas as evidências, como também para atualizar os valores de referência, conhecidos como Dietary Reference Intakes (DRIs) (23).

O Comitê forneceu uma revisão de estudos sobre os efeitos potenciais dos nutrientes cálcio e vitamina D. Contudo, apenas constataram os benefícios para a saúde óssea e não em outras condições (23). A tabela 2 mostra as novas recomendações alimentares e os limites de ingestão do cálcio e da vitamina D.

Cuidado com Excesso de Vitamina D

A ingestão excessiva de vitamina D, mas não a excessiva exposição ao sol, também pode causar sintomas como fraqueza, náuseas, perda de apetite, dor de cabeça, dores abdominais, câimbras e diarreia. Ainda mais grave, pode também causar hipercalcemia, que pode levar à calcinose, calcificação de tecidos moles, incluindo rins, coração, pulmão e vasos sanguíneos. Contudo, são raros os casos em que haja excesso de vitamina D (2,18).

Referência Bibliográfica:
1. UNGER, M. D. Determinação de níveis séricos de vitamina D em uma amostra de indivíduos saudáveis da população brasileira. Dissertação (Mestrado em Medicina Clínica Médica) - Universidade de São Paulo. 2009.
2. COZZOLINO, S.M.F. Biodisponibilidade de nutrientes. 2ªed. São Paulo: Editora Manole. 2007.
3. MARTINO, H.S.; FERREIRA, A.C.; PEREIRA, C.M. et al. Anthropometric evaluation and food intake of preschool children at Municipal Educational Centers, in South of Minas Gerais State, Brazil. Cien Saude Colet; 15(2): 551-558, 2010.
4. MORIMOTO, J.M.; MARCHIONI, D.M.; FISBERG, R.M. Using dietary reference intake-based methods to estimate prevalence of inadequate nutrient intake among female students in Brazil. J Am Diet Assoc; 106(5): 733-736, 2006.
5. PINHEIRO, M.M.; JACQUES, N.O.; GENARO, P.S. et al. Nutrient intakes related to osteoporotic fractures in men and women – The Brazilian Osteoporosis Study (BRAZOS). Nutr J, 2008.
6. PETERS, B.S.E.; DOS SANTOS, L.C.; FISBERG, M. et al. Prevalence of vitamin D insufficiency in Brazilian adolescents. Nutr Metab; 54(1), 2009.
7. BUENO, A.L.; CZEPIELEWSKI, M.A. The 24-hour recall for the assessment of dietary calcium, phosphorus and vitamin D intakes in stunted children ad adolescents. Rev Nutr; 23(1): 65-73, 2010.
8. PREMAOR, M.O.; ALVES, G.V.; CROSSETTI, L.B. et al. Hyperparathyroidism secondary to hypovitaminosis D in hypoalbuminemic is less intense than in normoalbuminemic patients: a prevalence study in medical inpatients in southern Brazil. Endocrine; 24(1):47-53, 2004.
9. SCALCO, R.; PREMAOR, M.O.; FRÖEHLICH, P.E. et al. High prevalence of hypovitaminosis D and secondary hyperparathyroidism in the elderly living in nonprofit homes in South Brazil. Endocrine; 33(1): 95-100, 2008.
10. MARQUES, C.D.L.; DANTAS, A.T.; FRAGOSO, T.S. et al. The importance of vitamin D levels in autoimmune diseases. Rev Bras Reumatol; 50(1): 67-80, 2010.
11. PREMAOR, M.O.; FURLANETTO, T. W. Vitamin D deficiency in adults: to better understand a new presentation of an old disease. Arq Bras Endocrinol Metab; 50(1): 25-37, 2010.
12. PRIETL, B.; PILZ, S.; WOLF, M. et al. Vitamin D supplementation and regulatory T cells in apparently healthy subjects: vitamin D treatment for autoimmune diseases? Isr Med Assoc J; 12(3):136-9, 2010.
13. HEWISON, M. Vitamin D and the intracrinology of innate immunity. Mol Cell Endocrinol; 321(2):103-11, 2010.
14. BLANEY, G.P.; ALBERT, J.P.; PROAL, A.D. Vitamin D metabolites as clinical markers in autoimmune and chronic disease. Ann N Y Acad Sci; 1173:384-90, 2010.
15. HEWISON, M. Vitamin D and the intracrinology of innate immunity. Mol Cell Endocrinol; 321(2):103-11, 2010.
16. ALJABRI, K.S.; BOKHARI, S.A.; KHAN, M.J. Glycemic changes after vitamin D supplementation in patients with type 1 diabetes mellitus and vitamin D deficiency. Ann Saudi Med; 30(6): 454-8, 2010.
17. von HURST, P.R.; STONEHOUSE, W.; COAD, J. Vitamin D supplementation reduces insulin resistance in South Asian women living in New Zealand who are insulin resistant and vitamin D deficient – a randomized, placebo-controlled trial. Br J Nutr; 103(4):549-55, 2010.
18. PASCHOAL, V.; MARQUES, N.; BRIMBERG, P. et al. Suplementação Funcional Magistral: dos nutrientes aos compostos bioativos. 1ª Edição Revisada. Coleção Nutrição Clínica Funcional. São Paulo: Editora Valéria Paschoal Ltda. 2009.
19. BANDEIRA, F. et al. Vitamin D deficiency and its relationship with bone mineral density among postmenopausal women living in the tropics. Arq Bras Endocrinol Metab; 54(2): 227-232, 2010.
20. PITTAS, A.G.; DAWSON-HUGHES, B. Vitamin D and diabetes. J Steroid Biochem Mol Biol; 121(1-2): 425-9, 2010.
21. GRIMNES, G.; EMAUS, N.; JOAKIMSEN, R.M. et al. Baseline serum 25-hydroxyvitamin D concentrations in the Tromso Study 1994-95 and risk of developing type 2 diabetes mellitus during 11 years of follow-up. Diabet Med; 27(10):1107-15, 2010.
22. PELAJO, C.F.; LOPEZ-BENITEZ, J.M.; MILLER, L.C. et al. Vitamin D and autoimmune rheumatologic disorders. Autoimmun Rev; 9(7): 507-10, 2010.
23. Institute of Medicine (IOM). Dietary Reference Intakes for Calcium and Vitamin D. 2010.



Polimorfismos Genéticos: Individualidade Bioquímica X Dieta

*Texto elaborado pela Nutricionista Viviane Sant’ Anna - Departamento Científico da VP Consultoria Nutricional.

Com o Projeto Genoma Humano e com poderosas ferramentas de biologia molecular, uma nova era na Medicina e na Nutrição vem sendo expandida, possibilitando o desenvolvimento de duas disciplinas emergentes de estudo, que envolvem a interação entre nutrição, genética e qualidade de vida, chamadas de Nutrigenômica e Nutrigenética (1).

A Nutrigenômica estuda a influência dos nutrientes sobre a expressão gênica. Já a Nutrigenética estuda o efeito da variação dos genes sobre a interação entre dieta e doença, com o objetivo de gerar recomendações dietéticas, levando em conta os riscos e os benefícios de dietas específicas para o indivíduo, de acordo com suas características genéticas. Ambas possuem um potencial facilitador na prevenção de doenças crônicas: a Nutrigenômica pela resposta da expressão dos genes em relação ao consumo de nutrientes e a Nutrigenética via uma abordagem individualizada na conduta dietética em um fenótipo específico associado a um polimorfismo genético (2).

Os polimorfismos são responsáveis pela resposta diferenciada a determinados nutrientes por um indivíduo e incluem, principalmente, os polimorfismos de nucleotídeo único (SNP), que podem determinar a susceptibilidade de um indivíduo vir a ter alguma doença relacionada com a dieta, por exemplo, ou com alguns de seus componentes, bem como influenciar na resposta individual às modificações dietéticas e no estabelecimento dos níveis ótimos dos diversos componentes da alimentação (3).

Parte desta susceptibilidade pode estar relacionada a alguns polimorfismos de genes implicados no metabolismo de certos nutrientes, ativação metabólica e/ou destoxificação, o que estabelecerá a proporção da resposta positiva ou negativa dos componentes da dieta (4). A deficiência de nutrientes específicos também está relacionada à alterações no DNA. Isto pode ser observado, por exemplo, em mulheres portadoras de um polimorfismo gênico na enzima superóxido dismutase, que é dependente de manganês (5,6).

Outra enzima muito estudada por sua implicação na via de metilação do DNA é a metilenotetrahidrofolato redutase (MTHFR), que tem um papel fundamental no metabolismo do ácido fólico (7,8). Ela apresenta vários polimorfismos (SNP) que têm sido amplamente estudados em relação a vários tipos de câncer e doenças cardiovasculares (9-11). Entre os polimorfismos mais estudados e que está relacionado com algumas doenças crônicas está o C677T, que troca citosina por timina, e determina outra mudança, na enzima de um aminoácido por outro (alanina por valina/ A222V). Esta mudança induz a síntese de uma enzima mais termolábil e com atividade enzimática reduzida e diretamente associada à incidência de câncer de esôfago, estômago, pâncreas e coloretal (12-14).

Estudos de genômica nutricional demonstram importantes associações de polimorfismos com alguns nutrientes, como a gordura, por exemplo. Na população geral foi demonstrado que a ingestão de gorduras é capaz de determinar o efeito de alguns polimorfismos (gene da lipase hepática e gene da apolipoproteína) no metabolismo de lipoproteínas. Assim como também, a associação da ingestão de gordura à presença dos componentes da Síndrome Metabólica (SM) é também modulada pela presença de polimorfismos específicos, como os do gene do proliferador de peroxissoma gama (PPAR-gama) (2).

Polimorfismos no gene da lactase podem ter implicações na oncogênese. A atividade da lactase está regulada geneticamente e associada ao polimorfismo C13910T. O genótipo 13910CC, associado a uma baixa atividade, parece estar relacionado ao aumento de risco de câncer coloretal em algumas populações (15,16).

O gene CYP2E1 tem a transcrição induzida pelo etanol e seu produto (desmetilase de dimetilnitrosamina) está envolvido no metabolismo oxidativo do próprio etanol, bem como de inúmeros carcinógenos ambientais - como compostos hidrofílicos de baixo peso molecular, nitrosaminas, benzeno, cloreto de vinila - e outros xenobióticos, como drogas medicamentosas (agentes anestésicos, isoniazida) e drogas ilícitas (cocaína). Assim, a indução do CYP2E1 pelo etanol pode interferir na ativação de carcinógenos que, por sua vez, podem atuar promovendo neoplasias em diversos órgãos (17).

Reszka e colaboradores (18) analisaram vários estudos publicados sobre a interação entre polimorfismos genéticos, dieta e risco de câncer e verificaram que o polimorfismo dos genes CYP2E1 induz o aumento da atividade enzimática e juntamente com o consumo de carne vermelha ou carne vermelha processada estão associados ao desenvolvimento de câncer coloretal. Além disso, o polimorfismo dos genes das enzimas glutationa-s-transferase a1 (GSTA1) levando a uma baixa expressão enzimática pode ser responsável pelo aumento do risco para o câncer mencionado, especialmente entre consumidores de carne vermelha bem passada.

Alguns autores mostram que indivíduos com variações nos alelos Lys23, Pro12 e no alelo T rs793146 dos genes KCNJ11, PPARG e TCF7L2, respectivamente, têm apresentado maior susceptibilidade a desenvolver diabetes tipo 2 (19,20).

Outros estudos revelam associação entre presença de polimorfismos e doenças intestinais inflamatórias. Török e colaboradores (21) avaliaram os polimorfismos dos genes DLG5 (113 G?A, 4136 C?A, e DLG5_e26), SLC22A4 (1672 C?T), e SLC22A5 (-207 G?C) em 625 pacientes com Doença de Crohn, 363 pacientes com colite ulcerativa e 1012 controles saudáveis. Eles verificaram que mutações no gene DLG5 aumentam a susceptibilidade a doença inflamatória intestinal e Doença de Crohn.

Esses estudos realizados, assim como pesquisas futuras são necessários para a elaboração de dietas personalizadas, visto que as variações gênicas apresentadas implicam na forma com a qual um indivíduo responde à dieta, a fim de diminuir o risco de doenças crônicas na população, como as citadas acima.

Referência Bibliográfica:
1. SCHUCH, J.B.; VOIGT, F.; MALUF, S.W. et al. Nutrigenética: a interação entre hábitos alimentares e o perfil genético individual. Rev Bras Bioci; 8(1): 73-84, 2010.
2. STEEMBURGO, T.; DE AZEVEDO, M.J.; MARTÍNEZ, J.A. Interação entre gene e nutriente e sua associação à obesidade e ao diabetes melito. Arq Bras Endocrinol Metab; 53(5), 2009.
3. HUNTER, D.J. The influence of genetic polymorphisms. J Nutr; 136: 27115-35, 2006.
4. RESZKA, E.; WASOWICZ, W.; GROMAOZINSKA, J. Genetic polymorphism of xenobiotic metabolizing enzymes, diet and cancer susceptibility. Brit J Nutr; 96: 609-19, 2006.
5. WANG, S.; WANG, F.; SHI, X. et al. Association between manganese superoxide dismutase (MnSOD) Val-9Ala polymorphism and cancer risk – A meta-analysis. Eur J Cancer; 45(16): 2874-81, 2009.
6. SAKODA, L.C.; BLACKSTON, C.R.; XUE, K. et al. Glutathione-S-transferase M1 and and P1 polymorphisms and risk of cancer and fibrocystic breast condition in Chinese women. Breast Cancer Res Treat; 109(1): 143-55, 2008.
7. MURTAUGH, M.A.; CURTIN, K.; SWEENEY, C. et al. Dietary intake of folate and co-factors in folate metabolism, MTHFR polymorphisms, and reduced rectal cancer. Cancer Causes Control; 18(2): 153-63, 2007.
8. XU, W.-H.; SHRUBSOLE, M.J.; XIANG, Y.-B. et al. Dietary folate intake, MTHFR genetic polymorphisms, and the risk of endometrial cancer among Chinese women. Cancer Epidemiol Biomarkers Prev; 16(2): 281-7, 2007.
9. HAN, J.; COLDITZ, G.A.; HUNTER, D.J. Polymorphisms in the MTHFR and VDR genes and skin cancer risk. Carcinogenesis; 28(2): 390-97, 2007.
10. CORTESE, C.; MOTTI, C. MTHFR gene polymorphism, homocysteine and cardiovascular disease. Public Health Nutr; 4: 493-97, 2001.
11. ULRICH, C.M. Nutrigenetics in cancer research – folate metabolism and colorectal cancer. J Nutr; 135: 2698-702, 2005.
12. FERNÁNDEZ-PERALTA, A.M.; DAIMIEL, L.; NEJOA, N. et al. Association of polymorphisms MTHFR C677T and A1298C with risk of colorectal cancer, genetic and epigenetic characteristic of tumors, and response to chemotherapy. Int J Colorectal Dis; 25(2): 141-51, 2010.
13. MURTAUGH, M.A.; CURTIN, K.; SWEENEY, C. et al. Dietary intake of folate and co-factor in folate metabolism, MTHFR polymorphisms and reduced rectal cancer. Cancer Causes Control; 18(2) 153-63, 2007.
14. LARSSON, S.C.; GIOVANNUCCI, E.; WOLK, A. Folate intake, MTHFR polymorphisms, and risk of esophageal, gastric and pancreatic cancer: a meta-analysis. Gastroenterol; 131(4): 1271-83, 2006.
15. BÁSCI, K.; HITRE, E.; KÓSA, J.P. et al. Effects of the lactose 13910CIT and calcium-sensor receptor A9865G/T gene polymorphisms on the incidence and recurrence of colorectal cancer in Hungarian population. BMC Cancer; 8: 317, 2008.
16. INGRAM, C.J.E.; ELAMIN, M.F.; MULCARE, C.A. et al. A novel polymorphism associated with lactose tolerance in Africa: multiple causes for lactose persistence? Human Gen; 120(6): 779-88, 2007.
17. ROSSIT, A. Suscetibilidade genética, biometabolismo e câncer. Rev Soc Bras Cancerol, 2000.
18. RESZKA, E.; WASOWICZ, W.; GROMADZINSKA, J. Genetic polymorphism of xenobiotic metabolising enzymes, diet and cancer susceptibility. Brit J Nutr; 96: 609-619, 2006.
19. WEEDON, M.N.; MCCARTHY, M.I.; HITMAN, G. et al. Combining information from common type 2 diabetes risk polymorphisms improves disease prediction. PLoS Med; 2006.
20. CAUCHI, S.; ACHHAB, Y.E.; CHOQUET, H. et al. TCF7L2 is reproducibly associated with type 2 diabetes in various ethnic groups: a global meta-analysis. J Mol Med; 1432-40, 2007.
21. TÖRÖK, H.-P.; GLAS, J.; TONENCHI, L. et al. Polymorphisms in the DLG5 and OCTN cation transporter genes in Crohn’s disease. Gut; 54: 1421-27, 2005.



 

Toxinas ambientais e a influência na saúde humana

*Texto elaborado por Renata Alves Carnauba - Departamento Científico da VP Consultoria Nutricional e Andréia Naves - diretora da VP Consultoria Nutricional.

Diariamente, entramos em contato com cerca de 60 mil compostos tóxicos. Nestes, podemos incluir medicamentos, metais tóxicos, aditivos alimentares, agrotóxicos, poluentes do ar, migrantes de embalagem e outros (1), conhecidos também como xenobióticos.

Sempre que o nosso organismo entra em contato com alguma toxina, inicia-se um processo de destoxificação, que visa a eliminação dessa substância; seja em nível celular ou orgânico. A destoxificação ocorre em todas as células, mas principalmente nas do fígado e do intestino(1).

As reações de destoxificação dão-se por um processo dividido em três fases. As reações de Fase I, também chamada de biotransformação ou bioativação, são realizadas por várias enzimas, e entre elas podemos citar o citocromo P450, que é o principal sistema enzimático responsável por este processo(2). Quando a toxina é biotransformada ela está na verdade sendo preparada para a reação de conjugação, conhecida também como fase II. As reações de fase II têm os objetivos de transformar as toxinas em moléculas passíveis de excreção e hidrossolúveis, além neutralizar sua possível reatividade (1). Após terem sido metabolizadas nas fases I e II, a ex-toxina, agora um metabólito excretável, será transportada para a circulação. Esta ação é realizada pela P-glicoproteína (Pgp), que transporta o metabólito para sua eliminação, seja nas vias biliares, tecido renal ou ainda no intestino, também chamada de fase III (3,4).

Existem muitas evidências que nos permitem afirmar que a nutrição influencia de forma determinante em como destoxificamos (1). Para a síntese do complexo enzimático P450, por exemplo, vários nutrientes são importantes, como ferro, cobre, zinco e vitamina B12 (5). Além desses, uma série de fitoquímicos presentes nos alimentos modulam reações do citocromo P450 e de conjugação (1).

A ingestão dietética de frutas e verduras é muito importante para esse processo, pois estes alimentos contém vitaminas, minerais, aminoácidos e fitonutrientes, que são cofatores necessários para as reações de fases 1 e 2, protegendo também contra o estresse oxidativo, inflamação e lesão mitocondrial induzida pelas toxinas. Especula-se que a composição desses alimentos seja, ao menos parcialmente, responsável por esses efeitos benéficos (5,6).

Dentre os alimentos mais eficazes para ajudar a destoxificação podemos citar as Brássicas, que inibem enzimas de fase I e aceleram enzimas de fase II, que determinam a destoxificação de compostos potencialmente tóxicos (7,8); a toranja (grapefruit), que possui a capacidade de modular as reações de fase I e II por meio da ação enzimática (9); o cúrcuma, que acelera enzimas de fase 2 e também possui capacidade de aumentar a atividade de reparo de DNA contra danos induzidos pelo arsênico (10); o chá verde, que estimula as reações de fase I e II através da ação enzimática, podendo aumentar em até 30 vezes uma das principais enzimas da reação de fase II; entre outros.

A toxicidade de diversos agentes tóxicos em seres humanos tem sido amplamente investigada, sendo relatado o aumento da incidência de disfunções do sistema endócrino de seres humanos. Estudos têm sugerido que a exposição a essas substâncias provoque possíveis alterações na saúde humana envolvendo o sistema reprodutivo, como câncer de mama e de testículo, endometriose e infertilidade, entre outros; além de distúrbios de comportamento e doenças auto-imunes (11,12).

Tais substâncias são chamadas de interferentes endócrinos. Interferente endócrino pode ser definido como substância química exógena, natural ou sintética que, mesmo presente em concentrações extremamente baixas, tem o potencial de causar efeitos adversos na saúde por interferir no funcionamento natural do sistema endócrino podendo causar câncer, prejudicar o sistema reprodutivo, entre outros (13,14). Embora banidas, muitas dessas substâncias ainda permanecem e permanecerão por muito tempo na natureza devido a sua alta estabilidade (14).

Existem diversas formas de contaminação por meio da cadeia alimentar em humanos. Exemplo disso são os agrotóxicos, migrantes de embalagens e contaminantes presentes em produtos de origem animal.

Os alimentos de origem animal geralmente são contaminados na fase da criação desses animais, em que é comum o uso de agentes anabolizantes nas rações, e que acabam sendo encontrados nos produtos derivados consumidos em quantidades permitidas pela legislação, desde que respeitadas as doses indicadas e o período de aplicação (1,11).

Embalagens plásticas podem conter constituintes inorgânicos os quais podem migrar para o alimento (15), apesar de ser uma migração pequena, a detecção dos efeitos biológicos na exposição em curto prazo não é possível de ser avaliada, entretanto, após longos períodos de ingestão, manifestações tóxicas sutis e de difícil detecção poderão ocorrer (1).

O rápido aumento de compostos químicos no ambiente coincide com o aumento da epidemiologia da obesidade nos últimos 40 anos. Além disso, evidências científicas sugerem que a exposição a certas toxinas que mimetizam a ação dos hormônios pode contribuir para o aumento da obesidade em humanos e modelos animais (16).

Tem sido mostrado que poluentes ambientais como POPs, pesticidas e bifenilas policlorinadas (PCBs) acumulam no tecido adiposo após a exposição. Foi evidenciada também que a exposição ao Bisfenol A (BPA) afeta o transporte de glicose no tecido adiposo e altera a funcionalidade endócrina dos adipócitos, sendo que em doses ambientalmente relevantes inibem a liberação de uma adipocitocina chave protetora contra a síndrome metabólica (16,17).

Evidências patológicas e laboratoriais sugerem que o arsênico, mercúrio, chumbo, POPs e possivelmente BPA, interagem com o funcionamento das células pancreáticas Langerhans, afetando consequentemente a produção de insulina (18). A exposição oral a baixas doses de mercúrio através de amálgamas dentárias, do consumo de peixes e vacinas, diminui os níveis plasmáticos de insulina e eleva assim a glicemia e a intolerância à glicose, além de aumentar o estresse oxidativo, induzir citocinas inflamatórias e promover lesão mitocondrial (6,18).

A determinação de uma quantidade de ingestão segura dessas substâncias não significa que sejam inócuas, e sim, que com os avanços tecnológicos tornou-se possível a não identificação de alterações significantes na saúde nos animais em que foram realizados os testes. Tem-se ainda que considerar as interações múltiplas entre os diferentes compostos tóxicos, que só ocorrerão dentro do organismo de cada um e serão metabolizados de forma única (1).

A maneira mais segura para a saúde seria a redução do consumo dessas substâncias, reduzindo o consumo de produtos industrializados e dando preferência aos alimentos orgânicos, que conferem maior proteção destoxificante, antioxidante e de fitonutrientes antiinflamatórios; reciclando e reutilizando materiais cuja decomposição no meio ambiente é lenta e fonte de liberação dos tais poluentes (11,16).

Referência Bibliográfica:
1- PASCHOAL, V.; NAVES, A.; FONSECA, A.B.B.L. Nutrição Clínica Funcional: dos princípios à prática clínica. 1 ed. São Paulo: VP editora, 2008.
2- KROHN, J,; TAYLOR, F.A.; PROSSER, J. The whole way to natural detoxification. Vancouver: Hartley & Marks Publishers, 1996.
3- CAMPOS, S. P-Glicoproteína. Disponível em: Acesso em: 17/05/2010.
4-JONES, D. Textbook of functional medicine. Florida: The Institute for Functional Medicine, 2006.
5- OGA, S. Fundamentos de toxicologia. 2ª ed. São Paulo: Atheneu, 2003.
6- HYMAN, M. A. Environmental toxins, obesity, and diabetes: an emerging risk factor. Altern Ther Health Med.; 16(2):56-58, 2010.
7- DEKKER, M.; MCNEILL, J.; BARRIE, F.R. et al. International code of botanical nomenclature (Saint Louis Code). Germany: Koeltz Scientific Book, 2000.
8- STEINKELLNER, H.; RABOT, S.; FREYWALD, C. et al. Effects os cruciferous vegetables and their constituents on drug metabolizing enzymes involved in the bioactivation of DNA-reactive dietary carcinogens. Mut Res; 480-481:285-297, 2001.
9- HAHN-OBERCYGER, M.; STARK, A.H.; MADAR, Z. Grapefruit and oroblanco enhance hepatic detoxification enzymes in rats: possible role in protection against chemical carcinogenesis. J Agric Food Chem;53(5):1828-32, 2005.
10- MUKHERJEE, S.; ROY, M.; DEY, S. et al. A Mechanistic Approach for Modulation of Arsenic Toxicity in Human Lymphocytes by Curcumin, an Active Constituent of Medicinal Herb Curcuma longa Linn. J Clin Biochem Nutr; 41(1):32-42, 2007.
11- FONTENELE, E.G.P.; MARTINS, M.R.A.; QUIDUTE, A.R.P.et al. Contaminantes ambientais e interferentes endócrinos. Arq Bras Endocrinol Metab.;54(1):6-16, 2010. 12- GHISELLI, Gislaine; JARDIM, Wilson F. Interferentes endócrinos no ambiente. Quím. Nova, São Paulo, v. 30, n. 3, June 2007.
13- LAHOUEL, M. et al. Effet protecteur des flavonoïdes contre la toxicité de la vinblastine, du cyclophosphamide et du paracétamol par inhibition de la peroxydation lipidique et augmentation du glutathione hépatique. Pathologie Biologie; 52 (6):314-322, 2004.
14- ALVES, Crésio et al . Exposição ambiental a interferentes endócrinos com atividade estrogênica e sua associação com distúrbios puberais em crianças. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 23, n. 5, May 2007.
15- SOARES, P.E.; SAIKI, M.; WIEBECK, H. Avaliação da migração de elementos de embalagens plásticas de alimentos para soluções simulantes pelo método radiométrico. INAC; 2005.
16- NAVES, A. Nutrição Clínica Funcional: Obesidade. 1ª ed. São Paulo: VP editora, 2009.
17- LATINI, G.; GALLO, F.; LUGHETTI, L. Toxic environment and obesity pandemia: Is there a relationship? Italian Journal of Pediatrics; 36:8, 2010.
18- SHARP, D. Environmental toxins, a potential risk factor for diabetes among Canadian Aboriginals. Int J Circumpolar Health; 68(4):316–326, 2009.





Síndrome do Glúten e alterações neurológicas

*Texto elaborado pela Nutricionista Barbara Rescalli Sanchez do Departamento Científico da VP Consultoria Nutricional

O glúten é uma proteína que pode trazer uma série de complicações a saúde humana. A mais conhecida é a doença celíaca (DC) que é uma intolerância permanente ao glúten, caracterizada por atrofia total ou subtotal da mucosa do intestino delgado proximal com conseqüente má absorção de alimentos, em indivíduos geneticamente susceptíveis. (1-4)

O diagnóstico da DC se tornou mais fácil com o desenvolvimento de marcadores sorológicos específicos para esta doença (5,6). Entretanto, são formas de rastreamento, sendo imprescindível ainda a realização de biópsia de intestino delgado (7).

Porém, estes métodos podem ser efetivos apenas para diagnosticar a DC, mas a doença celíaca, ou enteropatia sensível ao glúten, é apenas um aspecto de uma gama de possíveis manifestações de sensibilidade ao glúten. A sensibilidade ao glúten é uma doença auto-imune sistêmica com manifestações diversas e é caracterizada pela resposta imunológica anormal ao glúten ingerido em indivíduos geneticamente susceptíveis. (8)

O termo utilizado para classificar a sensibilidade ao glúten em indivíduos não celíacos é a “Síndrome do Glúten” (9), sendo que possíveis sintomas são: ataxia (10), eczema (11) e síndrome do intestino irritável (12).

Não há um mecanismo de ação completamente esclarecido para a Síndrome do Glúten, entretanto há uma hipótese em que o glúten poderia causar danos direta ou indiretamente às fibras nervosas que controla as funções do intestino, que levaria à sintomas neurológicos primários encontrados tanto na sensibilidade ao glúten quanto na doença celíaca. Sendo que o funcionamento de nosso organismo (sistema cardiovascular, intestino, bexiga, útero e glândulas) depende do sistema nervoso.

Esta relação entre glúten e sistema nervoso parece ser evidente visto que pacientes com doença celíaca apresentam alterações neurológicas (13,14). Dentre as manifestações neurológicas mais presentes estão: a hipotonia, atraso no desenvolvimento, distúrbios de aprendizagem, distúrbios de atenção e hiperatividade, enxaqueca, cefaléia, ataxia e desordens epiléticas (14,15)

Outros sintomas também são relatados na DC e na sensibilidade ao glúten como as alterações motoras gastrintestinais (retardo do esvaziamento gástrico, problemas de digestão de gorduras, inchaço, constipação e diarreia) (9,16,17),

Níveis elevados de IgG contra gliadina também foram relacionados com distúrbios comportamentais como cansaço, letargia, irritabilidade e perturbação do sono, além de refluxo gástrico. Sintomas estes que melhoram com a restrição do glúten (18).

Portanto, a restrição do glúten, pode servir como coadjuvante no tratamento de uma série de alterações neurológicas presentes não apenas em pacientes celíacos, mas também em indivíduos com sensibilidade ao glúten. Logo, o diagnóstico de pacientes com a Síndrome do Glúten é fundamental para um tratamento nutricional adequado e individualizado.

Referência Bibliográfica:
1. MEEWISSE, G.W. Diagnostic criteria in coeliac disease. Acta Paediatr Scand; 59:461-3,1970.
2. WALKER-SMITH, J.A. Celiac Disease. In:Walker WA, Durie PR, Hamilton JR, Walker-Smith JA, Watkins JB. Pediatric Gastrointestinal Disease. 2nd ed. St. Louis, Missouri: Mosby; 1996. p.840-61.
3. WALKER-SMITH, J.; MURCH, S. Coeliac disease. In: _______. Diseases of the small intestine in childhood. 4thed. Oxford: Isis Medical Media Ltd.; 1999. p.235-77.
4. PENNA, F.J.; MOTA, J.A.C.; FAGUNDES NETO, U. Doença celíaca. In: FAGUNDES NETO, U.; WHEBA, J.; PENNA, F.J. Gastroenterologia Pediátrica. 2°ed. Rio de Janeiro: Medsi; 1991. p.227-35.
5. MISRA, S.; AMENT, M.E. Diagnosis of coeliac sprue in 1994. Gastroenterol Clin North Am;24:133-143, 1995.
6. VON BLOMBERG, B.M.E.; MEARIN, M.L.; HOUWEN, R.H.J. et al. Serological assays for dignosing coeliac disease. Pediátrika; 16:367-71, 1996.
7. WALKER-SMITH, J.A.; GUANDALINI. S.; SCHMITZ, J. et al. Revised criteria for diagnosis of coeliac disease. Report of Working Group of European Society of Paediatric Gastroenterology and Nutrition. Arch Dis Child; 65: 909-11, 1990.
8. HADJIVASSILIOU, M.; SANDERS, D.S.; GRÜNEWALD, R.A. et al. Gluten sensitivity: from gut to brain. Lance Lancet Neurol; 9(3):318-30.
9. FORD, RPK. The gluten syndrome: A neurological disease. Medical Hypotheses; 73 (2009) 438–440.
10. HADJIVASSILIOU, M.; SANDERS, D.S.; WOODROOFE, N. Williamson C, Grünewald RA. Gluten ataxia. Cerebellum; 7:494–8, 2008.
11. HUMBERT, P.; PELLETIER, F.; DRENO, B. et al. Gluten intolerance and skin diseases. Eur J Dermatol; 16:4–11, 2006.
12. WAHNSCHAFFE, U.; SCHULZKE, J.D.; ZEITZ, M. et al. Predictors of clinical response to gluten-free diet in patients diagnosed with diarrhea-predominant irritable bowel syndrome. Clin Gastroenterol Hepatol; 5:844–50, 2007.
13. COOKE, W.T.; THOMAS-SMITH, W. Neurological disorders associated with adult coeliac disease. Brain; 89:683–722, 1966.
14. ZELNIK, N.; PACHT, A.; OBEID, R. et al. Range of neurologic disorders in patients with celiac disease. Pediatrics;113:1672–6, 2004.
15. BUSHARA, K.O. Neurologic presentation of celiac disease. Gastroenterology; 128:S92–7, 2005.
16. TURSI, A. Gastrointestinal motility disturbances in celiac disease. J Clin Gastroenterol; 38:642–5, 2004.
17. USAI, P.; USAI SATTA, P.; LAI, M. et al. Autonomic dysfunction and upper digestive functional disorder in untreated adult coeliac disease. Eur J Clin Invest; 1009–15, 1997.
18.HOFFENBERG, E.J.; EMERY, L.M.; BARRIGA, K.J. et al. Clinical features of children with screening-identified evidence of celiac disease. Pediatrics; 113: 1254–9, 2004.





Triptofano como precursor de serotonina cerebral

*Texto elaborado pela Nutricionista Barbara Rescalli Sanchez do Departamento Científico da VP Consultoria Nutricional

A serotonina é um neurotransmissor que possui receptores distribuídos por todo sistema nervoso central (1).

A síntese e liberação neuronal de 5-HT (serotonina) no cérebro dependem da concentração de triptofano livre no sangue e no cérebro, sendo que a degradação do triptofano, resulta em níveis mais baixos no sangue cerebral prejudicando a liberação de serotonina, o que é reforçada pela inflamação, gravidez e estresse. Os seres humanos que sofrem de inflamação e outras doenças somáticas acompanhado por baixos níveis de triptofano, apresentam distúrbios de comportamento social, aumento da irritabilidade e falta de controle. Portanto, há interesse em pesquisas de substâncias que possam aumentar os níveis cerebrais de serotonina, o que poderia ser útil em uma variedade de distúrbios psiquiátricos e sintomas associados com a baixa biodisponibilidade de triptofano (2).

Dentre as propostas estudadas, uma delas é a qualidade da alimentação e utilização de suplementação nutricional, já que a ingestão alimentar pode influenciar os níveis de serotonina cerebral e o humor (3).

A suplementação de L-triptofano em fórmulas infantis a base de soja em ratos mostrou aumento de concentração deste aminoácido e de serotonina no cérebro dos animais estudados, o que pode ter efeito na duração do sono e na evolução comportamental, o que deve ser ainda mais bem estudado (4).

Estudo realizados com ratos que foram suplementados com L-triptofano e L-valina mostrou que aminoácidos, em especial o L-triptofano teria a capacidade de potencializar a modulação serotonérgica (5).

Dietas contendo altos níveis de triptofano mostraram-se eficazes em manter o controle de componentes neuroendócrinos em animais submetidos ao estresse, além de melhorar a integridade gastrintestinal(6).

Meta-análise de ensaios realizados pelo Cochrane, envolvendo 64 pacientes, sugeriu que 5-HTP (forma de prescrição exclusiva pela classe médica) e de L-triptofano são melhores do que placebo no tratamento da depressão (7).

Entretanto, a biodisponibilidade do triptofano parece ser influenciada dependendo da fonte utilizada no suplemento oferecido. Estudo realizado com 18 voluntários saudáveis verificou que ao utilizar uma proteína hidrolisada rica em triptofano, o aumento cerebral deste aminoácido e da função da serotonina eram maiores quando comparados com a utilização de uma proteína intacta (alfa-lactoalbumina) ou do triptofano puro (8).

Portanto, dentre outras inúmeras intervenções nutricionais que existem para o controle e tratamento de desordens psiquiátricas a utilização do triptofano pode ser uma alternativa eficiente. Porém, como foi visto, não basta apenas oferecer fontes de triptofano e/ou utilizar a suplementação, é preciso também entender quais as formas de utilização que são possíveis para escolha da melhor forma biodisponível a fim de aprimorar os resultados na prática clínica.

Referência Bibliográfica:
1- Moreira, C.N. Serotonina e comportamento agressivo-impulsivo / Serotonin and agressive and impulsive behaviour. Psiquiatr. biol;9(1):3-11, mar. 2001.
2- Russo S; Kema IP; Bosker F, et al. Tryptophan as an evolutionarily conserved signal to brain serotonin: molecular evidence and psychiatric implications. World J Biol Psychiatry;10(4):258-68, 2009.
3- Beulens JW; Bindels JG; de Graaf C, et al. Alpha-lactalbumin combined with a regular diet increases plasma Trp-LNAA ratio. Physiol Behav;81(4):585-93, 2004.
4- Sarwar G. Influence of tryptophan supplementation of soy-based infant formulas on protein quality and on blood and brain tryptophan and brain serotonin in the rat model. Plant Foods Hum Nutr;56(3):275-84, 2001.
5- Batool F; Ahmed S; Haleem DJ. Dietary supplementations of amino acids: evidence for enhanced serotonergic functions following haloperidol withdrawal in rat medial prefrontal córtex. J Coll Physicians Surg Pak;19(3):139-45, 2009.
6- Koopmans SJ; Guzik AC; van der Meulen J, et al. Effects of supplemental L-tryptophan on serotonin, cortisol, intestinal integrity, and behavior in weanling piglets. J Anim Sci;84(4):963-71, 2006.
7- SHAW, K.; TURNER, J.; DEL MAR, C. Tryptophan and 5-hydroxytryptophan for depression. Cochrane Database Syst Rev; 1 CD003198, 2002.
8- MARKUS, C.R.; FIRK, C.; GERHARDT, C., et al. Effect of different tryptophan sources on amino acid availability to the brain and mood in health volunteers. Psychopharmacology; 201:107–114, 2008.





Leite na Saúde Humana

É comum a discussão de que nenhum mamífero consome leite (e muito menos de outra espécie) após a amamentação. Porém, mais que este argumento, é fundamental entender o processo de evolução da espécie e as reações fisiológicas que o leite desencadeia para chegarmos a uma conclusão sensata se este é um alimento inofensivo ou pode realmente trazer malefícios(1,2).

O consumo de lacticínios se tornou possível somente após a domesticação dos animais [6100 a 5500 anos atrás)(3), sendo que o leite é, portanto, um alimento relativamente recente na alimentação do ser humano (cujo genoma não sofreu alterações significativas nos últimos 11.000 anos(1,2,4-20)], o que explica o porquê de cerca de 75% da população adulta mundial apresentar hipolactasia após o desmame(1,21) [o que pode resultar em intolerância à lactose, que se caracteriza por diversos sintomas de ordem gastrointestinal(22) – como flatulência, cãibras intestinais, dor e inchaço abdominais, náuseas, vômitos e diarréia].

Além disso, há a questão de o leite ser um alimento potencialmente alergênico. Já foram identificadas mais de 25 frações protéicas alergênicas no leite de vaca, dentre elas, as mais alergênicas são: soro-albumina, gama-globulina, alfa-lactoalbumina, beta-lactoglobulina e caseína(23).

A alergia alimentar clássica é mediada pelo IgE, com prevalência de 6 a 8 % na infância24. Entretanto, a maior porcentagem de alergia alimentar ao leite de vaca é mediada pelo IgG, podendo desencadear sintomas de 2 horas a 3 dias após o contato com os alérgenos (reação tardia), sendo portanto, de difícil diagnóstico(25).

Diversos estudos comprovaram a relação de alergia tardia(25,26) principalmente ao leite de vaca com otite(27), dermatite, rinite(28), sinusite, bronquite asmática(29). amigdalite, obesidade(30), aumento da resistência à insulina, aumento na formação de muco, gastrite, enterocolite, esofagite, refluxo, obstipação intestinal(31), enurese, enxaqueca(32), fadigas inexplicáveis, artrite reumatoide(33), falta de concentração, hiperatividade (ADHD)(34), dislexia, ansiedade e até mesmo depressão(25).

Entretanto, as proteínas do leite também podem induzir sintomas associados à doença celíaca (doença autoimune caracterizada pela intolerância ao glúten) em alguns pacientes que têm esta intolerância(35).

Outros estudos já relacionaram também o consumo de leite de vaca com diversas alterações metabólicas como hiperinsulinemia e resistência à insulina(36,39) que é alteração metabólica encontrada como base de diversas patologias como diabetes tipo 2, hipertensão, dislipidemia, obesidade abdominal, estado pró-trombótico e síndrome do ovário policístico(40). Veja a comparação entre índice glicêmico e resposta insulinêmica de leite e derivados e o pão branco (Figura 1)41.

Estudo de revisão realizado por Melnik (2008)(42) propõe que o consumo da proteína do leite induz hiperinsulinemia pós-prandial, alterando a relação hormônio de crescimento/fator de crescimento semelhante à insulina (IGF-1), com aumento constante dos níveis sanguíneos de IGF-1, que por sua vez está envolvido com a regulação do crescimento fetal, maturação das células-T no timo, crescimento, aparecimento de acne, aterosclerose, diabetes, obesidade, câncer e doenças neurodegenerativas. Ou seja, o consumo de laticínios poderia afetar a saúde humana nas diferentes fases da vida, promovendo o desenvolvimento de doenças crônicas.

Além deste fator, outra dificuldade encontrada são as embalagens dos leites. Em um estudo, foi observado que há migração de bisfenol A em latas de fórmulas infantis para o alimento, mesmo em temperatura ambiente, sendo que esta contaminação ocorre dentro do prazo de validade destes produtos(43), o que a longo prazo pode causar uma toxicidade que pode levar ao aparecimento de alterações metabólicas como: Puberdade precoce, Infertilidade, Esteatose hepática, Resistência à insulina, Diabetes, Obesidade(44).

Outros estudos também encontraram relação com câncer, principalmente de ovários(45-47), testículos(48) e próstata(49-50), doença de Parkinson(51-53), doenças cardiovasculares(54-56), artrite reumatoide(57), diabetes tipo (158-73), esclerose múltipla(74-78) e, inclusive, osteoporose(79-81), apesar de estudos de curto prazo referirem beneficio neste caso(82).

Portanto, o consumo do leite de vaca é algo que deve ser avaliado individualmente, considerando também os efeitos metabólicos desencadeados e não apenas a qualidade nutricional do mesmo, inclusive porque existem outras boas fontes de proteína e cálcio na alimentação humana.

Referência Bibliográfica:
1. CORDAIN, L.; EATON, S.B.; SEBASTIAN, A. et al. Origins and evolution of the Western diet: health implications for the 21st century. Am J Clin Nutr; 81(2):341-54, 2005.
2. EATON, S.B. The ancestral human diet: what was it and should it be a paradigm for contemporary nutrition? Proc Nutr Soc; 65(1):1-6, 2006.
3. COPLEY, M.S.; BERSTAN, R.; DUDD, S.N. et al. Direct chemical evidence for widespread dairying in prehistoric Britain. Proc Natl Acad Sci USA; 100:1524–9, 2003.
4. AGATSTON, A. The South Beach Heart Program: The 4-Step Plan That Can Save Your Life. Emmaus: Rodale Books, 2007.
5. COLGAN, M. Nutrition for Champions. San Diego: CI Publications, 2007.
6. WHITAKER, J. The Whitaker Wellness Weight Loss Program. Nashville: Rutledge Hill Press, 2006.
7. CHALLEM, J. Feed Your Genes Right: Eat to Turn Off Disease-Causing Genes and Slow Down Aging. New Jersey: John Wiley & Sons Inc, 2005.
8. SOMER, E. The Origin Diet: How Eating Like Our Stone Age Ancestors Will Maximize Your Health. New York: Owl Books, 2002.
9. HAWKING, S.W. The Universe in a Nutshell. London: Bantam Press, 2001.
10. EADES, M.R. EADES, M.D. The Protein Power Lifeplan. New York: Warner Books, 2001.
11. AUDETTE, R.N. Neanderthin. New York: Saint Martin's Press, 2000.
12. NESSE, R.M.; WILLIAMS, G.C. Why we get sick. The new science of Darwinian medicine. New York: Times Books, 1994.
13. EATON, S.B.; CORDAIN, L.; SEBASTIAN, A. The Ancestral Biomedical Environment In: AIRD, W.C. Endothelial Biomedicine. Cambridge: Cambridge University Press, 2007.
14. JONSSON, T.; AHREN, B.; PACINI, G. et al. Paleolithic diet confers higher insulin sensitivity, lower C-reactive protein and lower blood pressure than a cereal-based diet in domestic pigs. Nutr Metab (Lond); 2:3-39, 2006.
15. SEBASTIAN, A.; FRASSETTO, L.A.; SELLMEYER, D.E. et al. The evolution-informed optimal dietary potassium intake of human beings greatly exceeds current and recommended intakes. Semin Nephrol; 26(6):447-53, 2006.
16. DE GRAAF, C. Effects of snacks on energy intake: an evolutionary perspective. Appetite; 47(1): 18-23, 2006.
17. MORRIS Jr, R.C.; SCHMIDLIN, O.; FRASSETTO, L.A. et al. Relationship and interaction between sodium and potassium. J Am Coll Nutr; 25: 262S-270S, 2006.
18. SEBASTIAN, A.; FRASSETTO, L.A.; MERRIAM, R.L. et al. Estimation of the net acid load of the diet of ancestral preagricultural Homo sapiens and their hominid ancestors. Am J Clin Nutr; 76(6): 1308-16, 2002.
19. SIMOPOULOS, A.P. Evolutionary aspects of omega-3 fatty acids in the food supply. Prostaglandins Leukot Essent Fatty Acids; 60(5-6):421-9, 1999.
20. MACAULAY, V.; RICHARDS, M.; HICKEY, E. et al. The emerging tree of West Eurasian mtDNAs: a synthesis of control-region sequences and RFLPs. Am J Hum Genet; 64(1):232-49, 1999.
21. THE NCMHD CENTER OF EXCELLENCE FOR NUTRITIONAL GENOMICS. Disponível em: Acesso em 20/07/2007.
22. SHILS, M.E.; SHIKE, M.; ROSS, A.C. et al. Modern Nutrition in Health and Disease. 10 ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 2005.
23. STROBEL, S. Dietary manipulation and induction tolerance. J Pediatr; 121:S74-79, 1992.
24. THONG, B.Y.; HONG, B.Y.; HOURIHANE, J.O. Monitoring of IgE-mediated food allergy in childhood. Acta Paediatr, 93(6): 759-64, 2004.
25. BROTOFF, J.; GAMLIN, L. Food allergies and food intolerance. Bloomsbury: Vermont, 2000. 414p.
26. GABY, A.R. The role of hidden food allergy/intolerance in chronic disease. Alt Med Rev; 3(2): 90-100, 1998.
27. NSOULI, T.M.; NSOULI, S.M.; LINDE, R.E. et al. Role of food allergy in serous otitis media. Ann Allergy; 73:215-21, 1994.
28. OGLE, K.A.; BULLOCK, J.D. Children with allergic rhinitis and/or bronchial asthma treated with elimination diet. Ann Allergy; 39:8-11, 1997.
29. OGLE, K.A.; BULLOCK, J.D. Children with allergic rhinitis and/or bronchial asthma treated with elimination diet. Ann Allergy; 39:8-11, 1977.
30. MELNIK, B. Milk consumption: aggravating factor of acne and promoter of chronic diseases of Western societies. JDDG; 7:1-10, 2009.
31. IACONO,G.; CARROCCIO, A.; CAVATAIO, F. et al. Chronic constipation as a symptom of cow milk allergy. The Journal of Pediatrics; 126 (1): 34-39, 1995.
32. MONRO, J.; CARINI, C.; BROSTOFF, J. Migraine is a food allergy disease. Lancet; 2:719-721, 1994.
33. RATNER, D.; ESHEL, E.; VIGDER, K. Juvenile rheumatoid arthritis and milk allergy. J R Soc Med, 78:410-413, 1985.
34. BORIS, M., MANDEL, F.S. Foods and additives are common causes of the attention deficit hyperactive disorder in children. Ann Allergy; 72:462-468, 1994.
35. CABRERA-CHÁVEZ, F.; DE LA BARCA, A.M. Bovine milk intolerance in celiac disease is related to IgA reactivity to alpha- and beta-caseíns. Nutrition; 25(6):715-6, 2009).
36. OSTMAN, E.M. I. Inconsistency between glycemic and insulinemic responses to regular and fermented milk products. Am J Clin Nutr; 74:96-100, 2001.
37. LILJEBERG, E.; BJÖRCK, H.I. Milk as a supplement to mixed meals may elevate postprandial insulinaemia. Eur J Clin Nutr; 55:994-999, 2001.
38. HOYT, G.; HICKEY, M.S.; CORDAIN, L. et al. Dissociation of the glycaemic and insulinaemic responses to whole and skimmed milk. Br J Nutr; 93(2):175-7, 2005.
39. HOPPE, C. et al. High intakes of milk, but not meat increase s-insulin and insulin resistance in 8-year-old boys. Eur J Clin Nutr; 59(3):393-8, 2005.
40. CORDAIN, L.; EADES, M.R.; EADES, M.D. Hyperinsulinemic diseases of civilization: more than just syndrome X. Comp Biochem Physiol Part A; 136:95-112, 2003.
41. OSTMAN, E.M.; LILJEBERG ELMSTAHL, H.G.; BJORCK, I.M. Inconsistency between glycemic and insulinemic responses to regular and fermented milk products. Am J Clin Nutr; 74:96 –100, 2001.
42. MELNIK, B.C. Milk – the promoter of chronic western disease. Medical Hypotheses; 72, 631-639, 2009.
43. CAO, X.L.; CORRIVEAU, J.; POPOVIC, S. Migration of bisfenol A from can coating to liquid infant formula during storage at room temperature. J Food Prot; 72(12):2571-4, 2009.
44. BAILLIE-HAMILTON, P.F. Chemical toxins: a hypothesis to explain the global obesity epidemic. J Altern Complement Med; 8: 185-192, 2002.
45. CRAMER, D.W.; HARLOW, B.L.; WILLETT, W.C. et al. Galactose consumption and metabolism in relation to the risk of ovarian cancer. Lancet; 2(8654):66-71, 1989.
46. FAIRFIELD, K.M. A prospective study of dietary lactose and ovarian cancer. Int J Cancer; 110(2):271-7, 2004.
47. SMITH-WARNER, S. Dairy Products, Calcium, Vitamin D, Lactose and Ovarian Cancer: Results from a Pooled Analysis of Cohort Studies. In: HARVARD and McGILL MEDICINE CANCER PREVENTION. Symposium on Milk, Hormones and Human Health, 2006.
48. STANG, A.; AHRENS, W.; BAUMGARDT-ELMS, C. et al. Adolescent milk fat and galactose consumption and testicular germ cell cancer. Cancer Epidemiol Biomarkers Prev; 15(11):2189-95, 2006.
49. MITROU, P.N. A prospective study of dietary calcium, dairy products and prostate cancer risk (Finland). Int J Cancer; 120(11):2466-73, 2007.
50. GIOVANNUCCI, E. Dairy and Calcium intake and Prostate Cancer Risk: A Review of epidemiological evidence. In: HARVARD and McGILL MEDICINE CANCER PREVENTION. Symposium on Milk, Hormones and Human Health, 2006.
51. CHEN, H. Diet and Parkinson's disease: a potential role of dairy products in men. Ann Neurol; 52(6):793-801, 2002.
52. PARK, M. Consumption of milk and calcium in midlife and the future risk of Parkinson disease. Neurology; 64(6):1047-51, 2005.
53. CHEN, H. Consumption of dairy products and risk of Parkinson's disease. Am J Epidemiol; 165(9):998-1006, 2007.
54. MOSS, M. 'Does Milk Cause Coronary Heart Disease?'. J Nutr Environmental Med; 3(12): 207-216, 2002.
55. McLACHLAN, C.N.S.; CLARKE, A.J. Heart Disease, Diabetes, Gut Immune Suppression and Epidemiology Studies. J Nutr Environmental Med; 3(12): 197-206, 2002.
56. TAILFORD, K.A.; BERRY, C.L.; THOMAS, C.L. et al. A casein variant in cow's milk is atherogenic. Atherosclerosis; 170(1):13-9, 2003.
57. CORDAIN, L.; TOOHEY, L.; SMITH, M.J. Modulation of immune function by dietary lectins in rheumatoid arthritis. Br J Nutr; 83:207-217, 2000.
58. DAHLQUIST, G. Etiological aspects of insulin-dependent diabetes mellitus: an epidemiological perspective. Autoimmunity; 15(1):61-5, 1993.
59. KOSTRABA, J.N.; CRUICKSHANKS, K.J.; LAWLER-HEAVNER, J. et al. Early exposure to cow's milk and solid foods in infancy, genetic predisposition, and risk of IDDM. Diabetes; 42(2):288-95, 1993.
60. FAVA, D.; LESLIE, R.D.G.; POZZILLI, P. Relationship between dairy product consumption and incidence of IDDM in childhood in Italy. Diabetes Care; 17:1488- 1490, 1994.
61. GIMENO, S.G.; DE SOUZA, J.M. IDDM and milk consumption. A case-control study in São Paulo, Brazil. Diabetes Care; 20(8):1256-60, 1997.
62. DAHLQUIST, G. The aetiology of type 1 diabetes: an epidemiological perspective. Acta Paediatr Suppl; 425:5-10, 1998.
63. HYPPÖNEN, E.; KENWARD, M.G.; VIRTANEN, S.M. et al. Infant feeding, early weight gain, and risk of type 1 diabetes. Childhood Diabetes in Finland (DiMe) Study Group. Diabetes Care; 22(12):1961-5, 1999.
64. WAHLBERG, J.; FREDRIKSSON, J.; NIKOLIC, E. et al. The ABIS-Study Group. Environmental factors related to the induction of beta-cell autoantibodies in 1-yrold healthy children. Pediatr Diabetes; 6(4):199-205, 2005.
65. WAHLBERG, J.; VAARALA, O.; LUDVIGSSON, J. et al. ABIS-study group. Dietary risk factors for the emergence of type 1 diabetes-related autoantibodies in 21/2 year-old Swedish children. Br J Nutr; 95(3):603-8, 2006.
66. GERSTEIN, H. Cow's milk exposure and type I diabetes mellitus. A critical overview of the clinical literature. Diabetes Care; 17: 13-19, 1994.
67. DAHLQUIST, G. Non-genetic risk determinants of type 1 diabetes. Diabetes Metab; 20(3):251-7, 1994.
68. HARRISON, L.C.; HONEYMAN, M.C. Cow's milk and type 1 diabetes: the real debate is about mucosal immune function. Diabetes; 48(8):1501-7, 1999.
69. RENNERT, O.M.; MENG, X.L.; CHAN, W.Y. Update on the genetics and pathophysiology of type I diabetes mellitus. Pediatr Ann; 28(9):570-5, 1999.
70. AKERBLOM, H.K.; VAARALA, O.; HY6OTY, H. et al. Environmental factors in the etiology of type 1 diabetes. Am J Med Genet; 115(1):18-29, 2002.
71. VIRTANEN, S.M.; KNIP, M. Nutritional risk predictors of beta-cell autoimmunity and type 1 diabetes at a young age. Am J Clin Nutr; 78:1053-67, 2003.
72. KNIP, M.; AKERBLOM, H.K. Early nutrition and later diabetes risk. Adv Exp Med Biol; 569:142-50, 2005.
73. KNIP, M.; VEIJOLA, R.; VIRTANEN, S.M. et al. Environmental triggers and determinants of type 1 diabetes. Diabetes; Suppl 2:S125-36, 2005.
74. AGRANOFF, B.W.; GOLDBERG, D. Diet and the geographical distribution of multiple sclerosis. Lancet; 2:1061-66, 1974.
75. BUTCHER, P.J. Milk consumption and multiple sclerosis--an etiological hypothesis. Med Hypotheses; 19(2):169-78, 1996.
76. MALOSSE, D. Correlation between milk and dairy product consumption and multiple sclerosis prevalence: a worldwide study. Neuroepidemiol; 11(4-6):304-12, 1992.
77. MALOSSE, D.; PERRON, H. Correlation analysis between bovine populations, other farm animals, house pets, and multiple sclerosis prevalence. Neuroepidemiol; 12(1):15-27, 1993.
78. LAUER, K. Diet and multiple sclerosis. Neurology; 49(2 Suppl 2):S55-61, 1997.
79. OWUSU, W.; WILLEETT, W.C.; FESKANICH, D. et al. Calcium intake and the incidence of forearm and hip fractures among men. J Nutr; 127:1782-7, 1997.
80. FESKANICH, D.; WILLETT, W. Milk, Dietary Calcium, and Bone Fractures in Women: A 12-Year Prospective Study. Am J Public Health; 87(6):992-7, 1997.
81. FESKANICH, D.; WILLETT, W.C.; COLDITZ, G.A. Calcium, vitamin D, milk consumption, and hip fractures: a prospective study among postmenopausal women. Am J Clin Nutr; 77(2):504-11, 2003.
82. HOLICK, M.F.; DAWSON-HUGHES, B. Nutrition and Bone Health. Towa: Human Press Inc., 2004.